"*RÁDIO SOTELO*"

domingo, 23 de dezembro de 2012


O que  significa “não estar debaixo da lei,
mas debaixo da graça”?

Há certos versículos na Bíblia que são tomados muitas vezes de modo isolado e fora do contexto. Isto acaba gerando, maleficamente, uma doutrina estranha e perigosa em muitos cristãos.

Por exemplo, quantas vezes ouvimos pregadores e irmãos dizendo: - “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará...” Muitos entendem que Yeshua (Jesus) é a verdade e Ele liberta como algo automático, ou seja, conheça a Jesus e você será liberto que tudo que lhe aprisiona, espontaneamente. Claro, Jesus tem poder suficiente para isto como Filho de Deus. Mas, se lermos atentamente, o texto diz em termos completamente condicionantes, como:- “Se permanecerdes na minha palavra e verdadeiramente sois meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará...”. Em outras palavras, Yeshua põe uma condição a todo aquele que Nele crê precisa permanecer fiel aos princípios da Palavra, ou seja, aos ensinamentos e mandamentos de Deus. Além disso, Ele exige que sejamos verdadeiros discípulos Dele, testemunhando a verdade e o poder transformador de Sua Palavra. Yeshua é a Instrução do Pai, isto é, a Palavra sob a forma de mandamentos, estatutos e ordenanças, a própria Torá, que se fez carne e que habitou entre nós. Se essas duas condições forem observadas, então, conheceremos a Verdade, as virtudes reveladas na pessoa de Yeshua que nos libertará cada vez mais. Estamos num processo de libertação desde o dia em que nascemos de novo em Espírito, convergindo nossos pensamentos, emoções, sentimentos (alma) e disciplinando nosso corpo em santidade ao  Senhor. Se bem testemunhamos em ações e frutos estaremos sendo sempre libertos de tudo aquilo que nos aprisionou e escravizou no passado e, também, de coisas do presente que contaminam nossa alma.

Outro versículo muito mal compreendido é o citado pelo apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos: -
“Pois o pecado não terá domínio sobre vós, porquanto não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Rmanos 6:14). Quase todo cristão entende que o importante e necessário é estar coberto da graça da ressurreição de Cristo e que isto suplanta a lei dada por Moisés sob a forma de mandamentos, estatutos e ordenanças. Eles chamam isto de Velho Testamento (terminologia adotada pela primeira vez pelo Bispo Melito de Sardes no II século). Tais pessoas pensam rapidamente que o Velho Testamento foi uma dispensação, um tempo já passado e que não se aplica mais no presente. Pensam esses também, que agora todos os cristãos estão num novo tempo da graça e que o chamado Novo Testamento superou o Antigo que se tornou sem efeito e sem sentido, algo obsoleto. Então, esses pregadores, cheios de um espírito ensoberbecedor de vaidade e arrogância, olham para a primeira parte das Escrituras como algo arcaico, ultrapassado que fora destinado ao povo errante no deserto, o povo judeu, o qual foi substituído pelos gentios crentes em Cristo. Esses gentios tornaram-se os verdadeiros despenseiros da graça e das promessas dadas ao povo hebreu. Que tamanho engano! Que errante
descontextualização das Sagradas Escrituras! Esse tipo de pregador que assim pensa, torna-se um fiel inquisidor contra aqueles que pensarem de modo diferente dele. Fizeram primeiro suas próprias doutrinas, achando que tudo sabem, pois são os oráculos do Deus da graça.

Esquecem-se esses que Yeshua não veio anular a lei (a Torá), mas cumpri-la (Mt 5:17). Yeshua nunca insinuou tais ensinamentos de uma graça fora do contexto da Torá. Pelo contrário, Ele ensinava os princípios da Torá dados pelo Seu Pai a quem Ele se submetia dizendo que o Pai era maior do que Ele. Ele cumpria a Palavra e a vontade de Seu Pai como Filho totalmente obediente. Como poderia Yeshua revogar ou anular os princípios da Torá? Isto é incabível!

Então, como podemos entender o versículo que diz “não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça”? Muito simples. Se prestarmos atenção, o versículo 14 inicia dizendo que o pecado não terá domínio sobre nós. Ou seja, se o pecado não nos domina em nada, se esta condição é 100% satisfeita, então, não precisamos da lei que nos mostra a falha e o pecado. Primeiro Torá significa acertar o alvo da vontade de Deus, ou seja, é o contrário da palavra Chatá ( pecado, ou errar o alvo). Para entender bem este versículo podemos imaginar uma estrada ou uma BR, a 040, por exemplo, que liga Belo Horizonte ao Rio de Janeiro. Nessa rodovia encontramos todo tipo de leis de trânsito. Encontramos placas indicando sentido obrigatório, outras mostrando cursas acentuadas à esquerda, à direita, velocidade máxima de 40 km/hora, ponte estreita, pista derrapante, etc. etc.

Então, se um motorista trafegar por esta rodovia obedecendo tais leis de trânsito, ele não será punido com multas e chegará seguro ao seu destino. O papel das placas de trânsito é proteger todo motorista obediente e pré-disposto a cumprir, seguindo fielmente suas recomendações. Imaginem agora que esse motorista dirige um ônibus que faz diariamente esse trajeto de BH ao Rio e do Rio a BH. Há anos ele percorre essa estrada.

Ele conhece tanto esta BR 040 que se nós tirássemos ou arrancássemos todas as placas dessa BR, ele por tê-las na mente, não sentiria falta das mesmas. De modo análogo, é o que Paulo está dizendo aos Romanos. Se o pecado não tiver domínio sobre nós, ou seja, nós conhecemos tanto as leis da Torá, tendo-as em nossos corações, sendo obedientes a elas, que podemos viver, trafegar pela estrada da vida, sem essas leis, pois estamos num estado de graça, ou seja, temos todas as leis escritas em nossos corações. Em outras palavras, não encontrando pecado nenhum em nossa vida, não precisamos de leis que nos mostrem nossas falhas, pois somos irrepreensíveis. É neste contexto que Paulo afirma que não estamos debaixo da lei. Em Romanos 8, ele volta afirmar que a lei do pecado gera a morte, mas que a lei do Espírito (novo nascimento em Cristo) gera a vida. Ou seja, há duas leis em tempo real. Se não estivermos na lei do Espírito, então, automaticamente estaremos sob a lei do pecado que gera a morte. Uma lei não anula a outra, mas elas coexistem ao mesmo tempo. Por exemplo, há uma lei da gravidade, ou seja, tudo o que for lançado para cima, cai em direção ao solo, nada flutua ou sobe naturalmente. Mas, se observarmos um pássaro, este voa. Por quê? Porque ele está numa outra lei, a lei do vôo, que neutraliza tornando a lei da gravidade sem efeito. Esta lei do vôo exige asas, uma forma aerodinâmica e um tremendo empuxo de baixo para cima, força por meio da qual ele sobe. Assim, o pássaro, batendo suas asas pode voar e voar alto superando a lei da gravidade. Da mesma forma, os aviões, seguindo a lei do vôo podem vencer a gravidade e voar enquanto vencerem essa lei. Se esta cessar, ele cairá como uma pedra. De maneira:

1 Lembremo-nos que encontramos na Torá outras leis que não se referem ao pecado. Há, por exemplo, leis éticas, alimentares, sociais, higiênicas, trabalhistas, etc. que visam uma melhor qualidade de vida.

2 Análoga, um crente em Yeshua, nascido de novo, andando em Espírito vence a lei do pecado, gerando vida. Mas, se por um motivo ou outro, ele deixar de andar no Espírito, ele voltará a ser regido pela lei do pecado que o domina e o escraviza, gerando uma morte espiritual, uma brutal separação do relacionamento com Deus. Yeshua é o instrumento, é a pessoa com natureza divina que venceu o pecado em sua carne num madeiro, ressuscitando, venceu a morte e por isso ele pode gerar a vida para qualquer um que Nele crê. Ele nos faz mudar de lei, a do pecado que gera morte para a lei do Espírito que gera a vida, a vida eterna. Assim, se estamos em plenitude de Espírito, produzindo frutos, como amor, paz, alegria, mansidão, bondade, benignidade, fidelidade, longanimidade e domínio próprio, as leis da Torá que ser referem ao pecado não se aplicarão a nós. Não que elas não sejam importantes ou que foram anuladas, mas elas não se aplicam em nós desde que a natureza do pecado esteja morta e não produza as obras da carne, como a idolatria, a prostituição, a mentira, o ciúme, a inveja, a contenda, etc.

A grande verdade é que embora estejamos na graça salvadora de Yeshua, vivemos num mundo que jaz em trevas (Egito, sistema do mundo) e somos constantemente contaminados com ele. Portanto, a natureza do pecado não habita em nós, mas lamentavelmente ainda pecamos e a Torá nos mostra o pecado, a nossa falha e o errar o alvo de Deus. Por outro lado, a Graça de Yeshua funciona como um “antibiótico” combatendo o pecado e o eliminando de nossas vidas. Assim, precisamos tanto da graça
como da lei. Suas duas leis que precisam estar simultaneamente co-existindo em nossa vida.

Há, portanto, dois santos montes presentes nessa estrada da vida. Saímos do “Egito” (escravidão do pecado) quando encontramos o poderoso e nobre Monte Sião, o Gólgota, onde Yeshua levou em si e tornou-se pecado por nós, nos dando a graça do perdão e do novo nascimento como nova criatura. Mas, se ainda vivemos neste planeta terra a caminho da “terra prometida”, a Canaã celestial, que um dia virá e se tornará real para nós, então, precisamos até lá do Monte Sinai, que nos dá leis sinalizando nosso caminho, garantindo nossa chegada segura, nossa vitória. Naquele dia, estaremos sentados à mesa participando das Bodas do Cordeiro com o nosso Redentor, com o nosso noivo, agora nosso esposo eterno, Yeshua HaMashiach.

Que o Espírito Santo de Deus nos traga sempre revelações que nos possibilitará nessa
vida uma caminha segura e certa ao destino final: nossa volta ao Éden