"*RÁDIO SOTELO*"

domingo, 30 de dezembro de 2012


A História Secreta dos Jesuítas
Edmond Paris
Traduzido para o português em 1997 por Josef Sued
21 edição: 2* tiragem / Ano 2000
Índice
BH Introdução dos editores
Introdução do Dr. Alberto Rivera
O Homem Edmond Paris
Capítulo 1
Fundação da Ordem Jesuíta
Ignácio de Loyola
Os Exercícios Espirituais
Fundação da Companhia
O Espírito da Ordem
Os Privilégios da Companhia
Capítulo 2
Os Jesuítas na Europa Durante os Séculos XVI e XVII
Itália, Portugal e Espanha
Alemanha
Os Jesuítas: O General Boulanger e o Caso Dreyfus
Os Anos Antes da Guerra 1900-1914
Capítulo 3
Missões no Estrangeiro
índia, Japão e China
As Américas: O Estado Jesuíta do Paraguai
Capítulo 4
Os Jesuítas na Sociedade Européia
O Ensino dos Jesuítas A Moral dos Jesuítas O Eclipse da Companhia
Renascimento da Companhia de Jesus Durante o Século XIX
O Segundo Império e a Lei Falloux - A Guerra de 1870
Os Jesuítas em Roma - O Sílabo
Os Jesuítas na França de 1870 a 1885
Capítulo 5
O Ciclo Infernal
A Primeira Guerra Mundial
Preparativos para a Segunda Guerra Mundial
A Agressão Alemã e os Jesuítas: Áustria, Polônia, Thecoslováquia e Yugoslávia
O Movimento Jesuíta na França Antes e Durante a Guerra de 1939-1945
A Gestapo e a Companhia de Jesus
Os Campos da Morte e a Cruzada Anti-Semita
Os Jesuítas e o Collegium Russicum O Papa João XXIII Tira a Máscara
Capítulo 6 Conclusão
Capítulo 7 Bibliografia
Periódicos
Suíça
Polônia e Rússia
Suécia e Inglaterra
França
Introdução dos Editores
Não há pessoa mais qualificada para fazer a introdução do livro de Edmond Paris, "A
História Secreta dos Jesuítas", que o Dr. Alberto Rivera, ex-sacerdote jesuíta, criado
desde os sete anos de idade em um seminário na Espanha, sob extremo juramento e os
mais rígidos métodos de indução, treinado inclusive no Vaticano, que resumiu a história
dos jesuítas.
Os dados contidos neste livro são factuais e amplamente documentados, encontrando-se
à disposição para consulta de todos os cristãos, ao redor do mundo, que crêem na Bíblia,
a qual declara:
"O meu povo está sendo destruído porque lhe falta o conhecimento". Oséias 4.6
Introdução do Dr. Alberto Rívera
Os homens mais perigosos são aqueles que aparentam muita religiosidade,
especialmente quando estão organizados e detêm posições de autoridade,
contando com o profundo respeito do povo, o qual ignora seu sórdido jogo pelo
poder nos bastidores.
Esses homens chamados "religiosos", que fingem amar a Deus, recorrerão ao
assassinato, incitarão revoluções e guerras, se necessário, em apoio à sua
causa. São políticos ardilosos, inteligentes, gentis e de aparência religiosa,
vivendo em um obscuro mundo de segredos, intrigas e santidade mentirosa.
Esse padrão humano, observado em A História Secreta dos Jesuítas,
espiritualmente falando, pode ser verificado entre os escribas, fariseus e
saduceus do tempo de Jesus Cristo.
Os "pastores primitivos" observavam muito do antigo sistema babilônico, além da
Teologia judaica e da Filosofia grega. Todos eles perverteram a maior parte dos
ensinamentos de Cristo e de Seus apóstolos, construindo as bases para a
máquina do catolicismo romano, que estava por vir. Piamente, atacaram,
perverteram, acrescentaram e suprimiram da Bíblia.
Esse espírito religioso anticristão, trabalhando através deles, pôde ser visto
novamente quando Ignácio de Loyola criou os jesuítas para, secretamente,
atingir dois grandes objetivos da instituição católica romana:
1) Poder político universal
2) Uma igreja universal, no cumprimento das profecias de Apocalipse 6.13-17 e
18.
No momento em que Ignácio de Loyola apareceu em cena, a Reforma
Protestante tinha danificado seriamente o sistema católico romano. Ele chegou à
conclusão que a única possibilidade de sobrevivência para a sua "igreja" seria
através do reforço dos cânones.
Isso aconteceria não pelo simples aniquilamento das pessoas, conforme os
frades dominicanos se incumbiam de fazer através da Inquisição, mas pela
infiltração e penetração em todos os setores da sociedade. "O protestantismo
deve ser conquistado e usado para o benefício dos papas", era a proposta
pessoal de Ignácio de Loyola ao papa Paulo III.
Os jesuítas começaram a trabalhar imediatamente, infiltrando-se em todos os
grupos protestantes, incluindo-se aí suas famílias, locais de trabalho, hospitais,
escolas, colégios e demais instituições. Atualmente, têm sua missão
praticamente concluída.
A Bíblia coloca o poder de uma igreja local nas mãos de um pastor de Deus. Os
astutos jesuítas, no entanto, conseguiram com sucesso tirar aquele poder das
denominações evangélicas ao longo do tempo, tendo conseguido agora lançar
quase todas as denominações protestantes nos braços do Vaticano. Isso foi
exatamente o que Ignácio de Loyola se propôs a atingir: uma igreja universal e o
fim do protestantismo.
Na medida em que o leitor for se aprofundando na leitura do livro A História
Secreta dos Jesuítas, perceberá a existência de um paralelo entre os setores
religioso e político. O autor, Edmond Paris, revela a infiltração dos jesuítas nos
governos e nações do mundo, para manipulação do curso da História, erguendo
ditaduras, enfraquecendo democracias, abrindo caminho para a anarquia social,
política, moral, militar, educacional e religiosa.
O Homem Edmond Paris
Através dos trabalhos proféticos do livro do Apocalipse, Edmond Paris
se tornou em um mártir para Jesus. Ao expor tal conspiração, apostou
sua vida na verdade dos sinais bíblicos a serem conhecidos.
Edmond Paris nunca chegou a me conhecer, mas o conheci sem
termos sido apresentados pessoalmente, quando, com outros jesuítas e
sob juramento, fui instruído a respeito dos nomes de instituições e
indivíduos na Europa considerados perigosos para os objetivos da
instituição católica romana. Seu nome nos foi passado nessa ocasião.
Obras de Edmond Paris: Le Vatican Contre La France Genocide in the
Satellite Croatia The Vatican Against Europe.
As obras de Edmond Paris sobre o catolicismo romano fizeram com que
os jesuítas assumissem como compromisso: destruí-lo; destruir sua
reputação, inclusive de sua família, e destruir seu trabalho. Até hoje,
estas grandes obras de Edmond Paris têm sido adulteradas, mas
pedimos que Deus continue a preservá-las, pois são extremamente
necessárias para a salvação do povo católico romano.
Prefácio
Um escritor do século passado, Adolphe Michel, lembrava que Voltaire estimava
em seis mil o número de obras publicadas sobre os jesuítas àquela época. 'A
que número chegaremos um século depois?", perguntava Adolphe Michel,
apenas para terminar em seguida: "Não importa. Enquanto houver jesuítas, livros
terão de ser escritos contra eles. Nada mais pode ser dito de novo sobre eles,
mas as novas gerações de leitores surgem todos os dias, e esses leitores
procurarão por livros velhos?" A razão a qual acabamos de mencionar seria mais
do que suficiente para justificar a retomada desse assunto exaustivamente
discutido.
De fato, muitos dos primeiros livros retratando a história dos jesuítas não podem
mais ser encontrados. Apenas em bibliotecas públicas ainda podem ser
consultados, o que os torna inacessíveis à maior parte dos leitores.
Com o propósito de informar suscintamente ao público em geral, pareceu-nos
necessário um sumário dessas obras.
Há também outra razão, tão importante quanto a que acabamos de mencionar.
Ao mesmo tempo em que novas gerações de leitores surgem, novas gerações
de jesuítas aparecem, e estes, trabalham ainda hoje, com os mesmos métodos
tortuosos e tenazes com os quais tão freqüentemente no passado fizeram
funcionar os reflexos defensivos de nações e governos.
Os filhos de Loyola, mais do que nunca, são a ala dominante da Igreja Romana.
Tão bem disfarçados quanto antigos, continuam a ser os mais eminentes
"ultramontanos"; os agentes discretos mas eficazes da Santa Sé em todo o
mundo; os campeões camuflados de sua política; a "arma secreta do papado".
Este livro é ao mesmo tempo uma retrospectiva e atualização da história do
jesuitismo. Pelo fato da maioria das obras referentes aos jesuítas não
mencionarem o papel primordial deles nos eventos que estão subvertendo o
mundo nos últimos cinqüenta anos, acreditamos ter chegado o momento de
superarmos essa lacuna ou, mais precisamente, iniciarmos com nossa modesta
contribuição um estudo ainda mais profundo sobre o assunto.
Fazemo-lo, sem ignorar os obstáculos a serem enfrentados pelos autores não -
apologistas, desejosos de tornarem públicos escritos sobre esse assunto tão
incandescente.
De todos os fatores integrantes da vida internacional de um século cheio de
confusões e transtornos, um dos mais decisivos - e ainda não suficientemente
reconhecidos - reside na ambição da Igreja Romana.
Seu desejo secular de estender sua influência ao Oriente fez dela o aliado
"espiritual" do Pan-Germanismo e, ainda, sua cúmplice na tentativa de
conquistar poder supremo, em duas ocasiões, 1914 e 1939, trazendo morte e
ruína aos povos da Europa. O público praticamente ignora a responsabilidade
absoluta do Vaticano e seus jesuítas no início das duas guerras mundiais - uma
situação que pode ser parcialmente explicada pelos fundos gigantescos à
disposição do Vaticano e seus jesuítas, dando-lhes poder em muitas esferas da
vida social, especialmente a partir do último conflito.
Na realidade, o papel desempenhado por eles nesses eventos trágicos, quase
nem chegou a ser mencionado até o presente momento, à exceção dos
apologistas, ansiosos por disfarçá-lo. É com o objetivo de corrigir isso e
estabelecer os fatos verdadeiros que apresentamos nesta e em outras obras a
atividade política do Vaticano na atualidade - atividade esta que também conta
com a participação dos jesuítas.
Apesar da tendência generalizada cada vez maior de uma "laicização" (exclusão
da religiosidade); do progresso inelutável do racionalismo, que reduz um pouco a
cada dia o domínio do "dogma", a Igreja Romana não poderia desistir do grande
objetivo, o qual tem sido seu propósito desde o início: reunir sob o seu domínio
todas as nações da Terra. Essa "missão" monumental deve continuar,
independentemente do que aconteça, tanto entre os "pagãos" quanto entre os
"cristãos separados".
O clero secular tem, em especial, a tarefa de sustentar as posições adquiridas, o
que é particularmente difícil hoje em dia, enquanto fica a cargo de certas ordens
regulares o aumento do rebanho de fiéis, pela conversão dos "hereges" e
"pagãos", um trabalho ainda mais árduo.
A tarefa é de preservar ou adquirir, defender ou atacar e, na frente de batalha,
está a força de combate da Companhia de Jesus - os jesuítas. Essa companhia
não é secular nem regular nos termos de seus estatutos; é, no entanto, um tipo
sutil, intervindo quando e onde for conveniente, dentro e fora da Igreja.
Resumindo: "A Companhia de Jesus é o agente mais qualificado, mais
perseverante, mais destemido e mais convicto da autoridade papal", como a
descreveu um de seus melhores historiadores.
Veremos de que maneira esse corpo de janízaros (tropa de choque) foi formado
e que tipo de serviço inestimável dedicou ao papado. Verificaremos também o
quanto esse zelo foi realmente efetivo, a ponto de se tornar indispensável à
instituição que servia, exercendo tamanha influência que seu prior era chamado,
e com razão, de o "Papa Negro", pois tornava-se cada vez mais difícil distinguir,
no governo da Igreja, a autoridade do papa e a do seu poderoso coadjutor.
O papa, não satisfeito em dar apenas o seu "apoio" pessoal a Hitler, concedeu
dessa forma o apoio moral do Vaticano ao Reich nazista! Ao mesmo tempo em
que o terror estava começando a reinar do outro lado do Reno, e era
secretamente aceito e aprovado, os assim chamados "camisa marron" já tinham
posto quarenta mil pessoas em campos de concentração.
Os massacres organizados e perseguições se multiplicavam, ao som dessa
marcha nazista: "Quando o sangue judeu escorrer pela lâmina, nos sentiremos
melhor novamente" (Horst- Wessel - Lied).
Durante os anos seguintes, Pio XII viu coisas ainda piores, sem se alterar. Não é
de surpreender que os dirigentes católicos da Alemanha competissem entre eles
na servidão ao regime nazista, encorajados que eram pelo seu "mestre" romano.
Seria importante ler os delírios ensandecidos e as acrobacias verbais de
teólogos oportunistas, dentre eles Michael Schmaus, o qual foi posteriormente
elevado por Pio XII a "alto dignatário da Igreja", e descrito como "o grande
teólogo de Munique" pela publicação La Croix, em 2 de setembro de 1954. Ou
ainda um certo livro intitulado Katholisch Konservatives Erbgut, sobre o qual
alguém escreveu:
"Esta antologia oferece-nos textos dos principais teóricos católicos da Alemanha,
de Gorres a Vogelsang, fazendo-nos crer que o nacional-socialismo nasceu pura
e simplesmente de idéias católicas" (Gunther Buxbaum, Mercure de France, 15
de janeiro de 1939).
Os bispos, obrigados a fazer um voto de obediência a Hitler, devido ao Tratado,
sempre tentaram superar uns aos outros em sua "devoção".
"Sob o regime nazista, constantemente encontramos o suporte fervoroso dos
bispos em todas as correspondências e declarações de dignatários eclesiásticos"
(Joseph Rovan, op. cit. pág. 214).
Tais documentos trazem à luz as ações secretas e pérfidas do Vaticano para a
criação de conflitos entre as nações, quando serviam aos seus interesses. Com
a ajuda de artigos conclusivos, mostramos o papel desempenhado pela "Igreja"
na ascensão dos regimes totalitários na Europa.
Estes testemunhos e documentos constituem uma denúncia esmagadora e, até
o momento, nenhum apologista se atreveu a desmenti-los.
No dia 1o. de maio de 1938, o jornal Mercure de France lembrou do que havia
dito quatro anos antes, e ninguém o desmentiu: Que o papa Pio XII foi quem
"fez" Hitler. Ele veio ao poder, não tanto através dos meios legais mas,
principalmente, por causa da influência do papa no Centrum (partido católico
alemão). O Vaticano acredita que cometeu um erro político ao ajudar Hitler
indicando-lhe o caminho do poder? Parece que não...
Pelo menos parecia que não quando isso foi escrito, ou seja, no dia seguinte ao
'Anschluss", ocasião na qual a Áustria se uniu ao Terceiro Reich; nem
posteriormente, quando as agressões nazistas se multiplicaram; nem mesmo
durante toda a Segunda Guerra Mundial.
Na verdade, no dia 24 de julho de 1959, João XXIII, sucessor de Pio XII, conferiu
Franz Von Papen, seu amigo pessoal, o título honorário de camareiro secreto.
Este homem havia sido espião nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra
Mundial e um dos responsáveis pela ditadura de Hitler e pelo Anschluss. Só
algum tipo especial de "cegueira" pode nos impedir de ver fatos tão claros.
Joseph Rovan, autor católico, comenta o acordo diplomático entre o Vaticano e o
Reich nazista em 8 de julho de 1933: "O Tratado trouxe ao governo nacionalsocialista,
considerado por quase todo o mundo como sendo formado de
usurpadores, quando não bandoleiros, o selo de um acordo com a força
internacional mais antiga, a epístola pastoral de 3 de junho de 1933, na qual todo
o episcopado alemão está envolvido. Que forma toma este documento? Como é
que começa? Com otimismo e com esta declaração de satisfação: Os homens
na direção deste novo governo, para nossa grande alegria, deram-nos a garantia
de que colocam a si próprios e ao seu trabalho em bases cristãs. Uma
declaração de tamanha sinceridade merece a gratidão de todos os católicos"
(Paris, Plon, 1938, pág. 108).
Desde o início da Primeira Guerra Mundial, vários papas têm surgido e
desaparecido, mas suas atitudes têm se mantido invariavelmente as mesmas
com respeito às duas facções que se têm confrontado na Europa. Muitos autores
católicos não poderiam esconder a surpresa - e pesar - ao escreverem sobre a
indiferença desumana demonstrada por Pio XII face aos piores tipos de
atrocidades cometidas por aqueles em seu favor. Dentre muitos testemunhos,
citaremos um entre os mais moderados em suas palavras contra o Vaticano, por
Jean d'Hospital, correspondente do Le Monde:
"A memória de Pio XII está cercada de apreensão. Devido à seguinte polêmica
feita por observadores de todas as nações: Mesmo dentro das paredes do
Vaticano, será que ele sabia de certas atrocidades cometidas durante esta
guerra, iniciada e conduzida por Hitler?"
Tendo à sua disposição, a todo tempo, de todas as regiões, relatórios regulares
dos bispos, poderia ele desconhecer o que os dirigentes militares alemães não
podiam disfarçar - a tragédia dos campos de concentração; civis condenados à
deportação; os massacres a sangue-frio daqueles que ficavam "pelo meio do
caminho"; o terror das câmaras de gás onde, por razões administrativas, milhões
de judeus foram exterminados? E se por acaso sabia de tudo isso, por que ele,
fiel dignatário e primeiro pregador do Evangelho, não veio a público, vestido de
branco, armas estendidas na forma da cruz, para denunciar um crime sem
precedentes e bradar: "Não!"?
Apesar da diferença óbvia entre o universalismo católico e o racismo hitleriano,
essas duas doutrinas haviam sido "harmonicamente reconciliadas", de acordo
com Franz Von Papen. A razão pela qual esse acordo escandaloso era possível
consistia em que "o nazismo é uma reação cristã contra o espírito de 1789".
Voltemos a Michael Schmaus, professor na Faculdade de Teologia de Munique,
que escreveu: "Império e Igreja consistem em uma série de escritos que devem
ajudar na construção do Terceiro Reich, já que reúne um Estado nacionalsocialista
e a cristandade católica. Inteiramente alemães e inteiramente católicos,
estes escritos favorecem relações e intercâmbio entre a Igreja Católica e o
nacional-socialismo; eles abrem caminho a uma cooperação frutífera, como está
realçado pelo Tratado.
O movimento nacional-socialista é o mais intenso e abrangente protesto contra o
espírito dos séculos XIX e XX. A idéia de um povo de único sangue é o ponto
fundamental de seus ensinamentos e todos os católicos que obedecerem às
instruções dos bispos alemães terão de admitir que assim é. As leis do nacionalsocialismo
e as da Igreja Católica têm o mesmo objetivo" (Begegnungen
Zwischen Katholischem Christentum und Nazional-Sozialistischer
Weltanschauung Aschendorff, Munster, 1933).
Esse documento prova o papel fundamental assumido pela Igreja Católica na
ascensão de Hitler ao poder; na verdade, tratava-se de uma combinação préestabelecida.
Ilustra o tipo de acordo monstruoso entre o catolicismo e o
nazismo. O ódio ao liberalismo, que é a chave de tudo, torna-se absolutamente
claro.
Vejamos o que Alfred Grosser, professor do Instituto de Estudos Políticos da
Universidade de Paris, diz: "O conciso livro de Guenter, Lewy The Catholic
Church and Nazi Germany (New York, McGraw Hill, 1964), diz que todos os
documentos concordam ao demonstrar a cooperação da Igreja Católica com o
regime de Hitler. Em julho de 1933, quando o Tratado obrigou os bispos a
jurarem um voto de obediência ao governo nazista, os campos de concentração
já estavam abertos. A leitura de citações compiladas por Guenter Lewy é a prova
irrefutável disso. Encontramos algumas evidências impressionantes de
personalidades, tais como o cardeal Faulhaber e o jesuíta Gustav Gundlach.
Apenas palavras vazias podem ser encontradas para negar tais evidências que
provam a culpabilidade do Vaticano e de seus jesuítas. A ajuda destes é a
principal força por detrás da ascensão "iluminada" de Hitler que, juntamente com
Mussolini e Franco, apesar das aparências, eram fantoches de guerra
manipulados pelo Vaticano e seus jesuítas.
Os aduladores do Vaticano deveriam ter baixado suas cabeças, envergonhados,
quando um membro do Parlamento italiano exclamou: 'As mãos do papa estão
cheias de sangue!" (fala de Laura Diaz, membro do Parlamento por Livorno,
pronunciada em Ortona, em 15 de abril de 1946), ou quando os estudantes do
Cardiff University College escolheram como tema para conferência: Deveria o
papa ser trazido a tribunal como sendo um criminoso de guerra? (La Croix, 2 de
abril de 1946).
Vejamos agora como o papa João XXIII se expressou ao se referir aos jesuítas:
"Perseverem, queridos filhos, nas atividades que já vos trouxeram méritos
reconhecidos. Assim vós alegrareis a Igreja e crescereis com incansável fervor: o
caminho do justo é como a luz da aurora... E que a luz cresça e ilumine a
formação dos adolescentes...
Em seu livro, Le Silence de Pie XII, publicado por du Rocher, Mônaco, 1965, o
autor Cario Falconi escreve em especial:
"A existência de tais monstruosidades - extermínios em massa de minorias
étnicas, civis prisioneiros e deportados - ultrapassa de longe qualquer conceito
de bem e mal. Desafia a dignidade dos seres individuais e da sociedade em
geral de tal forma, que leva a denunciar aqueles que poderiam ter influenciado a
opinião pública, sendo eles simples civis ou dirigentes de governos.
Para manter o silêncio diante de tamanho ultraje, deve-se levar em conta uma
colaboração inequívoca. Esta estimularia a vilania dos criminosos, instigando sua
crueldade e vaidade. Mas se todo homem tem o dever moral de reagir quando
confrontado com tais crimes, as sociedades religiosas e seus dirigentes são
duplamente obrigados a isso e, acima de tudo, a Igreja Católica.
Pio XII nunca expressou uma condenação direta e explícita da guerra de
agressão, muito menos com respeito aos crimes indescritíveis cometidos pelos
alemães ou seus cúmplices durante a guerra.
Ele não se manteve em silêncio por não saber o que estava acontecendo; sabia
da gravidade da situação desde o começo, talvez até melhor do que qualquer
outro chefe de Estado do mundo" (página 12 ss).
O pior ainda está por vir! O Vaticano prestou ajuda na execução desses crimes,
"alugando" alguns de seus prelados para que estes se tornassem agentes prónazistas,
neste caso, Hlinka e Tiso. Também enviou para a Croácia seu próprio
representante, R.P Marcone que, auxilado por Stepinac, vigiava as atividades de
Ante Pavelitch e seus assessores. Onde quer que procuremos, o mesmo
espetáculo "edificante" se apresenta.
Muito sofrimento, condição de vida desumana, desespero e milhões de mortes
nos chamados campos de concentração nazistas: este foi o resultado do apoio
da Igreja Católica a Hitler.
Dessa forma, vós ajudareis a levar avante nossos desejos e preocupações
espirituais... Nós concedemos nossa bênção apostólica de todo o coração ao
vosso prior, a vós e a vossos coadjutores, e a todos os membros da Companhia
de Jesus".
E do papa Paulo VI: "Desde o tempo de sua restauração, esta família religiosa
tem recebido a carinhosa ajuda de Deus, e tem enriquecido rapidamente e com
grande progresso. Os membros da Companhia têm realizado grandes façanhas,
tudo para a glória de Deus e para o benefício da religião católica. A Igreja precisa
de soldados de Cristo com valor, armados com uma fé destemida, prontos para
enfrentar dificuldades. É por isso que temos muitas esperanças na ajuda que
vossa atividade possa trazer, e que a nova era encontre a Companhia no mesmo
caminho honrado que ela seguiu no passado" (pronunciado em Roma, próximo à
Basílica de São Pedro, em 20 de agosto de 1964, durante seu segundo ano
como papa).
Em 29 de outubro de 1965, o jornal Osservatore Romano anunciou: "O
Reverendíssimo Padre Arrupe, prior dos jesuítas, celebrou a Missa Sagrada pelo
Concilio Ecumênico em 16 de outubro de 1965".
Eis a apoteose da "ética papal": Um pronunciamento simultâneo sobre um
projeto de beatificação de Pio XII e João XXIII. "Para fortalecer a nós mesmos
em nossa busca de uma renovação espiritual, decidimos iniciar os
procedimentos canônicos para a beatificação destes dois pontífices grandes e
iluminados e que são tão queridos a todos nós"(?) (papa Paulo VI).
Que este livro revele a todos aqueles que o lerem a verdadeira natureza deste
mestre romano, cujas palavras são tão melífluas (brandas e harmoniosas)
quanto ferozes são suas ações secretas.
O fundador da Companhia de Jesus, o basco espanhol don Inigo Lopez de
Recalde, nasceu no castelo de Loyola, na província de Guipuzcoa, em 1491. Foi
um tipo de monge-soldado dos mais estranhos já engendrados pelo mundo
católico: de todos os fundadores de ordens religiosas, ele talvez tenha sido o de
personalidade mais marcante na mente e comportamento de seus discípulos e
sucessores.
Esta pode ser a razão para aquela "aparência familiar" ou "marca", fato que
chega ao ponto da semelhança física entre eles. Folliet questiona este fato(1),
mas muitos documentos provam a permanência de um "tipo jesuíta" através dos
tempos.
O mais interessante destes testemunhos se encontra no museu Guimet. Sobre o
fundo dourado de uma tela do século XVI, um artista japonês pintou, com todo o
humor de sua raça, a chegada dos portugueses e dos filhos de Loyola, em
particular, nas ilhas nipônicas. O espanto desse amante da natureza e das cores
fortes é explícito na maneira como representa aquelas sombras longas e
escuras, com suas faces desoladas, sobre as quais se capta toda a arrogância
do dirigente fanático. A semelhança entre o trabalho do artista oriental do século
XVI e nosso Daumier, de 1830, está aí para todos verem.
À semelhança de tantos outros santos, Inigo, que posteriormente romanizou seu
nome e se tornou Ignácio, parecia longe de ser aquele predestinado a iluminar
os seus contemporâneos. Sua juventude atormentada foi repleta de erros e
mesmo "crimes hediondos". Um relatório policial afirma que era "traiçoeiro, brutal
e vingativo". Todos os seus biógrafos admitem que ele não recuava nem mesmo
diante de seus melhores amigos, no que envolvia a violência dos instintos, então
uma coisa comum.
"Era necessário um golpe físico violento para mudar sua personalidade"
Fundação da Ordem Jesuíta
"Ele deixou os livros de lado e começou a imaginar e sonhar. Um típico caso de
"sonhar acordado", uma continuação na vida adulta do jogo imaginário infantil.
Se deixarmos que este invada o domínio físico, o resultado é uma neurose e
uma alienação da vontade: o que é real fica em segundo plano. À primeira vista,
esse diagnóstico parece difícil de ser aplicado ao fundador de uma Ordem tão
ativa. O mesmo ocorre em relação a outros "grandes místicos" e criadores de
sociedades religiosas, todos aparentemente muito capacitados para
organizações. Acreditamos, no entanto, que todos fossem incapazes de resistir a
suas imaginações superativas e, para eles, o impossível torna-se possível.
O mesmo autor também diz sobre o assunto: "Quero ressaltar o resultado óbvio
da prática do misticismo por alguém possuidor de uma inteligência brilhante. A
mente fraca, entregue ao misticismo, encontra-se em área perigosa, mas o
místico inteligente representa um perigo muito maior, pois seu intelecto trabalha
em maior profundidade e amplitude. Quando o mito assume o controle da
realidade, através de uma inteligência ativa, torna-se mero fanatismo; uma
infecção da vontade que sofre de um alargamento ou distorção parcial."
Ignácio de Loyola foi um exemplo típico desse "misticismo ativo" e "distorção da
vontade". A transformação do cavaleiro-guerreiro em fundador da Ordem mais
militante da Igreja Romana foi muito lenta; haveria muitos passos vacilantes
antes dele encontrar sua verdadeira vocação.
Não é intenção nossa segui-lo através de todos esses diferentes estágios.
Vamos apenas relembrar os pontos principais: Na primavera de 1522, ele deixou
o castelo ancestral com a idéia de se tornar um santo semelhante àqueles cujas
façanhas edificantes havia constatado naquele grande livro gótico. Além disso,
segundo ele, a própria "Virgem" lhe teria aparecido em uma noite, segurando nos
braços o menino Jesus.
"Um soldado desobediente e presunçoso", disse um de seus comandantes;
"levava uma vida desregrada em tudo que tratasse de mulheres, jogos e duelos",
acrescentou seu secretário Polanco. Tudo isso foi relatado por um de seus filhos
espirituais, R. E Rouquette, que tentou de alguma maneira explicar e desculpar
esse temperamento explosivo que, posteriormente, se tornou "ad majorem Dei
gloriam" (para a glória suprema de Deus).
Como é o caso de muitos heróis da Igreja Católica Romana, era necessário um
golpe físico violento para mudar sua personalidade. Ele havia sido mensageiro
do tesoureiro de Castilla até a desgraça de seu chefe. Depois tornou-se cavaleiro
sob as ordens do vice-rei de Navarra. Tendo vivido tal qual um cortesão, o jovem
começou sua vida de soldado defendendo Pampeluna contra os franceses,
comandados pelo conde de Foix.
O ferimento que decidiu o futuro de sua vida foi-lhe infligido nessa ocasião. Com
a perna quebrada por um tiro, foi levado pelos franceses a seu irmão, Martin
Garcia, no castelo de Loyola, iniciando-se o martírio das cirurgias sem anestesia,
pois o trabalho não havia sido bem feito. Sua perna foi quebrada novamente e
recolocada no lugar. Apesar de tudo isso, Ignácio acabou ficando coxo.
E compreensível que apenas uma experiência como essa poderia causar-lhe um
esgotamento nervoso. O "dom das lágrimas", o qual lhe foi, então, outorgado
"em abundância" (e que seus biógrafos acreditam como um favor dos céus),
pode ser o resultado de sua natureza profundamente emocional, afetando-o mais
e mais.
Enquanto estava deitado, sofrendo as dores do ferimento, seu único divertimento
era a leitura de "A Vida de Cristo" e "A Vida dos Santos", os únicos livros que
encontrou no castelo. Praticamente iletrado e ainda afetado por aquele choque
terrível, a angústia da Paixão de Cristo e o martírio dos santos tiveram um forte
impacto sobre ele; essa obsessão levou o guerreiro aleijado ao caminho do
apostolado.
Após uma confissão detalhada no monastério de Montserrat, Ignácio tencionava
ir a Jerusalém. A peste era comum em Barcelona e, como todo o tráfego
marítimo estava interrompido, teve de permanecer em Manresa por
aproximadamente um ano.
Passava o tempo em orações, longos jejuns e auto-flagelação, praticando todas
as formas de maceração. Além disso, nunca perdia a chance de se apresentar
diante do tribunal de penitência, apesar de sua confissão em Montserrat ter
aparentemente durado três dias. Tal confissão minuciosa teria sido suficiente a
um pecador menos escrupuloso. Tudo isso descreve claramente o estado mental
e nervoso desse homem.
Finalmente, ao se libertar da obsessão de pecado, decidiu que aquilo era, nada
mais nada menos, que um truque de satã, e devotou-se inteiramente às ricas e
variadas visões assaltavam sua mente conturbada.
"Foi por causa de uma visão", diz H. Boehmer, "que ele começou a comer carne
novamente. Uma série completa de visões que lhe revelou os mistérios do
dogma católico e o ajudou a vivê-lo verdadeiramente.
Dessa forma, ele medita sobre a Santíssima Trindade como sendo um
instrumento musical de três cordas: o mistério da criação do mundo a partir de
alguma coisa nublada e a luz vinda de um raio de sol; a milagrosa vinda de
Cristo na Eucaristia, como flashes de luz penetrando na água consagrada,
quando o sacerdote a toma durante a oração; a natureza humana de Cristo e da
Virgem Santíssima, sob a forma de um corpo branco deslumbrante e, finalmente,
satã como uma forma sinuosa e cintilante, semelhante a uma imensidão de olhos
brilhantes e misteriosos." Não é este o começo da produção da imagem jesuítica
conhecida?
Em abril de 1527, a Inquisição leva Ignácio à prisão para julgá-lo por acusações
de heresia. O inquérito examinou aqueles "incidentes estranhos" ocorridos entre
seus devotos; as declarações "excêntricas" do acusado sobre o poder
excepcional que sua castidade lhe conferia, e sua teoria bizarra sobre a
diferença entre os pecados mortais e veniais. Essas teorias tinham afinidades
assustadoras com as teorias dos jesuítas casuístas do período seguinte".
Libertado, mas proibido de realizar reuniões, Ignácio partiu para Salamanca e
logo deu início às mesmas atividades. Suspeitas parecidas entre os inquisidores
o levaram novamente à prisão. A liberdade só lhe seria possível mediante a
suspensão de tal conduta.
Assim foi; viajou a Paris para continuar seus estudos na faculdade de Montaigu.
Seus esforços para doutrinar seus colegas estudantes dentro de seus métodos
singulares criaram-lhe novos problemas com a Inquisição. Tornando-se mais
prudente, passou a se encontrar com apenas seis de seus amigos de faculdade.
Dois dentre eles viriam a se tornar recrutas profundamente estimados: Salmeron
e Lainez.
O que teria ele de especial, que pudesse atrair de forma tão poderosa jovens a
um velho aluno? Talvez o seu ideal e um certo "charme", além de um pequeno
livro, na verdade um livrete que, independente de sua pequena dimensão,
tornou-se um dos livros de maior influência nos destinos da humanidade. Esse
livro foi editado tantas vezes que o número de cópias é desconhecido; também
foi objeto de mais de 400 comentários. É o livro guia dos jesuítas e, ao mesmo
tempo, o resumo do longo desenvolvimento pessoal do seu mestre: os
"Exercícios Espirituais".
Assim trabalham eles para o surgimento do "Reino de Deus", de acordo com seu
próprio ideal: um grande rebanho sob o cetro do Santíssimo Pai.
Que homens estudados pudessem ter um ideal tão anacrônico parece muito
estranho, mas é inegável que ainda pensam assim, sendo, portanto, a
confirmação de um fato freqüentemente desprezado: a proeminência das
emoções na vida do espírito. Além disso, Kant afirmou que toda a Filosofia não
passa da expressão do caráter ou temperamento do filósofo.
A parte dos métodos individuais, o "temperamento" jesuítico parece ser mais ou
menos uniforme entre eles: uma mistura de piedade e diplomacia; asceticismo e
sabedoria mundana; misticismo e calculismo. Tal como era o caráter de Loyola,
esta é a marca registrada da Ordem." Em primeiro lugar, o paradoxo desta
Ordem tem persistido durante 400 anos: Uma Ordem que se empenha em ser
"intelectual" mas, simultaneamente, tem sido, dentro da Igreja Romana e na
sociedade, a campeã do comportamento mais rígido.
Os Exercícios Espirituais
Quando, finalmente, chegou o momento de Ignácio deixar
Manresa, não poderia prever seu destino, mas a ansiedade
relativa à sua própria salvação não era mais uma preocupação.
Foi como missionário, e não como um simples peregrino, que
ele seguiu para a Terra Santa em março de 1523. Chegou a
Jerusalém no dia 12 de setembro, após muitas aventuras;
entretanto, logo partiu sob as ordens do superior franciscano
que não desejava ver a paz entre cristãos e turcos ameaçada
por um proselitismo fora de hora.
O missionário, desapontado, passou por Veneza, Gênova e
Barcelona, no caminho para a Universidade de Alcalá, onde
iniciou seus estudos teológicos e, assim, começa também a
sua "cura de almas".
É compreensível que após quatro semanas de dedicação a
estes exercícios intensivos, com um mestre por sua única
companhia, o candidato estivesse pronto para o treino
subseqüente e a ruptura. Isso é o que Quinet tem a dizer a
respeito do criador de tal método alucinatório: "Você sabe o
que o distingue de todos os ascéticos do passado? O fato é
que podia observar e analisar a si mesmo lógica e friamente,
em total estado de arrebatamento, enquanto para todos os
outros a idéia de reflexão era impossível. Impondo aos seus
discípulos ações que lhe eram espontâneas, ele apenas
precisava de trinta dias para romper, com este método, a
vontade própria e o bom senso, tal qual um montador domina
seu cavalo. Ele precisava de apenas trinta dias, "triginta dies",
para subjugar uma alma.
Note que o jesuitismo se expandiu com a inquisição moderna:
enquanto a Inquisição quebrava o corpo, os exercícios
espirituais quebravam os pensamentos, através da máquina de
Loyola."(12b)
É possível examinar sua vida "espiritual" muito profundamente,
mesmo que não se tenha a "honra" de ser jesuíta. Os métodos
de Loyola são para ser recomendados aos fiéis e eclesiásticos
em particular, como somos lembrados por comentaristas tais
como R. E Pinard de Ia Boullaye, autor de Oração Mental para
Todos, inspirado por Boehmer diz mais ainda: "Ignácio
compreendeu, mais claramente do que qualquer outro líder
social anterior a ele, que a melhor forma de conduzir um
homem a um certo ideal é através do controle de sua
imaginação. Nós "o imbuímos das forças espirituais que ele
acreditaria serem difíceis de eliminar posteriormente", forças
mais duradouras que os melhores princípios e doutrinas. Essas
forças poderiam vir de novo à tona, às vezes anos depois de
não terem sido mencionadas, tornando-se tão imperativas que
a vontade se acharia incapaz de oferecer qualquer obstáculo, e
então teria que seguir seu impulso irresistível."
Portanto, todas as "verdades" do dogma católico terão de ser
não apenas meditadas, mas vividas e sentidas por aquele que
se dedica a essas "práticas", com a ajuda de um "diretor". Em
outras palavras: ele terá de ver e reviver o mistério com a maior
intensidade possível. A sensibilidade do candidato fica
impregnada com tais forças, cuja persistência em sua memória,
e ainda mais em seu subconsciente, serão tão fortes quanto o
esforço que fez para evocar e assimilar tais forças. Além da
visão, os outros sentidos, como a audição, o olfato, o tato e o
paladar teriam seu papel. Resumindo, é simplesmente autosugestão
controlada.
A rebelião dos anjos, a expulsão de Adão e Eva, o julgamento
final, as cenas evangélicas e as fases da Paixão são, como se
costuma dizer, revividos diante do candidato. Cenas suaves e
bem-aventuradas se alternam com as mais obscuras, em um
ritmo competentemente determinado. Nem é preciso dizer que
o inferno desempenha a parte principal nesse show de
"lanterna mágica", com seu lago de fogo onde as almas
perdidas são atiradas, o terrível concerto de gemidos, a feroz
visão de súlfura e carne queimando. Ainda assim, Cristo está lá
para sustentar o visionário que não sabe como Lhe agradecer
por não ter sido atirado ainda no inferno para pagar seus
pecados passados.
Eis o que Edgar Quinet escreveu: "Não só as visões são
predeterminadas, mas também suspiros, inspirações e
expirações são implantada em todos os tipos de atividades
escolhidas e ganhou a confiança da Cúria para sempre."
Essa confiança era plenamente justificada. Os jesuítas e
Lainez, em particular, juntamente com seu devotado amigo
cardeal Morone, tornaram-se os campeões astutos e
incansáveis da autoridade papal e da intangibilidade do dogma,
durante as três sessões daquele Concilio, terminado em 1562.
Por suas ágeis manobras e dialética, conseguiram derrotar a
oposição e todas as solicitações "hereges" (incluindo
casamento de padres, comunhão com dois elementos, uso do
idioma local nos rituais e, especialmente, a reforma do
papado). Apenas a reforma dos conventos foi mantida. O
próprio Lainez, com um forte contra-ataque, sustentou a
infalibilidade papal, a qual foi promulgada três séculos depois,
pelo Concilio do Vaticano.
A Santa Sé emergiu fortalecida da crise na qual estava
praticamente afundada, graças às iniciativas ágeis e precisas
dos jesuítas. Os termos escolhidos por Paulo III para descrever
essa nova Ordem, em sua bula papal de autorização, foram
plenamente justificados: "Regimen Ecclesiae Militantis".
O espírito lutador se desenvolveu mais e mais à medida que o
tempo passava. Além das missões no estrangeiro, as
atividades dos filhos de Loyola começaram a se concentrar nas
almas dos homens, especialmente dentro das classes
dominantes. Os políticos seriam seu principal campo de ação e
todos os esforços de seus "dirigentes" se concentraram em um
objetivo: a submissão do mundo ao papado e, para atingi-lo,
era necessário conquistar as "cabeças" antes. Para a obtenção
desse ideal, duas armas importantíssimas eram necessárias:
serem os confessores dos poderosos e daqueles de posição
elevada, e a educação de seus filhos. Dessa forma, o presente
estaria a salvo enquanto o futuro seria preparado.
Fundação da Companhia
A Companhia de Jesus foi constituída no dia da Assunção, em
1534, na capela de Notre Damme de Montmartre. Ignácio tinha
então 44 anos de idade. Após a comunhão, o fundador e seus
companheiros fizeram um voto de ir à Terra Santa, assim que
seus estudos fossem concluídos, para converter os infiéis.
O ano seguinte, no entanto, os encontra em Roma, onde o
papa, que estava na época organizando uma cruzada contra os
turcos, em conjunto com o imperador alemão e a República de
Veneza, mostrou-lhes que o projeto era inviável justamente por
causa disso. Assim, Ignácio e seus companheiros se
dedicaram ao trabalho missionário em terras cristãs.
Em Veneza, seu apostolado levantou suspeitas da Inquisição.
Os estatutos da Companhia de Jesus foram finalmente
definidos e aprovados em Roma por Paulo III, em 1540, e os
jesuítas se colocaram à disposição do papa, prometendo
obediência incondicional. Ensino, confissão, pregação e obras
de caridade foram o campo de ação para essa nova Ordem.
Quanto as missões no estrangeiro, não foram excluídas pois,
em 1541, Francisco Xavier e dois companheiros deixaram
Lisboa em direção ao Extremo Oriente, a fim de evangelizarem.
Em 1546, o lado político da carreira deles foi lançado, quando o
papa escolheu Lainez e Salmeron para o representarem no
Concilio de Trento, na condição de "teólogos papais"..
O Espírito da Ordem
"Não podemos esquecer, escreve o jesuíta Rouquette, que
historicamente o "ultramontanismo" tem sido a afirmação
prática do "universalismo".
Esse universalismo necessário seria apenas uma palavra
vazia, se não resultasse em uma coesão ou obediência prática
do cristianismo. Por isso Ignácio quis que sua equipe estivesse
à disposição do papa, e ser o campeão da unidade católica,
unidade que só pode ser assegurada através de uma
submissão efetiva ao vigário de Cristo.(13a) Os jesuítas
quiseram impor esse absolutismo monárquico na Igreja
Romana e o mantiveram na sociedade civil, pois tinham de
olhar os soberanos como representantes temporais do "Santo
Papa", verdadeira cabeça do cristianismo. Enquanto esses
monarcas fossem inteiramente submissos ao seu senhor
comum, os jesuítas seriam seus mais fiéis partidários. Por
outro lado, se esses príncipes se revoltassem, encontrariam
nos jesuítas seus piores inimigos.
"Na Europa, sempre que os interesses de Roma exigissem que
o povo se levantasse contra seu rei, ou se esses príncipes
temporais tivessem tomado decisões embaraçosas para a
Igreja, a Cúria sabia que não havia instituição mais habilitada,
astuta e ousada que a Companhia de Jesus para a intriga,
propaganda ou até mesmo a rebelião aberta."
R.E Rouquette escreve corajosamente: "Longe de ser uma
diminuição do homem, essa obediência inteligente e
autodeterminada é o máximo da liberdade, uma libertação da
escravidão de si mesmo". Só temos que ler esses textos para
percebermos o extremo (ou ainda monstruoso) caráter de
submissão da alma e do espírito imposto pelos jesuítas,
sempre fazendo deles instrumentos dóceis nas mãos dos seus
superiores, além de inimigos naturais de qualquer tipo de
liberdade desde o início. O famoso "perinde ac cadáver" (como
se fosse um cadáver nas mãos de um agente funerário) pode
ser encontrado em toda a "literatura espiritual", de acordo com
Folliet, e mesmo no Oriente, na constituição de Haschichin.
Os jesuítas devem estar nas mãos de seus superiores "como
se fosse um staff", obedecendo a cada impulso, qual uma bola
de cera que pode ser modelada e atirada em qualquer direção;
semelhante a um pequeno crucifixo, sendo manipulado e
movido à vontade". Essas fórmulas "agradáveis" não deixam
de ser muito esclarecedoras. Observações e explicações do
criador dessa Ordem não deixam dúvidas sobre seu verdadeiro
significado. Além disso, entre os jesuítas, não só a vontade
própria, mas também o bom senso e mesmo o escrúpulo moral
devem ser sacrificados, diante da virtude primordial da
obediência que é, de acordo com Bórgia, "o mais forte baluarte
da Companhia".
"Podemos estar convencidos de que tudo vai bem quando o
superior assim ordena. Mesmo se Deus lhe desse um animal
irracional como senhor, você não hesitará em obedecê-lo como
sendo mestre e guia, porque Deus assim ordenou", escreveu
Loyola.
Algo ainda mais interessante: O jesuíta deve enxergar em seu
superior não um homem falível, mas o próprio Cristo. J. Huber,
professor de Teologia Católica em Munique e autor de uma das
obras mais importantes sobre os jesuítas, escreveu: "Eis um
fato provado: os estatutos repetem quinhentas vezes que devese
ver Cristo na pessoa do prior".
A disciplina da Ordem, tão freqüentemente aproximada à das
Forças Armadas, nem pode chegar a ser comparada à
realidade. 'A obediência militar não é equivalente à obediência
jesuítica. A última é muito mais abrangente, pois assume o
homem inteiro e não está satisfeita, como a primeira, apenas
com o ato exterior, mas requer o sacrifício da vontade pessoal
e o abandono da própria capacidade de julgar".
O próprio Ignácio escreveu em sua carta aos jesuítas
portugueses: "Temos de ver o preto como branco, se a Igreja
assim determinar". Isso é o "máximo da liberdade" e a
"libertação de si mesmo", anteriormente louvados por R. P.
Rouquette. Com efeito, o jesuíta é verdadeiramente libertado
de si mesmo, pois fica totalmente submetido a seus mestres;
qualquer dúvida ou escrúpulo seria considerado pecado.
Boehmer escreve: "Nos aditivos dos estatutos, os superiores
são aconselhados a comandarem os noviços, tal qual Deus
fizera com Abraão, ordenando coisas aparentemente
criminosas, para prová-los; devem, no entanto, proporcionar
essas tentações de acordo com a força de cada um. Não é
difícil imaginar quais podem ser os resultados de uma
educação dessas". Os altos e baixos na vida da Ordem - foi
expulsa de todos os países nos quais esteve - atesta que
esses perigos foram reconhecidos por todos os governos, até
mesmo os mais católicos. Introduzindo homens tão cegamente
dedicados à sua causa e ensinando às classes superiores, a
Companhia - senhora do universalismo, portanto,
"ultramontanismo" - foi inevitavelmente reconhecida como uma
ameaça à autoridade civil, pelo fato da atividade da Ordem
(mero fato de sua vocação) ter-se tornado mais e mais dirigida
à política.
Paralelamente, o que chamamos de espírito jesuíta foi se
desenvolvendo dentre os seus próprios membros. O fundador,
no entanto, inspirado principalmente pelas necessidades das
"missões" internas e no estrangeiro, não tinha menosprezado a
especialização e habilidade, escrevendo em seu Setentiae
Asceticae: "Um cuidado inteligente com uma pureza medíocre
é melhor do que uma santidade maior aliada a uma habilidade
menos perfeita. Um bom pastor de almas deve saber como
ignorar muitas coisas e fingir não entendê-las. Uma vez que é o
senhor das vontades, será capaz de sabiamente guiar os seus
alunos para onde ele próprio escolher. As pessoas são
totalmente absorvidas por interesses passageiros; assim, não
devemos falar-lhes especificamente sobre suas almas, pois
seria o mesmo que lançar o anzol sem isca".
Mesmo a expressão facial esperada dos filhos de Loyola era
enfaticamente determinada: "Deviam manter suas cabeças
ligeiramente abaixadas, sem jogar para a esquerda ou direita;
não deveriam olhar para cima e, quando falavam com alguém,
não deviam olhar diretamente nos olhos, mas apenas
indiretamente."(18) Os sucessores de Loyola memorizaram
muito bem essa lição e a aplicaram ostensivamente na
realização de seus planos.
Os Privilégios da Companhia
Depois de 1558, Lainez, o sutil estrategista do Concilio de
Trento, foi elevado a prior da Congregação, com amplos
poderes para organizar a Ordem como lhe fosse inspirado. As
"declarações" compostas por ele próprio e Salmeron foram
acrescentadas aos estatutos, de forma a criar um compêndio;
acentuaram ainda mais o despotismo do prior eleito
vitaliciamente.
Um admonitor, um procurador e assistentes, residentes
também em Roma, o ajudariam a administrar a totalidade da
Ordem, dividida em cinco congregações: Itália, Alemanha,
França, Espanha, Inglaterra e Américas. Essas mesmas
congregações eram subdivididas em províncias, que
agrupavam as diferentes sedes da Ordem. Apenas o admonitor
e os assistentes eram nomeados pela congregação. O prior
indicava todos os outros encarregados, promulgava os
regulamentos (que não poderiam modificar os estatutos),
administrava as riquezas da Ordem de acordo com sua própria
vontade e dirigia suas atividades, reportando-se apenas ao
papa.
Para tal milícia tão bem costurada e entregue nas mãos de seu
chefe, o qual necessitava da maior autonomia possível para
efetuar as suas ações, o papa concedia privilégios que
pareciam exorbitantes a outras ordens religiosas.
Por causa de seus estatutos, os jesuítas ficaram isentos do
regimento enclausurante que a vida monástica implicaria. Eram
monges vivendo "no mundo" e, externamente, nada os
diferenciava do clero secular mas, ao contrário deste e de
outras congregações religiosas, não estavam sujeitos à
autoridade do bispo. Já em 1545, uma bula do papa Paulo III
os capacitava a pregarem; ouvirem confissões; dispensarem
sacramentos; realizarem a missa; absolverem; trocarem
penitências por outras mais fáceis de realizar ou até mesmo
cancelá-las. Em resumo, exerciam seu ministério, sem terem
de se reportar ao bispo. Só não podiam celebrar casamentos.
Gaston Bally escreve: "O poder do prior referente à absolvição
e dispensação é ainda maior. Pode suspender toda e qualquer
punição infligida aos membros da Companhia, antes ou depois
de sua entrada na Ordem, absolver todos os seus pecados, até
mesmo o pecado de heresia e cisma, a falsificação dos escritos
apostólicos, etc.
O prior absolve, pessoalmente ou através de um delegado,
todos aqueles que estão sob sua Ordem, do estado infeliz
advindo da excomunhão, suspensão ou interdição, desde que
essas censuras não tenham sido infligidas por excessos tão
grandes que outros, diante do tribunal papal, possam vir a
saber delas.
Ele também absolve o resultado de irregularidades, como
bigamia, danos a outrem ou homicídio, desde que estes atos
perversos não sejam publicamente conhecidos e causa de
escândalo".(19)
Finalmente, Gregório XIII outorgou à Companhia o direito de
negociar, no comércio e no sistema bancário, um direito do
qual ela veio a usufruir posteriormente. Essas atribuições e
poderes sem precedentes lhes foram inteiramente garantidos.
"Os papas chegavam mesmo a convocar príncipes e reis para
defender estes direitos; eles ameaçavam com a grande
excomunhão "Lata e sententiae" todos os que tentassem
infringi-los. Em 1574, uma bula de Pio V dava ao prior o direito
de restaurar estes privilégios ao seu âmbito inicial, contra todas
as tentativas de alterá-los ou diminuí-los, mesmo que tais
diminuições houvessem sido documentadas por revogação
papal.
Cedendo aos jesuítas privilégios tão exorbitantes, os quais
ultrapassavam a antiquada constituição da Igreja, o papado
queria não apenas fornecer-lhes armas para combater os
infiéis, mas principalmente usá-los como um corpo de
segurança, o qual defendesse seu próprio poder irrestrito
dentro e fora da Igreja. Para preservar a supremacia espiritual
e temporal, eles usurparam durante a Idade Média; os papas
venderam a Igreja à Companhia de Jesus e, como
conseqüência, entregaram-se nas mãos deles. Se o papado
era sustentado pelos jesuítas, toda a existência deles dependia
da supremacia espiritual e temporal do papado. Desta forma,
os interesses de ambas as partes estavam intimamente
ligados".(20)
Este comando seleto, no entanto, precisava de auxiliares
secretos para dominar a sociedade civil. Tal papel recaiu
também sobre aqueles aliados da Companhia, os chamados
jesuítas. "Muitas pessoas importantes eram ligadas à
Companhia: os imperadores Ferdinando II e Ferdinando III;
Sigismundo III, rei da Polônia, que tinha pertencido à
Companhia oficialmente; o Cardeal Infante e um duque de
Savoy. E estes não eram os menos úteis."(21)
Os Jesuítas na Europa Durante os Séculos XVI e XVII
Dá-se o mesmo hoje em dia. Os 33 mil membros oficiais da
Companhia operam por todo o mundo, na capacidade máxima
de seu pessoal: oficiais de um exército altamente secreto,
contando nas suas fileiras com dirigentes de partidos políticos,
oficiais de alta patente, generais, magistrados, médicos e
professores universitários, dentre outras categorias. Todos
lutando para realizar, em seu próprio campo de ação, o "Opus
Dei" (a Obra de Deus) ou, na verdade, os planos do papado.
Itália, Portugal e Espanha
A França é o berço da Companhia de Jesus, mas foi na Itália
que recebeu seu programa, estatutos e se expandiu, escreveu
Boehmer(1), observando o número crescente de academias e
colégios jesuítas (128 e 1680); "mas a história da civilização
italiana durante os séculos XVI e XVII demonstra suas
conseqüências de forma avassaladora. Se uma Itália culta
abraçou então a fé e os preceitos da Igreja, recebeu um novo
alento do ascetismo e das missões; compôs novamente
poemas piedosos e hinos para a Igreja; dedicou
conscientemente os pincéis dos pintores e as espátulas dos
escultores para exaltar o ideal religioso. Não terá sido por
esses motivos que as classes cultas foram instruídas nos
colégios e confessionários jesuítas? Já não eram mais os
tempos de simplicidade infantil, alegria, vivacidade e o simples
amor à natureza", acrescenta o autor. "Os pupilos dos jesuítas
são muito clericais, devotos e absorvidos em preservar essas
qualidades. São criados com visões de êxtases e iluminações;
embriagam-se literalmente com mortificações assustadoras e
tormentos atrozes de mártires; precisam da pompa, brilho e
dramaticidade. A partir do final do século XVI, a arte e a
literatura italianas reproduzem fielmente essa transformação
moral. A inquietação, a ostentação e a súplica chocante, que
caracterizam as criações daquele período, promovem um
sentimento de repulsa ao invés de simpatia pelas crenças que
supostamente interpretam e glorificam".(3)
É a marca sui generis da Companhia. Esse amor pelo
distorcido, afetado, brilhante e teatral poderia parecer estranho
entre os místicos formados nos Exercícios Espirituais, se não
detectássemos nele esse desejo essencialmente jesuíta de
impressionar. É uma aplicação da máxima "Os fins justificam
os meios", aplicada com perseverança pelos jesuítas nas artes
e literatura, tal qual na política e na moral. A Itália mal havia
sido tocada pela Reforma.
Os Waldenses, no entanto, haviam sobrevivido desde a Idade
Média, apesar das perseguições, e se estabeleceram ao Norte
e ao Sul da península, ligando-se à Igreja Calvinista em 1532.
Baseado em um relatório do jesuíta Possevino, Emmanuel
Philibert de Savoy lançou outra perseguição sangrenta contra
seus temas "hereges" em 1561. O mesmo aconteceu na
Calábria, em Casal di San Sisto e Guardiã Fiscale. "Os jesuítas
implicados nesses massacres estavam ocupados convertendo
suas vítimas..."(4) "Ele foi com o exército católico, como seu
capelão, e recomendou o extermínio na fogueira dos
pregadores hereges como um ato necessário e sagrado",
escreveu o padre Possevino.(5)
Os jesuítas eram todo-poderosos em Parma, na corte de
Farnese, tanto quanto em Nápoles, durante os séculos XVI e
XVII. Em Veneza, onde haviam sido agraciados com favores,
foram, no entanto, banidos em 14 de maio de 1606, "conforme
os demais fiéis servos e emissários do papa". Foi-lhes,
entretanto, permitido voltar em 1656, mas sua influência nessa
República seria, a partir de então, nada além de uma sombra
do que tiveram no passado.
Portugal foi um país especial para a Ordem. "Já sob João III
(1521-1559), era a comunidade religiosa mais poderosa do
reino. Sua influência cresceu ainda mais após a revolução de
1640, que pôs os Bragança no trono".(6)
Sob o primeiro rei da casa de Bragança, o padre Fernandez
era membro do governo e, sob a minoridade de Afonso VI, o
conselheiro mais estimado pela regente rainha Luiza. O padre
De Ville conseguiu derrubar Afonso VI em 1667, e o padre
Emmanuel Fernandez tornou-se representante na Corte em
1667, pelo novo rei Pedro II.
'Apesar dos padres não exercerem cargo público no reino,
eram mais poderosos em Portugal que em qualquer outro país.
Eram não só os guias espirituais de toda a família real, mas até
mesmo o rei e seu ministério os consultavam em todas as
circunstâncias importantes. A partir de um de seus próprios
testemunhos, hoje sabemos que nenhum cargo na
administração do Estado ou da Igreja poderia ser obtido sem o
seu consentimento. Tanto é que o clero, as classes altas e o
povo disputavam entre si para alcançar seus favores e
aprovação. Políticos estrangeiros também estavam sob sua
influência. Qualquer homem razoável perceberia que tal estado
de coisas era prejudicial ao bem do reino."(7)
Na verdade, podemos ver os resultados disso pelo estado de
decadência em que essa terra desafortunada caiu. Toda a
energia e perspicácia do Marquês de Pombal foram
necessárias, no meio do século XVIII, para arrancar Portugal
das garras mortais da Ordem.
Na Espanha, a penetração dos jesuítas foi mais lenta. O alto
clero e os dominicanos se opuseram durante muito tempo. Os
próprios soberanos, Carlos V e Filipe II, ao aceitarem seus
serviços, desconfiavam desses soldados do papa e temiam
interferências em sua autoridade. Com muita habilidade,
porém, a Ordem finalmente derrubou essa resistência.
"Durante o século XVII, eles foram poderosíssimos na
Espanha, entre as altas classes e na Corte. Até mesmo o
padre Neidhart, ex-oficial cavaleiro alemão, governou
completamente o reino como conselheiro de Estado, primeiro
ministro e Grande Inquisidor. Na Espanha, tanto quanto em
Portugal, a ruína do reino coincidiu com a ascensão da Ordem.
"(8)
Edgar Quinet discorre sobre o assunto: "Sempre que uma
dinastia morre, posso ver, surgindo e mantendo-se atrás dela,
um tipo de gênio mau, uma dessas figuras que são os
confessores, gentil e paternalmente atraindo-a para a morte."
(9)
Na verdade, não se pode atribuir a decadência da Espanha
apenas a essa Ordem. "É inegável, no entanto, que a
Companhia de Jesus, juntamente com a Igreja e outras Ordens
religiosas, aceleraram sua queda. Quanto mais rica ficava a
Ordem, mais pobre ficava a Espanha; tanto que quando Carlos
II faleceu, os cofres do Estado não tinham nem mesmo a soma
necessária para pagar as dez mil missas usualmente rezadas
pela salvação de um monarca falecido."(10)
Itália, Portugal e Espanha E Alemanha
Não era o Sul da Europa, mas a Europa Central, França,
Holanda, Alemanha e Polônia o local para a batalha histórica
entre o catolicismo e o protestantismo. Esses países eram os
campos principais de batalha para a Companhia de Jesus.(11)
A situação era particularmente grave na Alemanha: "Não só
pessimistas conhecidos, mas também católicos sábios e bempensantes
consideravam a causa da velha Igreja em toda a
Alemanha como quase perdida. Mesmo na Áustria e na
Boêmia, a quebra com Roma era tão generalizada que os
protestantes razoavelmente poderiam esperar a conquista da
Áustria dentro de mais algumas décadas. Pois então como é
que essa mudança acabou não acontecendo e, ao contrário, o
país acabou ficando dividido em duas partes? O Partido
Católico, ao final do século XVI, nunca hesitava ao responder a
essa pergunta, pois já atribuía aos Witelsbach, Habsburg e aos
jesuítas a responsabilidade por essa feliz mudança no rumo
das coisas."(12)
Rene Fulop-Miller escreveu sobre o papel dos jesuítas nesses
eventos: 'A causa católica poderia esperar por um sucesso real
apenas se os padres pudessem ter influência e liderança sobre
os príncipes, em todas as ocasiões e circunstâncias. Os
confessionários ofereciam aos jesuítas os meios para
assegurar uma influência política duradoura e, portanto, uma
ação efetiva." (13)
Na Bavária, o jovem duque Albert V, filho de um católico fiel e
educado em Ingolstadt, a velha cidade católica, convocou os
jesuítas para combaterem efetivamente a "heresia".
"No dia 07 de julho de 1556, oito padres e 112 professores
jesuítas foram a Ingolstadt. Foi o início de uma nova era para a
Bavária. O próprio Estado recebeu um novo selo. As
concepções católicas romanas dirigiam a política dos príncipes
e o comportamento das altas classes. Esse novo espírito,
porém, foi incorporado apenas pelas classes altas, não tendo
conquistado os corações do povo da rua, da gente simples...
Apesar disso, sob a disciplina de ferro do Estado e da Igreja
restaurada, eles se tornaram novamente católicos devotos,
dóceis, fanáticos e intolerantes quanto a qualquer heresia.
Pode parecer excessivo atribuir tais virtudes e ações
prodigiosas a alguns poucos estranhos. Mesmo assim, nestas
circunstâncias, a força deles era inversamente proporcional ao
seu número e foram imediatamente eficientes, pois nenhum
obstáculo lhes surgiu pela frente. Os emissários de Loyola
conquistaram o coração e a mente do país desde o começo. A
partir da geração seguinte, Ingolstadt tornou-se o tipo perfeito
de cidade alemã jesuíta." (14)
Pode-se julgar o estado mental dos padres presentes nessa
"fortaleza de fé" lendo o seguinte: "O jesuíta Mayrhofer de
Ingolstadt ensinava em seu espelho de pregação: Não seremos
julgados se pedirmos o assassinato de protestantes mais do
que seríamos ao pedir a pena de morte para ladrões,
assassinos, contraventores e revolucionários." (15)
Os sucessores de Albert V, e especialmente Maximiliano I
(1597-1651), completaram seu trabalho, mas Alberto V já
estava consciente de sua "responsabilidade" de assegurar a
"salvação" de seus súditos. "Logo que os padres chegaram à
Bavária, sua atitude em relação aos protestantes e os que
eram favoráveis a eles tornou-se severa. A partir de 1563
impiedosamente baniram todos os recalci-trantes e não tinham
piedade dos anabatistas, os quais acabavam por sofrer
afogamentos, fogueiras, prisões e cadeias, tudo isso com os
elogios do jesuíta Agrícola. Toda uma geração teve de
desaparecer antes da perseguição ser coroada com êxito
absoluto. Já em 1586, os anabatistas morávios conseguiram
esconder 600 vítimas do duque Guilherme. Esse exemplo
prova que eram milhares, e não centenas, os banidos, um
número assustador em um país com tão poucos habitantes."
"Mas a honra de Deus e a salvação de almas deve estar acima
de quaisquer interesses temporais", disse Albert V, do
Conselho da Cidade de Munique.(16) Pouco a pouco, todo o
ensino na Bavária foi posto nas mãos dos jesuítas e aquela
região se transformou na base para sua penetração no Leste,
Oeste e Norte da Alemanha.
'A partir de 1585, os sacerdotes converteram a parte da
Westphalia sob controle de Colônia. Em 1586, surgem em
Neuss e Bonn, uma das sedes do arcebispo de Colônia; abrem
escolas em Hildesheim em 1587 e Munster em 1588. Esta, em
especial, já tinha 1.300 pupilos em 1618... Uma grande parte
do Oeste da Alemanha foi reconquistada dessa forma pelo
catolicismo, graças aos Wittelsbach e aos jesuítas.
'A aliança entre os Wittelsbach e os jesuítas talvez tenha sido
mais importante ainda para as regiões da Áustria do que para o
Oeste da Alemanha." (17) O arquiduque Carlos de Styrie,
último filho do imperador Ferdinando, casou-se em 1571 com
uma princesa da Bavária, trazendo ao castelo de Gratz as
rígidas tendências católicas e a amizade dos jesuítas que
prevaleciam na Corte de Munique." Sob a influência dela,
Carlos lutou muito para "extirpar a heresia" de seu reino e,
quando morreu, em 1590, fez com que seu filho e sucessor,
Ferdinando, jurasse continuar essa tarefa. De qualquer modo,
Ferdinando estava muito bem preparado para tal. "Por cinco
anos havia sido aluno dos jesuítas em Ingolstadt; além disso,
era tão bitolado que, para ele, não havia mais nobre missão
que o reestabelecimento da Igreja Católica em seu Estado
hereditário. Se essa missão era vantajosa ou não a seu reino,
não lhe importava verdadeiramente. "Prefiro "reinar num país
em ruínas, do que num país amaldiçoado", dizia ele.
Em 1617, o arquiduque Ferdinando foi coroado rei da Boêmia
pelo imperador. "Influenciado pelo seu confessor jesuíta Viller,
Ferdinando começou imediatamente a combater o
protestantismo ern seu novo reino, assinalando assim o
começo daquela guerra sangrenta de religião, a qual, nos 30
anos seguintes, manteve a Europa em suspense. Quando em
1618 os infelizes eventos em Praga deram sinal de uma
rebelião aberta, o velho imperador Mathias tentou primeiro
comprometer-se, mas não tinha poder suficiente para fazer
prevalecer suas intenções contra o rei Ferdinando, o qual era
dominado pelo seu confessor jesuíta; assim perdeu-se a última
esperança de resolver este conflito amigavelmente. Ao mesmo
tempo, a Boêmia havia tomado medidas especiais e decretado
solenemente que todos os jesuítas deveriam ser banidos, pois
eram promotores de uma guerra civil." (19)
Logo após, a Morávia e a Silésia seguiram esse exemplo, e os
protestantes da Hungria, onde o jesuíta Pazmany governou
com mão-de-ferro, também se rebelaram. A batalha da
Montanha Branca (1620), no entanto, foi vencida por
Ferdinando, que havia sido elevado a imperador novamente
após a morte de Mathias. "Os jesuítas persuadiram Ferdinando
a submeter os rebeldes à mais cruel das punições; o
protestantismo foi arrancado de todo o país às custa de meios
indescritivelmente terríveis. No fim da guerra, a ruína material
do país era completa."
"O jesuíta Balbinus, historiador da Boêmia, admirava-se como
ainda pudesse haver alguns habitantes naquele país. A ruína
moral, porém, foi ainda mais terrível. A cultura emergente
encontrada entre os nobres e classe média, a rica literatura
nacional não poderia ser substituída: tudo isso havia sido
destruído, e até mesmo a nacionalidade fora abolida. A Boêmia
estava aberta para as atividades jesuíticas. Eles queimaram a
literatura tcheca em massa; sob sua influência, até mesmo o
nome do grande santo nacional (John Huss) foi sendo
gradualmente apagado até que estivesse extinto do coração do
povo."
"O auge do poder dos jesuítas", disse Tomek, "coincidiu com a
maior decadência do país em sua cultura nacional. Foi por
causa da influência da Ordem que o despertar dessa terra
desafortunada só veio a acontecer aproximadamente um
século depois". Quando a "Guerra dos 30 Anos" chegou ao fim
e a paz foi concluída, com a garantia aos protestantes alemães
dos mesmos direitos políticos dos católicos, os jesuítas fizeram
o máximo para que a luta continuasse, mas foi em vão." (20)
Obtiveram, entretanto, de seu aluno Leopoldo I, então
imperador, a promessa de perseguir os protestantes em suas
próprias terras e, especialmente, na Hungria.
'Acompanhados de dragões imperiais, os jesuítas assumiram
esse trabalho de reconversão em 1671. Os húngaros se
levantaram contra eles e começaram uma guerra que duraria
por quase uma geração inteira, mas essa insurreição foi
vitoriosa, sob a liderança de Francis Kakoczy. Os vitoriosos
quiseram expulsar os jesuítas de todos os países sob seu
domínio, mas protetores influentes da Ordem conseguiram
adiar tais medidas e a expulsão só aconteceu em 1707".
"O príncipe Eugênio culpou, com uma franqueza ousada, a
política da casa imperial e as intrigas dos jesuítas na Hungria.
"A Áustria quase perdeu a Hungria por ter perseguido os
protestantes", escreveu ele, afirmando amargamente que a
moral dos turcos era muito superior à dos jesuítas, na prática,
pelo menos. "Eles querem dominar consciências, além de ter o
direito de vida e morte sobre os homens", continuou ele.
'A Áustria e a Bavária ceifaram os frutos da dominação
jesuítica por completo: a compressão de todas as tendências e
a idiotização sistemática do povo. A profunda miséria que se
seguiu à guerra religiosa, a política impotente, a decadência
intelectual, a corrupção moral, uma diminuição alarmante da
população e o empobre cimento de toda a Alemanha. Estes
foram os resultados das iniciativas da Ordem."(21)
Suíça
Somente durante o século XVII é que os jesuítas conseguiram
se estabelecer com sucesso na Suíça, depois de terem sido
chamados e posteriormente banidos por algumas poucas
cidades da Confederação, durante a segunda metade do
século XVI.
O arcebispo de Milão, Carlos Borromee, o qual tinha favorecido
sua instalação em Lucema, em 1578, logo percebeu quais
seriam os resultados de suas ações, conforme nos lembra J.
Huber: "Carlos Borromee escreveu a seu confessor que a
Companhia de Jesus, governada por dirigentes mais políticos
do que religiosos, estava se tornando poderosa demais para
preservar a submissão e moderação necessárias. Ela domina
reis e príncipes e dirige assuntos temporais e espirituais; a
instituição piedosa perdeu o espírito que a animava na origem;
nos sentíamos obrigados a excluí-la".(22)
Ao mesmo tempo, na França, o famoso legista Etiénne
Pasquier escreveu: "Introduza essa Ordem em nosso meio e,
ao mesmo tempo, estará produzindo dissensão, caos e
confusão. "(23) Não seria essa a mesma reclamação ouvida e
repetida em todos os países contra a Companhia? Foi o
mesmo na Suíça, quando a evidência de seus atos malignos
irromperam das aparências lisonjeiras pelas quais se superava
na arte de se disfarçar. "Sempre que os jesuítas conseguiam
fincar raízes, seduziam grandes e pequenos, jovens e velhos.
Logo, as autoridades começariam a consultá-los em
circunstâncias importantes; suas doações começavam a entrar;
logo depois passaram a ocupar todas as escolas, os púlpitos
de muitas igrejas, os confessionários de todas as pessoas de
posição elevada e influente. Confessores e atentos
orientadores da educação de todas as classes sociais,
conselheiros e amigos íntimos dos membros da Câmara, sua
influência crescia dia após dia, e não se faziam de rogados
para logo exercê-la em assuntos públicos. Lucema e Friburgo
eram seus centros principais, de onde conduziam a política
externa de muitos cantões católicos."
Polônia e Rússia
A dominação jesuítica na Polônia foi, de todas, a mais mortal.
Isso é provado por H. Boehmer, um historiador moderado, o
qual não tolera a hostilidade sistemática a essa Ordem.
"Os jesuítas foram totalmente responsáveis pela aniquilação da
Polônia. A decadência do Estado polonês já havia começado
quando eles surgiram em cena. É inegável, entretanto, que
aceleraram o processo de decomposição do reino. De todos os
Estados nacionais, a Polônia, que tinha milhões de cristãos
ortodoxos, deveria ser o mais tolerante, do ponto de vista
religioso, mas os jesuítas não permitiram que isso
acontecesse. Fizeram ainda pior: puseram a política externa da
Polônia a serviço dos interesses católicos de forma mortal".
(25)
Esse texto foi escrito no final do século passado, sendo muito
semelhante ao que o coronel Beck, antigo ministro polonês dos
Assuntos Estrangeiros de 1932 a 1939, disse após a Segunda
Guerra Mundial (1939-1945): "O Vaticano é uma das principais
causas da tragédia do meu país. Percebi tarde demais que
tínhamos seguido nossa política externa apenas para servir
aos interesses da Igreja Católica". (26)
Assim, com distância de vários séculos, a mesma influência
desastrosa deixou sua marca outra vez naquela nação
desaventurada. Já em 1581, o padre Possevino, representante
papal em Moscou, tinha se esforçado ao máximo para
aproximar o czar Ivan, "o Terrível", e a Igreja Romana. Ivan não
era estritamente contra ela. Cheio de grandes esperanças,
Possevino tornou-se, em 1584, o mediador da paz de Kirewora
Gora entre a Rússia e a Polônia, uma paz que veio a salvar
Ivan de dificuldades incríveis. Isso era exatamente o que o
astuto soberano esperava. Não houve mais discussões sobre a
conversão dos russos e Possevino teve de abandonar a Rússia
sem ter obtido absolutamente nada. Dois anos mais tarde, uma
oportunidade ainda melhor se ofereceu aos padres para invadir
a Rússia: um monge destituído revelou-se a um jesuíta como
sendo na verdade Dimitri, filho do czar Ivan, que havia sido
assassinado.
Ele propôs submeter Moscou a Roma caso fosse erguido ao
trono do czar. Sem refletir, os jesuítas aceitaram a proposta de
apresentar Ostrepjew ao paladino de Sandomir, o qual lhe
concedeu a filha em casamento. Falaram em nome dele ao rei
Sigismundo III e ao papa sobre suas expectativas, e
conseguiram levantar o exército polonês contra o czar Boris
Godounov. Como recompensa por esses serviços, o falso
Dimitri renunciou à religião de seus pais na Cracóvia, uma das
sedes jesuítas, e prometeu à Ordem uma sede em Moscou,
próxima ao Kremlin, após sua vitória sobre Boris.
"Foram estes favores dos católicos, entretanto, que
desencadearam o ódio da Igreja Russa Ortodoxa contra Dimitri.
No dia 27 de maio de 1606, ele foi massacrado com várias
centenas de seguidores poloneses. Até então, não se podia
falar de um verdadeiro sentimento nacionalista russo; agora,
esse sentimento se tornava importantíssimo e tomava
imediatamente a forma de ódio fanático pela Igreja Romana e
pela Polônia. A aliança com a Áustria e a política ofensiva de
Sigismundo III contra os turcos, fortemente encorajada pela
Ordem, foi também desastrosa esuítica. Em nenhum outro
país, à exceção de Portugal, a Companhia foi tão poderosa. A
Polônia não só teve um "rei dos jesuítas", mas também um
jesuíta rei, João Casimiro, um soberano que havia pertencido à
Ordem antes da sua ascensão ao trono em 1649. Enquanto a
Polônia seguia rapidamente para a ruína, o número de sedes e
escolas crescia tão rapidamente que o prior estabeleceu na
Polônia uma congregação especial em 1751." (27)
Suécia e Inglaterra
Nos países escandinavos, o luteranismo anulou todo o resto e,
quando os jesuítas fizeram seu contra-ataque, não
encontraram o que havia na Alemanha: um partido político em
minoria, mas ainda forte, escreveu Pierre Dominique.(28) Sua
única esperança era a conversão do soberano (que
secretamente estava a favor dos católicos). Também esse rei,
João III Wasa, tinha se casado em 1568 com uma católica
romana, a princesa polonesa Catarina. Em 1574, o padre
Nicolai e outros jesuítas foram trazidos à Escola de Teologia
recentemente fundada, onde se tornaram ardorosos
defensores de Roma, enquanto oficialmente assumiam o
luteranismo.
Posteriormente, o hábil negociador Possevino obteve a
conversão de João III e os cuidados pela educação de seu filho
Sigismundo, o futuro Sigismundo III, rei da Polônia. Quando
chegou o momento de submeter a Suécia à Santa Sé, as
condições do rei (casamento de padres e uso do idioma
nacional em serviços e comunhões - todas rejeitadas pela
Cúria Romana), levaram as negociações a um beco sem saída.
De qualquer forma, o rei, o qual havia perdido sua primeira
mulher, teve de se casar com uma sueca luterana. Os jesuítas
tiveram que abandonar o país.
"Cinqüenta anos depois, a Ordem ganhou outra grande batalha
na Suécia. A rainha Cristina, filha de Gustavo Adolfo, o último
dos Wasa, foi convertida sob a educação de dois professores
jesuítas, os quais conseguiram chegar a Estocolmo fingindo
viajarem com nobres italianos. Para conseguir trocar sua
religião sem conflitos, no entanto, ela teve que abdicar no dia
24 de junho de 1654." (29)
Na Inglaterra, por outro lado, a situação parecia mais favorável
à Companhia e podia-se esperar, por algum tempo pelo
menos, trazer o país de volta à jurisdição da Santa Sé.
"Quando Elizabeth subiu ao trono, em 1558, a Irlanda era ainda
totalmente católica. Nessa época, o catolicismo atingia 50% da
população da Inglaterra. Já em 1542, Salmeron e Broel tinham
sido enviados pelo papa à Irlanda, para investigações." (30)
Foram criados seminários sob a direção dos jesuítas em Douai,
Pont-a-Mousson e Roma, com o objetivo de preparar
missionários ingleses, irlandeses e escoceses. Em acordo com
Filipe II, de Espanha, a Cúria Romana trabalhou pela queda de
Elizabeth em favor da católica Maria Stuart. Uma rebelião
irlandesa, provocada por Roma, havia sido esmagada. Os
jesuítas, todavia, que haviam chegado à Inglaterra em 1580,
tomaram parte de uma grande assembléia católica em
Southwark.
"Posteriormente, sob diversos disfarces, eles se espalharam de
condado a condado, de casas de campo a castelos. À noite,
ouviam confissões; de manhã, pregavam e davam a
comunhão; depois desapareciam tão misteriosamente quanto
tinham chegado. Assim foi que, em 15 de julho, os jesuítas
foram proscritos pela rainha Elizabeth."(31)
Eles imprimiam e distribuíam secretamente panfletos virulentos
contra a rainha e a Igreja Anglicana. Um deles, o padre
Campion, foi preso, condenado por alta traição e enforcado.
Também conspiraram em Edimburgo para conquistar o rei
James, da Escócia, para sua causa. O resultado de todos
esses distúrbios foi a execução de Maria Stuart em 1587.
Posteriormente veio a expedição espanhola, a Armada
Invencível, que fez a Inglaterra tremer por algum tempo,
fazendo surgir a "união sagrada" em torno do trono de
Elizabeth. A Companhia, entretanto, manteve-se firme em seus
propósitos. Preparava padres ingleses em Valladolid, Sevilha,
Madrid e Lisboa, enquanto sua propaganda secreta era
mantida na Inglaterra, sob a direção do padre Garnett. Após a
conspiração de Gunpowder contra James I, sucessor de
Elizabeth, este mesmo padre Garnett foi condenado por
cumplicidade e enforcado, tal qual o padre Campion. Sob
Charles I, já na Commonwealth de Cromwell, outros jesuítas
pagaram com a vida por suas intrigas.
A Ordem chegou a pensar que venceria com Charles II, o qual,
juntamente com Luís XIV havia concluído um acordo secreto
em Dover, comprometendo-se a restaurar o catolicismo no
país. 'A nação não foi completamente informada a respeito
dessas circunstâncias, mas o pouco que vazou foi suficiente
para criar uma agitação inacreditável. Toda a Inglaterra
estremeceu diante do fantasma de Loyola e das conspirações
jesuítas."(32) Uma reunião deles no próprio palácio levou a
fúria popular a um limite. "Charles II, que desfrutava a vida de
um rei e não queria atravessar outra "viagem pelos mares",
enforcou cinco padres por alta traição em Tybum. Isso não
abateu os jesuítas. Charles II, no entanto, foi muito prudente e
cínico para o gosto deles, pois estava sempre pronto a
despistá-los. Imaginaram que a vitória seria possível quando
James II subiu ao trono.
O rei retornou ao velho jogo de Maria Tudor, mas usou de
meios mais suaves. Fingiu converter a Inglaterra e estabeleceu
para os jesuítas, no palácio de Savoy, um colégio onde 400
estudantes foram imediatamente admitidos. Uma camarilha
completa de jesuítas tomou conta do Palácio.
Todas essas combinações foram a causa principal para a
revolução de 1688. Os jesuítas tiveram de ir contra uma
corrente muito poderosa. Na época, a Inglaterra tinha 20
protestantes para cada católico. O rei foi derrubado; todos os
membros da Companhia foram presos ou banidos. Por algum
tempo, os jesuítas tentaram recomeçar seu trabalho como
agentes secretos, mas não passou de uma agitação fútil. Eles
tinham perdido a causa." (33)
Companhia parece ser extremamente perigosa com respeito à
fé; é uma inimiga da paz da Igreja; mortal ao Estado monástico
e parece ter sido criada para trazer não a edificação, mas a
ruína." (34) Os padres, no entanto, foram autorizados a se
estabelecerem em Billom, um recanto de Auvergne. De lá,
organizaram uma grande ação contra a Reforma nas
províncias do Sul da França. Lainez, o famoso homem do
Concilio de Trento, sobressaiu-se nas polêmicas,
especialmente no Colóquio de Poissy, numa tentativa frustrada
de conciliar as duas doutrinas (1561).
Graças à rainha mãe, Catarina de Médicis, a Ordem abriu sua
primeira casa parisiense, o Colégio de Clermont, que passou a
competir com a Universidade. A oposição desta, do clero e do
Parlamento foi mais ou menos pacificada com concessões
verbais, pelo menos, feitas pela Companhia, a qual se
comprometeu a se restringir ao direito comum. A Universidade,
porém, tinha lutado muito e por muito tempo contra a
introdução de "homens subornados às custas da França, para
se armarem contra o rei", de acordo com Etiénne Pasquier,
cujas palavras se mostraram verdadeiras não muito tempo
depois.
Nem é preciso perguntar se os jesuítas "consentiram" com o
Massacre de São Bartolomeu (1572). Eles chegaram a
prepará-lo? Quem sabe? A política da Companhia, sutil e
flexível nos seus procedimentos, tinha objetivos muito claros; é
a política do "tudo para destruir a heresia". Todo o resto deve
estar submetido a esse objetivo maior. "Catarina de Médicis
trabalhou muito por esse objetivo e a Companhia podia contar
com os Guises. "(35) Esse plano superior, entretanto, tão
ajudado pelo massacre da noite de 24 de agosto de 1572,
provocou uma terrível explosão de ódio fratricida. Três anos
depois, foi a Liga, após o assassinato do duque de Guises,
apelidado "o rei de Paris", e o pedido de "Sua Alta Majestade
Cristã" para combater os protestantes.
O astuto Henrique III fez o máximo para evitar uma guerra
religiosa. Em acordo com Henrique de Navarra, eles
conquistaram os protestantes e os católicos mais moderados
contra Paris, a Liga e seus partidários, romanos enlouquecidos
apoiados por Espanha. "Os jesuítas, poderosos em Paris,
protestaram que o rei da França tinha se entregado à heresia.
O comitê dirigente da Liga deliberou na casa dos jesuítas na
rua de Saint Antoine. Estaria a Espanha controlando Paris?
Improvável. A Liga? A Liga só era um instrumento em mãos
extremamente habilidosas. Essa Companhia de Jesus, que tem
estado lutando em nome de Roma por trinta anos já, este era o
senhor secreto de Paris."
'Assim, Henrique III foi assassinado. Devido ao fato do herdeiro
ser protestante, o assassinato pareceu à primeira vista tér sido
cometido apenas por razões políticas, mas não seria possível
que aqueles que o planejaram e persuadiram o jacobino
Clement a executá-lo estivessem esperando uma revolta da
França Católica contra o herdeiro huguenote? O fato é que
algum tempo depois, Clement foi chamado de "anjo" pelo
jesuíta Camelet. Guignard, outro jesuíta que posteriormente foi
enforcado, dava a seus alunos, como forma de moldar suas
opiniões, textos tirânicos em seus exercícios de latim."(36)
Entre outras coisas, esses exercícios escolares continham o
seguinte: "Jacques Clement cometeu um ato de mérito
inspirado pelo Espírito Santo. Se podemos travar guerra contra
ele, então devemos levá-lo à morte." E ainda: "Cometemos um
grande erro em São Bartolomeu; deveríamos ter feito sangrar a
veia real." (37)
França
Em 1551, a Ordem começou a se estabelecer na França e,
após 17 anos de sua fundação, estava instalada na capela
Saint-Denis, em Montmartre. Os jesuítas se apresentavam
como adversários efetivos da Reforma, a qual havia
conquistado um sétimo da população francesa. O povo, no
entanto, não confiava nesses soldados excessivamente
dedicados à Santa Sé. Assim, sua penetração na França foi
inicialmente muito lenta. Tal como em todos os outros países
onde a opinião pública não lhes era favorável, se insinuavam
em primeiro lugar entre as pessoas da Corte; depois, através
destas, nas classes superiores. Em Paris, entretanto, o
Parlamento, a Universidade e mesmo o clero mantinham-se
hostis. Isso ficou mais evidente na sua primeira tentativa de
abrir um colégio na cidade.
Em 1592, um certo Bamere, o qual tentara assassinar Henrique
IV confessou que o padre Varade, reitor dos jesuítas em Paris,
o havia persuadido a isso. Em 1594, outra tentativa foi levada a
cabo por Jean Chatel, ex-aluno dos jesuítas, os quais haviam
ouvido sua confissão pouco antes de cometer o ato. Foi nessa
ocasião que os já mencionados exercícios escolares eram
aproveitados na casa do padre Guignard. "O padre foi
enforcado em Greve, enquanto o rei confirmava um édito do
Parlamento banindo os filhos de Loyola do reino, como
"corruptores da juventude, violadores da paz pública e inimigos
do Estado e da Coroa da França."
O édito não foi levado avante em sua totalidade e, em 1603, foi
revogado pelo rei contra recomendação do Parlamento.
Aquaviva, o prior dos jesuítas, havia sido ardiloso em suas
manobras e levara o rei Henrique IV a acreditar que a Ordem,
reestabelecida na França, seria leal servidora dos interesses
nacionais. Como poderia ele, sutil como era, acreditar que
esses romanos fanáticos realmente aceitariam o Édito de
Nantes (1498), o qual determinava os direitos dos protestantes
na França e, ainda pior, apoiariam seus projetos contra a
Espanha e seu imperador? O fato é que Henrique IV escolheu
para seu confessor e tutor um dos mais distintos membros da
Companhia, o padre Cotton.(38a)
Em 16 de maio de 1610, na véspera de sua campanha contra a
Áustria, o monarca foi assassinado por Ravaillac, o qual
confessou ter sido inspirado pelos escritos dos padres Mariana
e Suarez. Estes dois recomendavam o assassinato de "tiranos
hereges" e de todos aqueles não suficientemente devotados
aos interesses do papado. O duque de Epernon, que fazia o rei
ler uma carta enquanto o assassino estava pronto para a
emboscada, foi um amigo famoso dos jesuítas, e Michelet
provou que eles sabiam dessa cilada. "De fato, Ravaillac havia
se confessado ao padre jesuíta d'Aubigny pouco antes e,
quando os juizes interrogaram o padre, ele simplesmente
respondeu que Deus lhe havia concedido o dom de esquecer
imediatamente o que lhe era dito no confessionário."(38)
O Parlamento, convicto de que Ravaillac tinha sido apenas um
instrumento da Companhia, ordenou ao carrasco queimar o
livro de Mariana. Felizmente, Aquaviva ainda estava lá.
Novamente esse grande prior tramou muito bem; condenou
severamente a legitimidade do tiranicídio. A Companhia
sempre teve autores que, no silêncio de seus estudos,
expunham a doutrina em toda a sua retidão; também tinha
grandes políticos os quais, quando necessário, a vestiriam com
as máscaras adequadas."(39) Graças ao padre Cotton, que
tomou conta da situação, a Companhia de Jesus saiu desse
"temporal" ilesa. Sua fortuna, o número de estabelecimentos e
seguidores cresceu vertiginosamente.
Quando, entretanto, Luís XIII subiu ao trono, e Richelieu
assumiu os assuntos de Estado, houve um conflito de
interesses. O cardeal não permitia que ninguém se opusesse à
sua política. O jesuíta Caussin, confessor do rei, pôde verificar
a verdade dessa afirmação, quando foi levado à prisão em
Rennes, sob as ordens de Richelieu, tal qual um criminoso de
Estado. Esse ato produziu ótimos resultados. A fim de se
manter na França, a Ordem chegou ao ponto de colaborar com
o respeitado ministro.
H. Boehmer escreveu sobre esse assunto: 'A falta de
consideração pela Igreja sempre demonstrada pelo governo
francês, desde Philippe le Bel, nos conflitos entre os interesses
nacionais e eclesiásticos era, novamente, a melhor
política."(40) A ascensão ao trono de Luís XIV marcou o início
de um tempo de grande prosperidade para a Ordem. A
indulgência dos confessores jesuítas, seu "descuido"
inteligente usado para atrair pecadores não muito interessados
em pagar penitências, foram extensivamente utilizados, tanto
com o povo quanto na Corte, especialmente com o rei, muito
mais um conquistador "Don Juan" que um devoto.
"Sua Majestade" não tinha intenção de renunciar aos seus
casos amorosos, e seu confessor foi muito cuidadoso em evitar
o assunto, apesar de ser puro adultério. Assim, toda a família
real foi prontamente abastecida com confessores jesuítas
apenas, e sua influência cresceu mais e mais na alta
sociedade. Os padres de Paris atacavam nos seus Escritos a
moral frouxa dos famosos casuístas da Companhia, mas sem
sucesso. O próprio Pascal interveio, em vão, a favor dos
jansenistas, durante a grande disputa teológica da época. Em
suas Cartas da Província, ele expôs ao eterno ridículo seus
oponentes muito mudanos, os jesuítas. Apesar disso, a posição
segura que tinham na Corte lhes assegurou a vitória e os de
Port-Royal sucumbiram.
A Ordem assim conquistava outra grande vitória para Roma,
cujas conseqüências foram contra os interesses nacionais. Não
é preciso dizer que, contra a vontade, tinham aceitado a paz
religiosa assegurada pelo Edito de Nantes, e que tinham
continuado em uma guerra secreta contra os franceses
protestantes.
À medida que Luís XTV envelhecia, tornou-se mais e mais
intolerante, sob a influência de Madame de Maintenon e do
padre La Chaise, seu confessor. Em 1881, eles o persuadiram
a recomeçar a perseguição aos protestantes. Finalmente, em
17 de outubro de 1685, ele assinava a Revogação do Édito de
Nantes, fazendo com que aqueles dentre seus súditos que se
recusassem a abraçar a religião católica ficassem sem direitos
legais.
Logo em seguida, para acelerar as "conversões", os famosos
"dragonnade" entraram em ação. Esse nome sinistro tornou-se
parte de todas as tentativas posteriores de evangelizar por fogo
e correntes. Enquanto os fanáticos aplaudiam, os protestantes
fugiram do reino em massa. De acordo com Marshal Vauban, a
França perdeu dessa forma 400 mil habitantes e 60 milhões de
francos. Industriais, comerciantes, proprietários de navios e
artesãos qualificados fugiram para outros países, levando
consigo a vantagem de suas especialidades.
Os jesuítas tiveram um dia de vitória em 17 de outubro de
1685; o prêmio final para uma guerra que tinha durado 125
anos ininterruptos, mas o Estado pagou os custos da vitória
jesuítica. 'A despopulação e a redução da prosperidade
nacional foram as conseqüências materiais graves de seu
triunfo, seguidas de um empobrecimento espiritual que não
poderia ser curado, nem mesmo na melhor escola jesuíta. Isso
foi o que a França sofreu e a Companhia de Jesus teve de
pagar muito pouco tempo depois."(41)
Durante o século seguinte, os filhos de Loyola viram, não
apenas na França mas em todos os países europeus, a
rejeição contra eles, mas novamente durou pouco tempo;
esses janízaros fanáticos do papado não haviam acabado de
acumular ruínas na perseguição ao seu sonho impossível.
Missões no Estrangeiro
"Tornaram-se os católicos devotos e supersticiosos, que vêem
milagres em todos os lugares e parecem gostar da
autoflagelaçáo"
índia, Japão e China
Conversão de "pagãos" havia sido o primeiro objetivo do
fundador da Companhia de Jesus. Apesar da necessidade de
combater o protestantismo na Europa envolver seus discípulos
mais e mais (e essa iniciativa política e religiosa, da qual
fizemos um breve sumário, tornou-se sua tarefa principal),
ainda assim continuaram com a evangelização de terras
distantes. Seu ideal teocrático (submeter o mundo à autoridade
da Santa Sé) exigia que fossem a todas as regiões do globo,
na "conquista de almas". Francisco Xavier, um dos primeiros
companheiros de Ignácio, foi o grande promotor da
"evangelização na Ásia". Em 1542, desembarcou em Goa e
encontrou ali um bispado, uma catedral e um convento de
franciscanos que, juntamente com alguns padres portugueses,
já haviam tentado espalhar entre os nativos a religião de Cristo.
Deu tamanho impulso ao movimento nessa sua primeira
tentativa que começou a ser chamado de "apóstolo da índia".
Na verdade, era muito mais um pioneiro e divulgador do que
exatamente alguém que completasse alguma coisa duradoura.
Apaixonado, entusiasta, sempre na busca de novos campos de
ação, ele mostrou o caminho muito mais do que semeou o
chão. No reino de Travancore, em Malacca, nas Ilhas de
Banda, Macassar e Ceilão, seu charme pessoal e seus
discursos eloqüentes fizeram maravilhas e, como resultado, 70
mil idolatras foram convertidos, especialmente nas castas
baixas. Para alcançar isso, ele não desprezava o suporte
político e até militar dos portugueses. Esses resultados, mais
espetaculares do que sólidos, fatalmente despertaram o
interesse pelas missões na Europa, além de trazer um outro
brilho sobre a Companhia de Jesus.
O apóstolo incansável - mas pouco perseverante - logo deixou
a índia em busca do Japão, depois China, onde estava para
entrar quando veio a morrer em Cantão, em 1552. Seu
sucessor na índia, Roberto de Nobile, aplicou nesse país os
mesmos métodos que os jesuítas usavam com sucesso na
Europa: apelou às classes mais altas. Para os "intocáveis", ele
só concedia a hóstia consagrada na ponta de um bastão.
Nobile adotou as roupas, os hábitos e a forma de vida dos
brâmanes e misturou seus ritos com os cristãos, tudo isso com
a aprovação do papa Gregório XV. Graças a essa
ambigüidade, converteu, segundo ele mesmo afirmava, 250 mil
hindus. "Cerca de um século após sua morte, quando o
intransigente papa Benedito XIV proibiu a observância desses
rituais hindus, tudo faliu e os 250 mil pseudo- católicos
desapareceram."(1)
Nos territórios do Norte da índia, do grande mongol Akbar, um
homem tolerante que tinha fé, mesmo tentando introduzir no
seu Estado o sincretismo religioso, os jesuítas foram aceitos
para construir uma sede em Lahore, em 1575. Os sucessores
de Akbar concederam-lhes os mesmos favores. Aureng-Zeb
(1666-1707), um muçulmano ortodoxo, pôs, no entanto, um fim
a essa empreitada. Em 1549, Xavier embarcou para o Japão
com dois acompanhantes e um japonês que ele havia
convertido em Mallaca, chamado Yoshiro. Os primeiros tempos
não foram muito prósperos. "Os japoneses têm sua própria
mortalidade e são muito reservados; seu passado os
mergulhou no paganismo. Os adultos olhavam para aqueles
estranhos com graça e as crianças os seguiam, zombando." (2)
Yoshiro, nativo, conseguiu começar uma pequena comunidade
com cem seguidores. Francisco Xavier, que não falava japonês
muito bem, não conseguia nem mesmo obter uma audiência
com o Mikado, a suprema autoridade religiosa japonesa.
Quando deixou o país, dois padres permaneceram e,
posteriormente, conseguiram a conversão dos daimos de
Arima e Bungo. Este último se decidiu finalmente pela
conversão após analisar o assunto por 27 anos.
No ano seguinte, os padres se estabeleceram em Nagasaki.
Pensavam ter convertido cem mil japoneses. Em 1587, a
situação interna do país, dividido pela guerra dos clãs,
modificou-se inteiramente. "Os jesuítas tiraram vantagem
dessa anarquia e de sua relação íntima com os mercadores
portugueses."(3) Hideyoshi, um homem de origem simples,
usurpou o poder e tomou para si o título de Taikosama.
Não confiava na influência política dos jesuítas, suas
associações com os portugueses e conexões com os grandes
e rebeldes vassalos, os Samurais. Conseqüentemente, a jovem
Igreja japonesa foi violentamente perseguida. Seis franciscanos
e três jesuítas foram crucificados; muitos convertidos foram
assassinados e a Ordem foi banida. O decreto, entretanto, não
foi levado avante; os jesuítas continuaram seu apostolado em
segredo.
Em 1614, o primeiro Shogun, Tokugawa Yagasu, irritou-se com
suas ações ocultas e a perseguição recomeçou. Além disso, os
holandeses haviam tomado o lugar dos portugueses nos
balcões de negócios e eram vigiados de perto pelo governo.
Uma desconfiança profunda de todos os estrangeiros,
eclesiásticos ou leigos, passou a inspirar a conduta dos líderes
a partir de então e, em 1638, uma rebelião dos cristãos de
Nagasaki foi afogada em sangue. Para os jesuítas, a aventura
japonesa chegava ao fim e assim permaneceu durante um
longo tempo.
Podemos ler no notável livro de Lord Bertrand Russell, Science
and Religion, a seguinte passagem insinuante sobre Francisco
Xavier, "o realizador de milagres": "Ele e seus acompanhantes
escreveram muitas cartas longas que foram guardadas até
hoje; nelas, prestavam contas de seus trabalhos, mas
nenhuma mencionava seus poderes miraculosos."
José Acosta negava expressamente que esses missionários
tivessem sido ajudados por milagres nos seus esforços para
converter os pagãos. Logo após a morte de Xavier, histórias
sobre milagres começaram a surgir. Diziam que ele tinha o
dom de línguas, apesar de suas cartas estarem cheias de
alusões às suas dificuldades quando quis dominar o idioma
japonês ou encontrar bons intérpretes.
Histórias foram contadas afirmando que, quando seus amigos
sentiram sede no mar, transformara a água salgada em doce.
De acordo com uma versão posterior, ele teria atirado o
crucifixo no mar para acalmar uma tempestade. Ao ser
canonizado em 1622, foi "provado", para a satisfação das
autoridades no Vaticano, que ele havia realizado "milagres",
pois ninguém pode ser transformado em santo sem realizar
milagres.
O papa deu sua garantia oficial ao dom de línguas e ficou
particularmente impressionado pelo fato de Xavier ter
supostamente feito lamparinas acenderem com água benta, e
não com óleo. "O mesmo papa, Urbano VIII, recusou-se a
acreditar nas afirmações de Galileu. A lenda continuou a
aumentar. Uma biografia pelo padre Bonhours, publicada em
1682, conta que o santo tinha ressuscitado 14 pessoas durante
sua vida. Autores católicos ainda atribuem a ele o dom dos
milagres em uma biografia publicada em 1872; o padre
Coleridge, da Companhia de Jesus, reafirma que ele tinha o
dom das línguas."(4) A julgar pelas explicações acima
mencionadas, o "santo" Francisco Xavier realmente merecia
uma auréola.
Na China, os filhos de Loyola tiveram uma época longa e
favorável com apenas poucas expulsões. Obtiveram isso na
condição de que trabalhassem por lá principalmente como
cientistas e respeitassem os ritos milenares dessa civilização
tão antiga.
A Meteorologia era a disciplina principal. Francisco Xavier já
havia descoberto que os japoneses não sabiam que a terra era
redonda. Eles eram muito curiosos quanto às coisas que Xavier
lhes ensinava sobre este e outros assuntos. "Na China, tornouse
oficial e, como os chineses não eram fanáticos, as coisas se
desenvolveram pacificamente. Um italiano, padre Ricci, foi seu
iniciador. Tendo feito seu caminho para Pequim, assumiu
prontamente a função de astrônomo diante dos cientistas
chineses. A Astronomia e a Matemática eram uma parte
importante das instituições chinesas.
Estas ciências davam condições ao soberano de agendar suas
várias cerimônias religiosas e civis. Ricci trouxe informações
que o tornaram indispensável e usou dessa oportunidade para
falar do cristianismo. Buscou dois padres que corrigiram o
calendário tradicional, estabelecendo o curso das estrelas com
os eventos terrestres. Ricci ajudou em tarefas menores
também; desenhou, por exemplo, um mapa mural do império,
onde cuidadosamente colocou a China no centro do
universo".(5) Esta era a principal atividade dos jesuítas no
"Império Celestial", posto que o interesse pelo lado religioso de
sua missão era mínimo. É engraçado pensar que, em Pequim,
os padres estivessem tão ocupados em corrigir os erros
astronômicos dos chineses enquanto em Roma a Santa Sé
persistentemente condenava o sistema copérnico, e isso até
1822!
Apesar do fato dos chineses terem pouca inclinação para o
misticismo, a primeira igreja católica foi aberta em Pequim em
1599. Quando Ricci morreu, foi substituído por um alemão, o
padre Shall von Bell, um astrônomo que também publicou
alguns tratados importantes em chinês. Em 1644, foi-lhe dado
o título de "Presidente do Tribunal Matemático", o que gerou
inveja entre os mandarins. Enquanto isso, as comunidades
cristãs se organizavam.
Em 1617, o imperador deve ter previsto os perigos dessa
penetração pacífica quando decretou o desterro de todos os
estrangeiros. Os "bons padres" foram mandados aos
portugueses em Macau, em caixotes de madeira. Logo em
seguida, no entanto, foram chamados de volta. Eram tão bons
astrônomos...
De fato, eram tão bons astrônomos quanto missionários, com
41 casas na China, 1.159 igrejas e 257 mil membros batizados.
Nova reação contra eles, entretanto, pediu seu desterro e o
padre Shall foi condenado à morte. Sem dúvida, ele não foi
condenado à tal sentença simplesmente por seu trabalho com
Matemática! Um terremoto e o incêndio do palácio imperial,
astutamente apresentados como um sinal da cólera divina,
salvaram-lhe a vida e ele morreu em paz, dois anos depois.
Seus companheiros, porém, tiveram que deixar a China.
'Apesar de tudo isso, a estima pelos jesuítas era tão grande
que o imperador Kang-Hi sentiu-se obrigado a chamá-los de
volta em 1669, ordenando um funeral solene para os despojos
de Iam Io Vam (Jean Adam Shall). Essas honras inesperadas
foram apenas o início de favores excepcionais. "(6) Um padre
belga, Verbiest, seguiu-se a Shall na direção das missões e do
Instituto de Matemática Imperial. Foi ele que deu ao
Observatório de Pequim aqueles famosos instrumentos cuja
precisão matemática é ocultada por quimeras, dragões, etc.
Kang-Hi, "o déspota esclarecido", que reinou por 61 anos,
apreciava os serviços daquele cientista, o qual lhe deu
conselhos sábios, acompanhou-o na guerra e até mesmo o
apoiou numa fundição de canhões.
Sua atividade profana e guerreira era dirigida "ad majorem Dei
gloriam", conforme o bom padre lembrou ao imperador na
mensagem enviada antes de sua morte: "Senhor, morro feliz
pois usei de quase todos os momentos de minha vida para
servir à Sua Majestade. Mas rogo a ele, com humildade, para
lembrar-se, após a minha morte, que meu objetivo em tudo o
que fiz era obter um protetor para a mais sagrada das religiões
no Universo; e o protetor era Sua Majestade, o maior rei do
Oriente." (7)
Tanto na China quanto em Malabar, essa religião não podia
sobreviver, no entanto, sem algum artifício. Os jesuítas tiveram
de trazer a doutrina romana ao nível chinês, identificar Deus
com o céu (Tien) ou o Chang-Ti, "imperador de cima", misturar
os ritos católicos com os chineses, aceitar o ensino de
Confúcio e o culto de ancestrais. O papa Clemente XI, que foi
informado disso por ordens rivais, condenou a doutrina
"eclética" e, como resultado, todo o trabalho missionário dos
jesuítas no "Império Celestial" se arruinou. Os sucessores de
Kang-Hi baniram a Cristandade e o último padre deixado na
China morreu sem nunca ter sido substituído.
As Américas: O Estado Jesuíta do Paraguai
Os missionários da Companhia de Jesus encontraram o Novo
Mundo muito mais favorável à sua catequização do que a Ásia.
Na América não encontraram nenhuma civilização culta ou
antiga; nenhuma religião solidamente estabelecida; nenhuma
tradição filosófica; muito pelo contrário, encontraram tribos
pobres e bárbaras, espiritual e temporalmente desarmadas
diante dos conquistadores brancos. Apenas o México e o Peru,
com a memória dos deuses astecas e incas ainda fresca em
suas lembranças, resistiram a essa religião importada por
algum tempo. Os dominicanos e franciscanos, entretanto, já
tinham se estabelecido solidamente.
Foi, portanto, entre as tribos selvagens, caçadores nômades e
pescadores que os filhos de Loyola exerceram sua atividade
devoradora. Os resultados obtidos variavam de acordo com as
populações. No Canadá, os Hurons, pacíficos e dóceis,
aceitaram facilmente o catecismo, mas seus inimigos, os
Iroquois, atacaram as estações criadas ao redor do Forte
Sainte-Marie e massacraram seus habitantes. Os Hurons foram
praticamente exterminados em dez anos e, em 1649, os
jesuítas tiveram de partir com apenas 300 sobreviventes.
Eles não deixaram uma forte impressão quando passaram
através dos territórios que hoje formam os Estados Unidos.
Apenas no século XIX é que começaram a plantar raízes
naquela parte do continente.
Na América do Sul, a ação dos jesuítas passou por bons e
maus momentos. Em 1546, os portugueses haviam convocado
os jesuítas para trabalhar nos territórios que possuíam no
Brasil; enquanto convertiam os nativos, encontravam muitos
conflitos com a autoridade civil e outras ordens religiosas. O
mesmo acontecia em Nova Granada.
O Paraguai, no entanto, foi a terra da grande "experiência" da
colonização jesuítica. Esse país se espalhava, na época, do
Atlântico aos Andes e alcançava os territórios que hoje
pertencem ao Brasil, Uruguai e Argentina. Os únicos meios de
acesso através da mata virgem eram os rios Paraguai e
Paraná. A população dessas terras era formada de indígenas
nômades e dóceis, prontos a se curvarem diante da dominação
de qualquer um, desde que fossem abastecidos com comida
suficiente e um pouco de tabaco. Os jesuítas não poderiam
encontrar condições melhores para estabelecer, longe da
corrupção dos brancos, o modelo perfeito de colônia. No início
do século XVII, o Paraguai foi elevado a Província pelo prior da
Ordem que tinha sido empossado pela Corte Espanhola, e o
"Estado Jesuíta" se desenvolveu e expandiu.
Esses "bons selvagens" foram devidamente catequizados e
treinados para viverem sedentariamente, sob uma disciplina
tão gentil quanto forte: 'Assim como uma mão-de-ferro em uma
luva de veludo". Essas sociedades patriarcais deliberadamente
ignoravam as liberdades de qualquer espécie. "Tudo o que o
cristão possui e usa, a cabana em que vive; os campos que
cultiva; o gado que lhe dá comida e roupas; as armas que
carrega; as ferramentas com as quais trabalha; até mesmo a
única faca de mesa dada a um jovem casal, quando se casa, é
"Tupambac", propriedade de Deus. A partir dessa mesma
concepção, o "cristão" não pode dispor de sua vida livremente.
O bebê recém-nascido está sob a proteção de sua mãe. Assim
que começa a andar, ele pertence a Deus ou a seus "agentes".
Quando cresce (se for uma garota), aprende a desfiar e tecer,
ou a ler e escrever (se for um rapaz), mas apenas em guarani,
porque o espanhol é severamente proibido, de forma a evitar
qualquer contato com os "criolos corruptos."
Assim que a garota atingir 14 anos e o rapaz 16, eles se
casam, pois os padres anseiam que não cheguem a cair em
pecado carnal. Nenhum deles pode se tornar padre, monge, e
muito menos jesuíta. Eles praticamente não têm nenhuma
liberdade. São, obviamente, muito felizes, materialmente
falando... Pela manhã, após a missa, cada grupo de
trabalhadores vai para o campo, um após o outro, cantando e
precedido de uma imagem "santa". À noite, voltam para a vila
da mesma maneira, para ouvir o catecismo ou recitar o rosário.
Os padres também imaginaram alguma diversão honesta para
os "cristãos".
"Os jesuítas vigiam como se fossem pais; como tais, também
punem o menor dos erros. O chicote, o jejum, a prisão, a
exposição ao ridículo no pelourinho e a penitência pública na
igreja eram os castigos que usavam. Assim, os filhos
"vermelhos" do Paraguai não conheciam nenhuma outra forma
de autoridade, além dos bons padres. Nem vagamente
suspeitavam que o rei da Espanha era o seu soberano." (8)
Não é este o retrato caricaturado de um modelo ideal de
sociedade teocrática? Analisaremos como é que afetou o
avanço intelectual e moral dos beneficiários desse sistema,
esses "pobres inocentes", como eram chamados pelo marquês
de Loreto: 'A alta cultura das missões não passa de um produto
artificial de uma estufa, carregando em si a semente da morte.
Porque, apesar de toda essa quebra e treinamento, o guarani
continuou sendo o que era: um selvagem preguiçoso, bitolado,
sensual, ambicioso e sórdido. Conforme os próprios padres
dizem: ele apenas trabalha quando sente que o aguilhoar do
capataz está atrás dele.
Assim que são deixados por sua própria conta, ficam
indiferentes ao fato da colheita estar apodrecendo no campo,
os implementos se deteriorando e o rebanho se perdendo. Se
ele não é vigiado quando trabalha no campo, pode até mesmo
abater uma vaca, acender uma fogueira com a madeira do
arado e, ali mesmo, com seus companheiros, começar a comer
a carne mal passada, até não sobrar nada. Sabe que levará 25
chicotadas por isso, mas também sabe que os bons padres
não o deixarão morrer de fome." (9)
Em um livro recentemente publicado, podemos ler o seguinte
quanto às punições dos jesuítas: "O acusado, vestindo roupas
de penitente, era acompanhado à igreja para confessar sua
falta. Então era chicoteado na praça pública, de acordo com o
código penal. Os culpados recebiam esse castigo com
murmúrios, além de ações de graças. O culpado, tendo sido
punido e reconciliado, beijava a mão daquele que lhe batia,
dizendo: "Que Deus o recompense por estar me libertando, por
esta leve punição, das penas eternas que me ameaçavam.(10)
Após essa leitura, podemos entender a conclusão de H.
Boehmer: 'Ávida moral dos guaranis se enriqueceu muito
pouco sob a disciplina dos padres. Tornaram-se os católicos
devotos e supersticiosos, que vêem milagres em todos os
lugares e parecem gostar da autoflagelação até derramar
sangue. Aprenderam a obedecer e foram ligados aos bons
padres (que cuidaram tão bem deles) com uma gratidão de
filhos que, apesar de não ser profunda, era de qualquer forma
muito tenaz. Esse resultado não muito brilhante prova que
houve uma considerável deficiência nos métodos educativos
dos padres. Qual era o defeito? O fato de que nunca tentaram
desenvolver em seus filhos "vermelhos" as faculdades
inventivas, a necessidade de atividade, o sentido de
responsabilidade. Eles próprios inventavam jogos e
divertimentos para seus cristãos e pensavam para eles, ao
invés de os i encorajarem a pensarem por si próprios;
simplesmente submeteram aqueles que estavam sob seus
cuidados a uma "domesticação" mecânica, ao invés de uma
educação.
Como poderia ser diferente, se eles próprios também eram
submetidos a uma "domesticação" durante 14 anos?
Ensinariam os guaranis e seus discípulos brancos a pensarem
"por si mesmos", se eles próprios eram proibidos de o
fazerem? Não é um antigo jesuíta, mas um contemporâneo,
que escreve: "Ele (o jesuíta) nunca esquece que a
característica da Companhia é a obediência total da ação, da
vontade e até mesmo do julgamento. Todos os superiores
serão limitados da mesma forma em relação aos superiores e o
Padre Supremo ao Santíssimo. Assim foi estabelecido para
todos e tudo se rende à autoridade universalmente eficaz da
Santa Sé, e santo Ignácio estava certo que, a partir de então, o
ensino e a educação trariam a unidade católica de volta à
Europa dividida". "É com a esperança de reformar o mundo",
escreveu o padre Bonhours, "que ele abraçou em especial este
meio: a instrução da juventude".(12)
A educação dos nativos paraguaios foi feita nos mesmos
princípios que costumavam usar, os quais usam e usarão em
todos os povos e em todos os lugares. Seu objetivo, deplorado
por Boehmer mas ainda ideal para os olhos fanáticos, é a
renúncia de todo julgamento pessoal, toda a iniciativa, uma
submissão cega ao superior. Este não é "o máximo da
liberdade", "a libertação da escravidão de si mesmo", louvadas
por R. P. Rouquette e que já mencionamos antes?
Os bons guaranis haviam sido libertados tão bem pelos
métodos jesuíticos por mais de 150 anos que, quando seus
senhores saíram durante o século XVIII, voltaram para suas
florestas e seus costumes antigos, como se absolutamente
nada tivesse acontecido.
"Se um padre, cedendo à tentação, abusar de uma mulher
e ela tornar público o acontecido, desonrando-o, este mesmo
padre pode matá-la, para evitar desgraça!"
O Ensino dos Jesuítas
O método pedagógico da Companhia, escreveu R. P. Charmot,
S.J., "consiste primeiramente em envolver os alunos com um
grande conjunto de orações". Posteriormente, ele cita o padre
jesuíta Tacchini: "Que o Espírito Santo os complete como
alabastros são preenchidos com perfumes; que Ele penetre
neles tanto que, com o passar do tempo, poderão respirar mais
e mais a fragrância celestial e o perfume de Cristo!"
O padre Gandier também faz sua contribuição: "Não nos
esqueçamos que a educação, como é vista pela Companhia, é
ministério mais próximo do que é feito pelos anjos."(1) O padre
Charmot também diz: "Não sejamos ansiosos sobre quando e
como o misticismo está inserido em nossa educação. Não é
feito através de um sistema ou técnica artificial, mas por
infiltração, por "endosmosis". As almas das crianças ficam
impregnadas por estar em contato íntimo com mestres que
estão literalmente saturados em misticismo."(2)
Do mesmo autor, aqui está "o objetivo do professor jesuíta":
'Através de seu ensino, ele procura formar não uma elite
intelectual cristã, mas cristãos de elite. "(3) Estas poucas
citações nos dizem sobre o principal objetivo desses
educadores. Vejamos como formam esses cristãos de elite, e
qual o tipo de misticismo que é "inserido" ou "inoculado",
"infiltrado", "bombeado" nas crianças submetidas ao seu
sistema educacional.
À frente, e é uma característica da Ordem, encontramos a
"Virgem Maria". "Loyola havia transformado a Virgem na coisa
mais importante de sua vida. A adoração de Maria era a base
de suas devoções religiosas e foi por ele transmitida à Ordem.
Esse culto se desenvolveu tanto que costuma-se dizer, e com
razão, que era a verdadeira religião dos jesuítas."(4) Isso não
foi escrito por um protestante, mas por J. Huber, professor de
Teologia, católico. O próprio Loyola estava convencido que a
"Virgem" o havia inspirado quando escreveu os seus
Exercícios. Um jesuíta teve uma visão de Maria cobrindo a
Companhia com seu manto, como um sinal de sua proteção.
Outro, Rodrigo de Gois, ficou tão inebriado com sua beleza
indescritível que teria sido visto flutuando. Um noviço da
Ordem, que morreu em Roma em 1581, teria sido ajudado pela
Virgem em sua luta contra as tentações do diabo; para
fortalecê-lo, ela lhe teria dado o gosto do sangue de Jesus, de
tempos em tempos, além do "conforto de seus seios".(5)
A doutrina de Duns Scot sobre a Imaculada Conceição foi
entusi-asticamente adotada pela Ordem, que conseguiu
transformá-la em dogma através de Pio IX, em 1854. Erasmo
satiricamente retratou o culto à Maria em seu tempo. Durante o
quarto século, a lenda da casa de Loreto havia sido inventada.
Essa casa tinha aparentemente sido trazida da Palestina pelos
anjos.
Os jesuítas aceitaram e defenderam essa lenda. Canisius
chegou ao ponto de produzir cartas da própria Maria e, graças
à Ordem, altos valores começaram a chegar em Loreto (assim
como em Lourdes, em Fátima, etc). "Os jesuítas continuaram
com todos os tipos de relíquias da Mãe de Deus. Quando
entraram na igreja de São Miguel, em Munique, ofereceram
para veneração pedaços fidedignos do véu de Maria, vários
tufos de cabelos e pedaços de sua escova; eles instituíram um
culto especial, consagrado à veneração destes objetos". Este
culto se degenerou em manifestações sensuais e licenciosas,
em particular nos hinos dedicados à Virgem pelo padre
Jacques Pontanus. O poeta não conhecia nada mais lindo que
os seios de Maria; nada mais doce que seu leite e nada mais
maravilhoso que seu abdômen."(6) Poderíamos multiplicar
essas citações infinitamente.
Ignácio queria que seus discípulos tivessem uma piedade
"perceptível", ou ainda sensual, semelhante à sua própria, e
eles realmente conseguiram. Não foi à toa que foram tão bem
sucedidos com os guaranis; esse fetichismo erótico caiu-lhes
perfeitamente. Os padres brancos, no entanto, imaginavam que
cairia bem com os "brancos" também. Como o fundamento de
sua doutrina é um desprezo absoluto pelas pessoas enquanto
seres humanos, "brancos" ou "vermelhos" eram o mesmo, e
ambos tinham de ser tratados como crianças. Assim,
trabalharam incansavelmente na propagação desse espírito e
dessas práticas idolatras. Devido à influência que tinham na
Santa Sé (que obviamente não conseguia viver sem eles),
forçaram essas idéias na Igreja Romana, apesar da resistência
que, gradualmente, diminuía.
O padre Barri escreveu um livro intitulado O Paraíso se Abre
Através de Cem Devoções à Mãe de Deus. Nele, expõe a idéia
de que a maneira pela qual entramos no paraíso não é
importante: o importante é entrar. Enumera exercícios de
piedade exterior à Maria, os quais abririam as portas do céu.
Entre outras coisas, esses exercícios consistem em saudar
Maria de manhã e de noite; freqüentemente expressar o desejo
de construir para ela mais igrejas do que todas as que já foram
construídas por todos os monarcas juntos; carregar um rosário
dia e noite, da mesma forma que um bracelete, uma imagem
de Maria, etc. "Essas práticas eram suficientes para garantir
nossa salvação. Se o demônio, quando estivéssemos para
morrer, viesse pedir nossas almas, nós só precisaríamos
lembrar a ele que Maria é responsável por nós e que ele deve
acertar as contas com ela."(7)
Em seu Pietas Quotidiana Erga S.D. Mariam, o padre Pemble
recomenda o seguinte: "Bater ou flagelar a nós mesmos, e
oferecer cada suspiro como um sacrifício a Deus, através de
Maria; gravar com uma faca o santo nome de Maria em nosso
peito; cobrir-nos decentemente à noite, de forma a não
ofendermos o santo olhar de Maria; dizer à Virgem que
gostaríamos de lhe oferecer nosso lugar no Paraíso, caso ela
já não estivesse lá; desejarmos nunca termos nascido ou irmos
ao inferno se Maria não tivesse nascido; nunca comer uma
maçã, pois Maria se absteve do erro de prová-la. "(8) Tudo isso
foi em 1764, mas só precisamos dar uma olhada nos trabalhos
semelhantes que ainda hoje são publicados em grande
número, ou na imprensa católica, para evidenciarmos o fato de
que, por mais 200 anos, essa idolatria selvagem só cresceu e
se tornou mais sofisticada. O papa Pio XII superou-se no culto
à Maria. Sob sua direção, uma grande parte da Igreja Romana
tomou esse caminho. Além disso, os filhos de Loyola, sempre
ansiosos para se adequarem ao espírito do tempo, tentam até
hoje ajustar essas puerilidades medievais ao presente.
Existem vários tratados publicados por alguns desses bons
padres, sob os grandes auspícios do Centre National de Ia
Recherche Scientifique (C.N.R.S). Se acrescentarmos a isso os
escapulários de várias cores, com suas virtudes apropriadas, a
adoração de santos, imagens, relíquias, a apologia dos
"milagres" e a veneração do "Sagrado Coração", dentre outras
práticas, teremos uma idéia do misticismo com o qual "as
almas das crianças são impregnadas" através de seu contato
com mestres "que estão saturados nelas", conforme R. P
Charmot escreveu, em 1943.
Não há outra forma de gerar "cristãos de elite". Para vencer
sua luta contra as universidades, os colégios jesuítas
precisavam expandir seu ensino e incluir matérias seculares,
pois a Renascença havia despertado uma sede de
conhecimento. Sabemos que fizeram isso com alegria sem, no
entanto, esquecerem de tomar as precauções necessárias para
evitarem que esse aprendizado fosse contra o objetivo de seu
ensino: manter nas mentes a obediência absoluta à Igreja.
É por isso que seus pupilos são primeiramente "envolvidos"
com um grande "conjunto de orações", o qual não seria
suficiente se o conhecimento transmitido não fosse
cuidadosamente purgado de todo o espírito ou idéias
heterodoxas. Assim, grego e latim (o latim é muito estimado
nesses colégios) eram estudados pelo seu valor literário; o
"antigo" pensamento ortodoxo, entretanto, era exposto apenas
na medida em que se pudesse estabelecer a superioridade da
filosofia escolástica. Esses "humanistas", treinados pelos
jesuítas, eram capazes de compor discursos e versos em latim,
mas o único senhor de seus pensamentos era Santo Tomás de
Aquino, um monge do século XIII. Vejamos o Ratio Studiorum,
um tratado fundamental de Pedagogia jesuíta, citado por R. E
Charmot: "Nós cuidadosamente descartamos as matérias
seculares, que não favorecem a piedade e a boa moral. Vamos
compor poemas, mas que nossos poetas sejam cristãos e não
seguidores de pagãos que invocam musas, ninfas das
montanhas, ninfas do mar, Calíope, Apoio, etc, ou outros
deuses e deusas. E, se acaso estes vierem a ser citados, que o
sejam de forma caricatural, como se fossem demônios".(9)
Assim, todas as ciências -e especialmente as ciências naturais
- serão interpretadas de forma similar.
De fato, R. P. Charmot nem mesmo tenta esconder o que disse
sobre o professor jesuíta em 1943: "Ele ensina ciências, não
por causa delas, mas para trazer à vista a grande glória de
Deus. Esta é a regra de acordo com o que define Santo Ignácio
em sua obra Estatutos."(10) E de novo: "Quando falamos de
toda uma cultura, não queremos dizer que ensinamos todas as
matérias e ciências, mas damos uma educação literária e
científica que não é puramente secular e impermeável às luzes
da Revelação".(11)
A educação ministrada pelos jesuítas deve ser, portanto, mais
espalhafatosa do que profunda, ou "formalista", como se
costuma dizer. "Eles não acreditavam em liberdade, o que era
mortal no que se refere ao ensino", escreveu H. Boehmer. A
verdade é que os méritos relativos do ensino jesuíta diminuíam
na medida em que a ciência e os métodos de educação e
instrução avançavam, nas bases de uma concepção mais larga
e profunda de Humanidade. Buckle disse: "Quanto mais
avançada for a civilização, mais os jesuítas vão perder terreno,
não só por causa de sua decadência, mas por causa das
modificações e mudanças de mentalidade daqueles que estão
à volta deles. Durante o século XVI, os jesuítas estavam à
frente mas, durante o século XVIII, estavam perdidos de seu
tempo".
A Moral dos Jesuítas
O espírito conquistador de sua Companhia, o desejo ardente
de atrair consciências e assegurar sua influência exclusiva só
poderia levar os jesuítas a serem mais indulgentes com os
penitentes que os confessores de todas as outras ordens ou
clero secular. "Não se pegam moscas com vinagre", diz
sabiamente o provérbio. Conforme já vimos, Ignácio
expressava a mesma idéia em termos diferentes e seus filhos
seguiram sua inspiração. 'A atividade extraordinária
desenvolvida pela Ordem no campo da Teologia moral já
demonstra que essa ciência sutil tinha, para eles, uma
importância prática muito maior que as outras ciências".(13)
Boehmer, autor da frase citada acima, lembra-nos que a
confissão era muito rara durante a Idade Média e o fiel a usava
apenas em casos mais graves. O caráter dominador da Igreja
Romana, no entanto, fez com que sua prática se espalhasse
mais e mais. Durante o século XVI, a confissão tinha se
tornado um dever religioso que devia ser diligentemente
observado.
Ignácio considerava a confissão muito importante e
recomendava aos seus discípulos que o maior número possível
de fiéis deveria observá-la regularmente. Os resultados desse
método eram extraordinários. Os confessores jesuítas logo
passaram a gozar da mesma consideração dos professores
jesuítas, e os confessionários foram considerados símbolo do
poder e da atividade da Ordem, tal qual a cadeira professoral e
a Gramática latina. Se lermos as instruções de Ignácio com
respeito à confissão e à Teologia moral, devemos admitir que,
desde o começo, a Ordem estava preparada para tratar do
pecador com carinho e, posteriormente, tornou-se mais e mais
indulgente até que se transformasse em desmazelada.
Podemos entender facilmente por que essa tolerância
inteligente fez deles confessores tão bem sucedidos. Foi a
maneira como eles obtiveram os favores dos nobres e
poderosos deste mundo, os quais sempre precisaram da
condescendência de seus confessores mais do que a massa
de pecadores comuns.
"As cortes da Idade Média nunca tiveram qualquer tipo de
confessor todo-poderoso. Essa figura característica surgiu
somente nos tempos modernos, e é a Ordem jesuíta que a
implanta em todos os lugares."(14) Boehmer escreveu:
"Durante o século XVII, esses confessores obtiveram uma
influência política invejável em todos os lugares; às vezes até
mesmo funções ou cargos claramente políticos. Foi então que
o padre Neidhart assumiu a direção da política espanhola como
"Primeiro Ministro e Grande Inquisidor"; o padre Fernandez
sentava-se e era chamado a opinar e votar no Conselho
português; o padre La Chaise e seu sucessor mantiveram-se
em funções de ministros para os Negócios Eclesiásticos na
Corte de França.
Não podemos esquecer também o papel dos padres na política
em geral, mesmo fora dos confessionários. O padre Possevino
foi embaixador do Vaticano na Suécia, Polônia e Rússia; o
padre Petre, ministro na Inglaterra; o padre Vota era
conselheiro íntimo de João Sobieski, da Polônia, na função de
"criador de reis" e mediador. Quando a Prússia se tornou um
reino, devemos admitir que nenhuma outra Ordem mostrou
tanto interesse e talento pela política e desenvolveu tantas
atividades quanto a Ordem jesuíta."(15)
Se a indulgência desses confessores, pela augusta penitência,
ajudou imensamente os interesses da Ordem e da Cúria
Romana, deu-se o mesmo em esferas mais modestas, onde os
padres usaram métodos similares e convenientes. Com sua
meticulosidade e até um certo espírito intrometido, herdado de
Loyola, os famosos casuístas, tais quais Escobar, Mariana,
Sanchez, Busenbaum e outros se aplicaram a estudar cada
regra em particular e suas aplicações práticas em todos os
casos que pudessem se apresentar nos tribunais de penitência.
Aqui seguem alguns exemplos dessas acrobacias: 'A lei divina
prescreve: Não levantarás falso testemunho. Há falso
testemunho somente quando aquele que fez o juramento usa
palavras que sabe que enganarão o juiz. O uso de termos
ambíguos, portanto, é permitido, e mesmo a desculpa da
reserva mental em certas circunstâncias. Se um marido
pergunta à sua esposa adúltera se ela quebrou o contrato
conjugai, ela pode dizer "não" sem hesitar, pois aquele contrato
ainda existe. Uma vez que tenha obtido a absolvição no
confessionário, ela pode dizer: "Estou sem pecado", se,
enquanto o disser, pensar que aquela absolvição tirou-lhe o
peso de seu pecado. Se o seu marido estiver ainda incrédulo,
ela pode reassegurar-lhe, dizendo que não cometeu nenhum
adultério; entretanto, se acrescentar, mesmo em voz baixa
"adultério", é obrigada a confessar." Não é difícil de imaginar
que tal teoria foi bem sucedida com suas belas senhoras
penitentes! Seus galantes acompanhantes eram tratados da
mesma forma: "A Lei de Deus diz: Não deves matar. Isso não
significa que todo homem que mata esteja pecando contra este
mandamento. Por exemplo: Se um nobre for ameaçado com
tiros ou agressão, pode matar seu agressor; logicamente,
porém, esse direito é restrito aos nobres, e não aos plebeus,
pois não há nada de desonroso para um homem comum em
ser agredido. Da mesma forma, um servo que ajude seu
senhor a seduzir uma jovem não está cometendo pecado
mortal, pois ele pode temer sérias conseqüências no caso de
se recusar. Se uma jovem estiver grávida, um aborto pode ser
induzido se sua falta for causa de desonra para ela ou para
algum membro do clero".(17) O padre Benzi também teve seu
momento de fama quando declarou: "E apenas uma pequena
ofensa sentir os seios de uma freira".
Por causa disso, os jesuítas foram apelidados de "teólogos
mamilares". Tanto quanto se sabe, o famoso casuísta Thomas
Lanchz merece o prêmio por seu tratado De Matrimônio, no
qual estuda com detalhes ultrajantes todas as variedades de
"pecados carnais". Estudemos mais profundamente essas
máximas convenientes dentro do campo da política,
especialmente aquelas relativas a assassinatos de tiranos
considerados culpados de indiferença com relação aos
interesses da Santa Sé. Boehmer tem isto a dizer: "Conforme
acabamos de ver, não é difícil se guardar do pecado mortal.
Dependendo das circunstâncias, precisamos apenas usar os
meios excelentes permitidos pelos padres: ambigüidade,
reserva mental, a sutil teoria da direção de intenções. Seremos
capazes de cometer, sem pecado, atos considerados
criminosos pelas massas ignorantes, mas nos quais até
mesmo o mais severo padre não poderá encontrar nada além
de um átomo de pecado mortal".(18)
Entre as máximas jesuíticas mais criminosas, há uma que
despertou indignação pública ao máximo e que merece ser
examinada: "Um padre ou monge pode matar aqueles que
estiverem prontos a caluniá-lo ou a sua comunidade". Assim, a
Ordem se dá o direito de eliminar seus adversários e até
mesmo seus membros, caso saíssem da instituição e se
tornassem muito "faladores". Esta "pérola" se encontra na
Teologia do Padre VAmy.
Há outro caso onde esse princípio é aplicável. Este mesmo
jesuíta foi cínico o bastante para escrever: "Se um padre,
cedendo à tentação, abusar de uma mulher e ela tornar público
o acontecido, desonrando-o, este mesmo padre pode matá-la,
para evitar desgraça!" Outro filho de Loyola, citado pelo "Le
grand flambeau" Caramuel, pensa que esta máxima deve ser
mantida e defendida: "Um padre pode usar isso como desculpa
para matar a mulher e assim preservar sua honra!" Essa teoria
monstruosa foi usada para cobrir muitos crimes cometidos por
eclesiásticos e provavelmente foi, em 1956, a razão (se não a
causa) para o lamentável caso do padre de Unuffe.
Seus tratados sobre Teologia Moral deram à Companhia uma
reputação universal, pois sua sutileza para distorcer e perverter
as obrigações morais mais evidentes era muito aparente.
O Eclipse da Companhia
Os sucessos que a Companhia de Jesus obteve na Europa e
em terras distantes, apesar de intercalados por várias perdas,
lhe asseguraram uma situação dominante por um longo
período. Conforme já mencionamos, o tempo, no entanto, não
estava trabalhando a seu favor. As idéias se desenvolviam e o
progresso das ciências tendia a liberar as mentes. O povo e os
monarcas achavam cada vez mais difícil suportar o controle
desses campeões da teocracia. Além disso, muitos abusos,
originados de seus sucessos, prejudicaram a Companhia
internamente. Ao lado da política, na qual estava
profundamente envolvida (como se pode notar, contra os
interesses nacionais), sua atividade devoradora logo se fez
sentir no campo econômico. "Os padres se envolveram em
muitos negócios que não tinham nada a ver com religião, ou
seja, no comércio, câmbio ou como liqüidantes de falências. O
Colégio Romano, que deveria se ater a modelo intelectual e
moral de todos os colégios jesuítas, tinha tecelagens em
Macerata e vendia os tecidos em feiras a preços baixos. Seus
centros na índia, Antilhas, México e Brasil logo se
transformaram em mercados de produtos coloniais. Na
Martinica, um procurador criou vastas plantações cultivadas por
escravos negros".(19) Este é o lado comercial das Missões no
Estrangeiro mantido até hoje. A Igreja Romana nunca
desprezou a extração de lucros temporais de suas conquistas
"espirituais". Tanto quanto se sabe, os jesuítas eram
exatamente iguais às outras ordens religiosas, chegando até a
ultrapassá-las. De qualquer forma, sabemos que recentemente
os padres brancos estavam entre os mais ricos proprietários de
terras do Norte da África. Os filhos de Loyola foram muito
dedicados, tanto na conquista de almas quanto em obter o
máximo do trabalho dos "pagãos".
No México, tinham minas de prata e refinarias de açúcar. No
Paraguai, plantações de chá e cacau, além de fábricas de
tapetes.
Também criavam gado e exportavam 80 mil mulas por
ano".(20) Conforme podemos ver, a evangelização de seus
"filhos vermelhos" foi uma boa fonte de renda e, para lucrarem
mais ainda, os padres não hesitavam em defraudar o Tesouro
Nacional, como pode ser visto na conhecida história das
chamadas "caixas de chocolate" descarregadas em Cádiz, as
quais estavam cheias de ouro em pó.
O bispo Palafox, enviado como visitante apostólico pelo papa
Inocêncio VIII, escreveu-lhe em 1647: "Toda a riqueza da
América do Sul está nas mãos dos jesuítas".
"Em Roma, os cofres da Ordem fizeram pagamentos à
embaixada portuguesa em nome do governo português.
Quando Auguste le Fort foi à Polônia, os padres de Viena
abriram uma linha de crédito para esse "monarca necessitado"
junto aos jesuítas de Varsóvia. Na China, os padres
emprestavam dinheiro aos mercadores a juros de 25,5% e até
mesmo 100%".(21)
A cobiça escandalosa da Ordem, sua moral frouxa, suas
intrigas políticas incessantes e também suas invasões nos
domínios das prerrogativas do clero secular e regular geraram
inimizades mortais e ódio em todos os lugares. No seio das
altas classes, a Ordem ficou com péssima reputação e, na
França, seus esforços para manterem o povo na piedade
formalista e supersticiosa abriu espaço para a inevitável
emancipação das mentes. A prosperidade maternal conseguida
pela Companhia, as posições adquiridas na Corte e
especialmente o suporte dado pela Santa Sé (que eles
acreditavam ser eterno) mantiveram, entretanto, os jesuítas
tranqüilos e seguros, mesmo às vésperas de sua ruína. Já não
haviam eles passado por tantas tempestades e sofrido
aproximadamente 30 expulsões desde o início de sua fundação
até a metade do século XVIII? Quase sempre acabavam por
voltar, cedo ou tarde, a ocupar suas posições perdidas.
Esse novo eclipse ameaçador sobre eles chegou a ser quase
absoluto dessa vez, e durou por mais de 40 anos. O estranho é
que o primeiro assalto contra essa poderosa Companhia veio
justamente da Católica autoridade espiritual e temporal;
procurando introduzir na Igreja e nos Estados, sob o véu
plausível de instituto religioso, não uma Ordem realmente
desejosa de espalhar a perfeição evangélica, mas um corpo
político trabalhando incessantemente para usurpar toda a
autoridade, por todos os meios indiretos, secretos e
intrincados."
Concluindo, a doutrina jesuíta foi descrita como segue:
"Perversa; uma destruidora de todos os princípios religiosos e
honestos; uma afronta à moral cristã; perniciosa à sociedade
civil; hostil aos direitos da nação, do poder real, e até mesmo
da segurança dos soberanos e obediência de seus súditos;
adequada para provocar os maiores distúrbios nos Estados;
criadora e mantenedora do pior tipo de corrupção nos corações
dos homens".
Na França, os bens da Companhia foram confiscados em favor
da Coroa e nenhum de seus membros foi autorizado a ficar no
reino, a menos que renunciasse a seus votos e jurasse
submeter-se às regras gerais do clero na França.
Em Roma, o prior dos jesuítas, Ricci, obteve do papa Clemente
XIII uma bula confirmando os privilégios da Ordem e
proclamando sua inocência, mas era tarde demais.
Na Espanha, os Bourbons suprimiram todos os
estabelecimentos da Companhia, tanto os da metrópole quanto
os das colônias. Assim deu-se o fim do Estado paraguaio dos
jesuítas.
Os governos de Nápoles, Parma e mesmo o Grão-Ducado de
Malta também baniram os filhos de Loyola de seus territórios.
Os seis mil jesuítas que estavam na Espanha tiveram uma
estranha experiência após terem sido atirados à prisão: "O rei
Carlos III enviou todos os prisioneiros ao papa, com uma longa
carta, na qual dizia que 'os colocava sob o controle sábio e
imediato de Sua Santidade'. Quando os desafortunados
estavam para desembarcar em Civita -Vecchia, foram
recebidos com o barulho dos tiros de canhões do próprio prior,
o qual já tomava conta dos jesuítas portugueses, mesmo sem
ter como alimentá-los. Assim, o máximo que obtiveram foi um
santuário miserável na Córsega".(22)
"Clemente XIII, eleito em 6 de julho de 1758, tinha resistido um
bom tempo aos pedidos insistentes de várias nações, as quais
solicitavam a supressão dos jesuítas. Estava a ponto de ceder
e já havia marcado um consistório para o dia 3 de fevereiro de
1769, que informaria sobre sua resolução de acatar os desejos
daqueles países. Na noite anterior àquele dia específico, de
repente sentiu-se mal, quando estava indo dormir, e gritou:
"Estou morrendo!" É realmente muito perigoso atacar os
jesuítas".(23) O conclave se reuniu e se manteve-se por três
meses. Finalmente o cardeal Ganganelli ascendeu à mitra e
tomou o nome de Clemente XIV.
As nações que haviam banido os jesuítas continuaram a pedir
pela supressão total da Companhia. O papado, entretanto, não
tinha pressa em abolir o principal instrumento de consecução
de sua política, e quatro anos se passaram antes que
Clemente XIV, compelido pela firme atitude de seus oponentes
(que haviam ocupado algumas das funções papais), finalmente
assinasse a ordem para dissolução.
Dominus ac Redemptor, em 1773, Ricci, o prior da Ordem,
chegou até mesmo a ser levado à prisão no castelo de Saint-
Ange, onde morreu alguns anos depois.
"Os jesuítas somente apareceram para se submeterem a esse
veredito que os condenava. Escreveram inúmeros panfletos
contra o papa e incitaram a rebelião; mentiram e caluniaram
inúmeras vezes a respeito das chamadas atrocidades
cometidas."(24) A morte de Clemente XIV, 14 meses depois,
foi até mesmo atribuída a eles por um setor da opinião pública
européia. Os jesuítas, pelo menos a princípio, não mais
existiam. Clemente XIV, no entanto, sabia muito bem que,
assinando a sentença de morte deles, estava também
assinando a sua própria: "Esta supressão é finalmente feita",
exclamou, "e não me arrependo dela. Eu a faria novamente se
já não estivesse feita, mas esta supressão me matará".(25)
Ganganelli tinha razão. Logo em seguida, cartazes começaram
a surgir nas paredes do palácio, exibindo apenas cinco letras:
I.S.S.S.V.
Todos imaginavam o que significavam, mas o papa
compreendeu imediatamente e secamente declarou: "Significa:
In Settembre, Sara Sede Vacante (Em setembro, a Sé estará
vaga)".
Aqui está outro testemunho: "O papa Ganganelli, ou Clemente
XIV, não sobreviveu muito após a supressão dos jesuítas,
disse Scipion de Ricci. O laudo da autópsia, enviado à Corte de
Madrid pelo Ministro da Espanha em Roma, provou que sua
morte havia sido causada por envenenamento. Tanto quanto
sabemos, nenhum inquérito foi levado a cabo pelos cardeais a
respeito do assunto, nem mesmo pelo novo pontífice. O
responsável por tão odioso ato pôde escapar do julgamento do
mundo, mas não conseguirá escapar da justiça de Deus"
"Podemos seguramente afirmar que em 22 de setembro de
1774 o papa Clemente XIV morreu por envenenamento."
Enquanto isso, a imperatriz da Áustria, Maria Teresa, também
havia banido os jesuítas de todos os seus domínios. Apenas
Frederico da Prússia e Catarina II, imperatriz da Rússia, os
aceitaram em seus países como educadores.
Na Prússia, eles só conseguiram ficar por dez anos, até 1786.
A Rússia os favoreceu por mais tempo, mas lá também, e pela
mesma razão, fatalmente despertaram a animosidade do
governo. 'A supressão do cisma e a recuperação da Rússia
para o papado os atraíram tal qual moscas ao mel. Lançaram
um programa de propaganda ativo no exército e na aristocracia
e lutaram contra a Sociedade Bíblica criada pelo czar.
Ganharam várias batalhas e converteram o príncipe Galitzine,
sobrinho do Ministro da Devoção. Então o czar interveio."
Nem é preciso dizer que as bases do decreto que baniu os
jesuítas de São Petersburgo e Moscou foram as mesmas de
todos os outros países. "Percebemos que eles não cumpriam
as funções esperadas; ao invés de serem cidadãos pacíficos
em um país estrangeiro, e agrediram a religião grega, que tem
sido desde tempos remotos a religião predominante em nosso
império e mantido em paz e alegria as nações sob nosso
comando.
Abusaram da confiança que obtiveram e transformaram a
juventude a eles confiada em pessoas inconsistentes e
distantes de nossa devoção. Não nos surpreende que esta
Ordem religiosa tenha sido expulsa de todos os países e que
suas ações não fossem toleradas em lugar algum".(29) Em
1820, finalmente, medidas gerais foram tomadas para expulsálos
de toda a Rússia. Por causa de eventos políticos favoráveis
à Ordem, eles voltaram ao Leste da Europa sendo
solenemente reestabelecidos pelo papa Pio VII em 1814. O
significado político dessa decisão é claramente expresso por
Daniel Rops, um grande amigo dos jesuítas. Assim escreveu
ele sobre o ressurgimento dos filhos de Loyola: "É impossível
não ver aí um ato óbvio de contra-revolução".
Em 1799, as duas Companhias se fundiram, tendo por
dirigente o padre Clariviere, o único jesuíta francês
sobrevivente. Em 1803, uniram-se aos jesuítas russos. Alguma
coisa coerente estava voltando à vida, porém as massas, e
menos ainda os políticos, não reconheceram a princípio".
A Revolução Francesa, e posteriomente o Império, deram à
Companhia de Jesus uma credibilidade inesperada novamente.
Foi uma reação defensiva contra as novas idéias surgindo nas
antigas monarquias. Napoleão I descreveu a Companhia como
"muito perigosa; nunca será permitida no Império". Quando, no
entanto, a Santa Aliança triunfou, os novos "monarcas" não
desprezaram a ajuda desses absolutistas, para trazer de volta
o povo à obediência irrestrita.
Os tempos, porém, haviam mudado. Toda a habilidade dos
bons padres poderia apenas retardar e não impedir a
propagação das idéias liberais. Seus esforços foram mais
prejudiciais que úteis. Na França, a Restauração sentiu-a de
forma amarga. Luís XVIII, político descrente e esperto, tentou
conter o surgimento dos "ultras" tanto quanto pôde. Sob Carlos
X, bitolado e muito devoto, os jesuítas tiveram muito espaço. A
lei que os expulsou em 1764 estava ainda em vigor. Sem
problemas.
Eles reviveram a famosa "Congregação", primeiro tipo de Opus
Dei. Essa "irmandade santa", composta de eclesiásticos e
leigos, se encontrava em todos os lugares, fingindo "purgar" o
exército, os magistrados, a função pública e o ensino. Manteve
"missões" por todo o país, plantando cruzes comemorativas
onde quer que fosse (muitas delas ainda estão por aí) e
provocando os adeptos a atacarem os infiéis. A Ordem se fez
tão odiada que o muito católico e muito legitimista Montlosier
exclamou: "Nossos missionários acenderam incêndios por
todos os lados. Se algo tem que nos ser mandado, que nos
mandem a praga de Marselha, antes do que estes
missionários."
Renascimento da Companhia de Jesus Durante o Século XIX
Quando Clemente XIV foi obrigado a suprimir a Ordem jesuíta,
segundo testemunhas, teria dito: 'Acabei de cortar minha mão
direita". A declaração parece suficientemente plausível. A
Santa Sé deve ter certamente achado difícil cortar seu mais
importante instrumento de dominação no mundo. A desgraça
da Ordem, uma medida política imposta pelas circunstâncias,
foi gradualmente atenuada pelos sucessores de Clemente XIV:
Pio VI e Pio VIL
Se o eclipse oficial dos jesuítas durou 40 anos, foi devido às
convulsões na Europa resultantes da Revolução Francesa. De
qualquer forma, esse eclipse nunca foi total. 'A maior parte dos
jesuítas havia ficado na Áustria, França, Espanha e Itália,
misturada ao clero. Encontravam-se em pequenos ou grandes
grupos, e tanto quanto era possível.
Em 1794, Jean de Tournely fundou a Companhia do Sagrado
Coração na Bélgica, com um corpo docente. Muitos jesuítas
foram incorporados aí. Três anos depois, o tirolês Paccanari,
que pensava ser outro Ignácio, fundou a Companhia dos
Irmãos de Fé.
O Segundo Império e a Lei Falloux A Guerra de 1870
No capítulo anterior, mencionamos que larga tolerância foi
concedida à Companhia de Jesus na França durante Napoleão
III, apesar de ser oficialmente proibida. De qualquer forma, não
poderia ser diferente, pois o regime devia sua existência, em
grande margem, pelo menos, à Igreja Romana, cujo suporte
nunca falhou enquanto o regime durou. Isso, no entanto,
custaria muito caro à França.
Os leitores do Progres du Pas-de-Calais, uma publicação para
a qual o futuro imperador escreveu vários artigos em 1843 e
1844, não poderiam suspeitar nele uma certa brandura em
relação ao ultramon-tanismo (doutrina que defende a
autoridade absoluta do papa), a julgar pelo seguinte texto: "O
clero pede, sob a cobertura da liberdade de ensino, o direito de
instruir nossa juventude.
O Estado, por outro lado, também exige o direito de instrução
pública por seus interesses próprios. Essa batalha é o
resultado de opiniões, idéias e sentimentos divergentes entre o
Governo e a Igreja. Ambos querem influenciar as novas
gerações em direções opostas e para seu próprio benefício.
Não acreditamos, conforme um famoso orador, que todos os
laços entre o clero e a autoridade civil devam ser quebrados
para acabar com esse desvio. Infelizmente, os ministros de
religião da França geralmente são contrários aos interesses
democráticos; permitir que construam escolas sem controle é o
mesmo que encorajá-los a ensinar às pessoas o ódio da
revolução e da liberdade."
Em 1828, Carlos X retirou o direito de ensino à Ordem, mas era
tarde demais. A dinastia ruiu em 1830. Odiados e cobertos de
vergonha, os filhos de Loyola, no entanto, ficaram na França,
disfarçados, pois a Companhia estava oficialmente abolida.
Luís Filipe e Napoleão III os toleravam. A República os
dispersou em 1880 apenas, sob a administração de Jules
Ferry. O fechamento de seus estabelecimentos foi efetivado
apenas em 1901, sob a lei de separação.
Durante o século XIX, a história da Companhia na América e
parte da Europa foi igualmente cheia de altos e baixos, tal qual
no passado, enquanto lutava contra as novas idéias. "Sempre
que os liberais ganhavam, os jesuítas eram expulsos. Quando
o outro lado triunfava, eles se reestabeleciam, para
defenderem o trono e o altar. Assim foram banidos de Portugal
em 1834; Espanha em 1820,1835 e 1868; Suíça em 1848;
Alemanha em 1872 e França em 1880 e 1901. Na Itália, de
1859 em diante, todos os seus colégios e estabelecimentos
foram gradualmente tomados, tanto que foram forçados a
interromperem todas as suas atividades prescritas em suas
leis. O mesmo ocorreu na América Latina. A Ordem foi
suprimida na Guatemala em 1872; México em 1873; Brasil em
1874; Equador e Colômbia em 1875 e Costa Rica em 1884. Os
únicos países onde os jesuítas viveram em paz foram aqueles
em que o protestantismo estava em maioria: Inglaterra, Suécia,
Dinamarca e Estados Unidos. Pode parecer surpreendente à
primeira vista, mas isso se explica porque nestes países os
padres nunca puderam exercer uma influência política. Sem
dúvida, aceitavam o fato mais por necessidade do que por
inclinação. Do contrário, teriam aproveitado todas as
oportunidades para influenciar a legislação e a administração,
diretamente manobrando as classes dominantes, ou
indiretamente provocando as massas católicas."(32)
Para ser fiel à verdade, essa imunidade dos países
protestantes em relação às atividades jesuítas estava longe de
ser absoluta. "Nos Estados Unidos, a Companhia desenvolveu
uma atividade sistemática e frutífera por um longo período, pois
não é proibida por leis", escreveu Fulop-Miller. "Não estou
satisfeito com o renascimento dos jesuítas", escreveu o expresidente
John Adams Union a seu sucessor Thomas
Jefferson, em 1816. "Enxames deles se apresentarão sob os
mais variados disfarces: pintores, escritores, editores,
professores, etc. Se alguma vez uma associação de pessoas
mereceu a condenação eterna nesta terra e no inferno, é, sem
dúvida, a Companhia de Loyola, mas com o nosso sistema de
liberdade religiosa, nada podemos fazer, além de lhes ceder
refúgio". Jefferson respondeu a seu antecessor: "Tal qual você,
tenho objeções ao reestabelecimento dos jesuítas".(33) Os
receios provaram ser corretos, um século depois, conforme
veremos.
E ainda: "O clero vai parar de ser ultramontano assim que for
educado como antigamente, mas em uma forma mais atual,
para se misturar às pessoas, recebendo sua educação das
mesmas fontes que o público em geral." Com relação à forma
pela qual os padres alemães eram treinados, o autor esclarece
seus pensamentos da seguinte maneira: 'Ao invés de serem
fechados longe do mundo, desde a infância, e depois
instigados em seminários com o ódio contra a sociedade na
qual vivem, aprenderiam cedo a ser cidadãos antes de serem
padres".(34)
Isso não encorajou o clericalismo político ao futuro soberano,
então um "Carbonari". A ambição de se sentar em um trono,
entretanto, logo o fez mais dócil em relação à Roma. Não terá
esta mesma ajudado em seu primeiro passo rumo ao poder?
"Tendo sido erguido à presidência da República em 10 de
dezembro de 1848, Louis Napoleon Bonaparte juntou-se a
vários ministros; um deles era de Falloux. Quem é este M. de
Falloux? Uma ferramenta dos jesuítas. Em 4 de janeiro de
1849, ele instituiu uma comissão cuja função era "preparar uma
grande reforma legislativa da educação primária e secundária".
No decorrer das discussões, Cousin tomou a liberdade de
observar que possivelmente a Igreja estivesse errada ao atrelar
seu destino aos jesuítas. Dupanloup defendeu energicamente a
Companhia: "Uma lei de ensino está sendo preparada e levará
emendas sobre os jesuítas.
No passado, o Estado e a Universidade tinham sido protegidos
contra as invasões jesuítas. Fomos injustos e incorretos;
pedimos que o governo aplicasse suas leis contra estes
agentes de um país estrangeiro e pedimos que nos perdoem.
São bons cidadãos que foram caluniados e julgados
erroneamente. O que poderíamos fazer para lhes mostrar o
respeito e a estima que lhes são devidos? Coloquemos em
suas mãos o ensino das novas gerações". Este é de fato o
objetivo da lei de 15 de março de 1850, que indica um conselho
superior para Instrução Pública, no qual o clero domina
(primeiro artigo); faz do clero professores de escolas (art. 44);
dá às associações religiosas o direito de criarem escolas livres,
sem necessidade de se explicarem sobre congregações nãoautorizadas
jesuítas (art. 17,2); diz que as cartas de obediência
seriam seus diplomas (art. 49).
Barthelemy Saint-Hilaire tenta em vão demonstrar que o
objetivo dos autores desse projeto é dar o monopólio ao clero,
e que esta lei seria fatal para a Universidade Victor Hugo.
Exclama também em vão: "Esta lei é um monopólio nas mãos
daqueles que tentam fazer do ensino uma sacristia e governar
a partir do confessionário."(35) A Assembléia, entretanto,
ignora esses protestos. Prefere ouvir M. de Montalembert, o
qual diz: "Seremos engolidos se não pararmos imediatamente
com o atual comércio de racionalismo e demagogia; e ainda, só
podemos pará-lo com a ajuda da Igreja."
M. de Montalembert acrescenta estas palavras para assegurar
a importância desta lei: "Contra o exército de professores
desmora-lizadores e anárquicos, devemos opor o exército do
clero". A lei foi aprovada. Nunca antes na França os jesuítas
haviam conquistado uma vitória tão absoluta. M. de
Montalembert admitiu com orgulho: "Estou defendendo a
justiça e apoiando tanto quanto possível o governo da
República, que tanto fez para salvaguardar a Ordem e manter
a união do povo francês; este governo rendeu mais serviços à
Igreja Católica do que todos os outros governos no poder
durante os últimos dois séculos".(36) Tudo isso aconteceu há
mais de cem anos, mas parece familiar ainda hoje. Vejamos
como a "República", presidida pelo príncipe Louis Napoleon,
estava agindo internacionalmente.
A revolução de 1848 tinha, entre outras repercussões na
Europa, provocado a rebelião dos romanos contra o papa Pio
IX, seu soberano temporal, que havia fugido para Gaete. A
República Romana havia sido proclamada. Por um paradoxo
escandaloso, foi a República da França, em acordo firmado
com os austríacos e o rei de Nápoles, que pôs de volta no
trono o soberano indesejado.
"Um regimento francês sitiou Roma, tomou-a em 2 de junho de
1849 e restaurou o poder papal; conseguiu manter-se com a
ajuda da divisão de ocupação francesa, a qual deixou Roma
somente após os primeiros desastres da guerra francogermânica
de 1870".(37)
Este começo era promissor. O golpe de 2 de dezembro de
1851 trouxe a proclamação do Império. Louis Napoleon,
presidente da República, tinha favorecido os jesuítas de todas
as formas. Agora, imperador, não recusava nada a seus
cúmplices e aliados. O clero derramou suas bênçãos e "Te
Deum" em profusão nos massacres e proscrições de 2 de
dezembro. O único responsável por essa emboscada
abominável foi admirado com sabedoria providencial.
O arcebispo de Paris, monsenhor Sibour, que viu os massacres
do boulevard, exclamou: "O homem que foi preparado por
Deus chegou. O dedo de Deus nunca foi tão visível quanto
agora, nos eventos que produziram estes grandiosos
resultados." O bispo de Saint Flour disse de seu púlpito: "Deus
indicou Louis Napoleon; Ele já o havia eleito imperador. Sim,
meus caros amigos, Deus consagrou-o antes de tudo através
da bênção de seus dignatários e padres; Ele o aclamou; como
não reconheceríamos o eleito de Deus?" O bispo de Nevers
falsamente saudou: "O instrumento visível da Providência".
Essas adulações piedosas, que poderiam ainda ser mais
multiplicadas, mereciam um prêmio, o qual foi uma completa
liberdade dada aos jesuítas enquanto o Império durasse.
"A Companhia de Jesus foi literalmente a senhora da França
por 18 anos! Enriqueceu-se, multiplicou seus estabelecimentos
e aumentou sua influência. Sua ação foi sentida em todos os
eventos importantes de seu tempo, especialmente na
expedição ao México e na declaração de guerra de 187O."(38)
"O Império significa paz", declarou o novo soberano. Mal tinha
ele completado dois anos no trono, entretanto, e a primeira de
todas as guerras que se sucederiam pelo reino começou.
A História pode não perceber os motivos dessas guerras,
achando que não eram interligadas, como se não pudesse ver
o que as unia: a defesa dos interesses da Igreja Romana. A
guerra da Criméia, a primeira dessas loucas iniciativas, que
enfraqueceu o país e não era interessante para a França, é um
exemplo típico. Não foi ninguém anticlerical, mas sim o abade
Brugerette, quem escreveu: "Deve-se ler os discursos do
famoso Theatine (padre Ventura) feitos na capela de Les
Tiiileries durante Lent, em 1857. Ele apresentou a restauração
do império como uma obra de Deus e louvou Napoleão III por
ter defendido a religião na Criméia e ter feito brilhar os grandes
dias das Cruzadas pela segunda vez no Leste. A guerra da
Criméia foi vista como um complemento à expedição romana e
elogiada por todo o clero, cheio de admiração pelo fervor
religioso das tropas sitiando Sebastopol. SaintBeuve narrou
com emoção como Napoleão III havia mandado uma imagem
da Virgem à frente francesa" .(39)
Que expedição era essa que despertou o entusiasmo do clero?
Paul Leon, membro do Instituto, explica: "Uma disputa entre os
monges reaviva a questão do Leste: surgiu a partir de
rivalidades entre as Igrejas Latina e Ortodoxa, com relação à
proteção dos locais sagrados (na Palestina). Quem iria guardar
as igrejas de Belém, ficar com as chaves, dirigir os trabalhos?
Mas, por detrás dos monges latinos, está o Partido Católico
Francês, abastecido de privilégios ancestrais e apoiante do
novo regime. Atrás dos crescentes pedidos dos ortodoxos, que
cresceram numericamente, está a influência russa".(40)
O czar invocou a proteção da Igreja Ortodoxa, a qual tinha para
assegurar e efetivar. Pediu também que sua esquadra pudesse
usar a passagem de Dardanelos. A Inglaterra, que era apoiada
pela França, recusou-se e a guerra começou.
"A França e a Inglaterra podem chegar ao czar apenas através
do Mar Negro e da aliança turca. A partir deste momento, a
guerra da Rússia torna-se a guerra da Criméia e fica totalmente
centrada em Sebastopol, um caro empreendimento sem
resultado. Batalhas sangrentas, epidemias mortais e
sofrimentos desumanos custaram à França cem mil
mortos".(41) Devemos explicar que estes cem mil mortos eram
"soldados de Cristo" e gloriosos "mártires da fé", de acordo
com monsenhor Sibour, arcebispo de Paris, que então
declarou: "A guerra da Criméia, entre a França e a Rússia, não
é uma guerra política, mas uma guerra santa; não é um país
lutando contra outro, povos lutando contra povos, mas
simplesmente uma guerra religiosa, uma Cruzada".(42)
A admissão não é ambígua. Não ouvimos a mesma coisa, não
muito tempo atrás, durante a ocupação nazista, exposta em
termos idênticos aos dos prelados de Sua Santidade Pio XII,
por Pierre Lavai, presidente do Conselho de Vichy?
Em 1863, foi a expedição ao México. O que foi isso
exatamente? Transformar uma república leiga em um império e
oferecê-lo a Maximiliano, arquiduque da Áustria que, por sinal,
é o pilar básico do papado. O objetivo foi também erigir uma
barreira contra a influência protestante dos Estados Unidos
sobre os países da América do Sul, fortalezas da Igreja
Romana.
Albert Bayet escreveu sagazmente: "O objetivo da guerra é o
de estabelecer um império católico no México e reduzir os
direitos das pessoas de autodeterminação; tal qual durante a
campanha da Síria e as duas campanhas na China, tende a
servir em especial aos interesses católicos".(43)
Sabemos de que maneira, em 1867, após as forças francesas
terem reembarcado, Maximiliano, o infeliz campeão da Santa
Sé, foi feito prisioneiro quando Queretaro capitulou e foi morto,
dando espaço para que a república fosse instaurada com
Juarez, o presidente vitorioso.
Estava, no entanto, chegando o tempo da França começar a
pagar, novamente e com mais rigor, o suporte político dado
pelo Vaticano ao trono imperial. Enquanto o exército francês
estava derramando seu sangue nos quatro cantos do mundo,
tornando-se mais fraco ao defender interesses que não eram
os seus, a Prússia, sob o braço duro do futuro "chanceler-deferro",
estava ocupada em expandir seu poder militar para que
os Estados germânicos fossem um só bloco.
A Áustria foi sua primeira vítima. Em acordo com a Prússia,
que estava para tomar a duquesa dinamarquesa de Schleswig
e Holstein, a Áustria foi enganada por seu cúmplice. A guerra
que se seguiu foi logo vencida pela Prússia em Sadowa no dia
3 de julho de 1866. Foi um terrível golpe para a antiga
monarquia dos Habsburgos, já decadente. O golpe também foi
forte para o Vaticano, pois a Áustria sempre fora sua fortaleza
mais segura nas terras germânicas. A partir de então, a
Prússia, protestante, exerceu sua hegemonia sobre eles.
A Igreja Romana procurava encontrar uma "arma secular"
capaz de acabar por completo com a expansão do poder
"herege". Quem poderia assumir este papel na Europa, além
do imperador francês Napoleão III, "o homem enviado pela
Providência", para vingar a Sadowa?
O exército francês não estava pronto. 'A artilharia está
ultrapassada. Nossos canhões ainda são carregados pela
boca", escreveu Rothan, ministro francês em Frankfurt,
prevendo o desastre futuro. 'A Prússia conhece sua
superioridade e nossa falta de preparo", acrescentou, com
muitas outras observações.
Os instigadores da guerra nem se preocuparam. A candidatura
do príncipe de Hohenzollern para o trono vago de Espanha foi
a desculpa para o conflito. Além disso, Bismark também quis
assim. Quando falsificou o despacho de Ems, os advogados da
guerra tinham o jogo nas mãos e despertaram a opinião
pública.
A própria França declarou a guerra, a de 1870, "que a História
provou ser trabalho dos jesuítas", conforme Gaston Bally
escreveu. A composição do governo que levou a França ao
desastre é descrita pelo eminente historiador católico Adrien
Dansette: "Napoleão III começou por sacrificar Victor Duruy;
depois resolveu indicar para seu governo os homens do Partido
do Povo (janeiro de 1870). Os novos ministros eram
praticamente todos sinceros católicos, ou eclesiásticos crentes
no conservadorismo social".(44)
É fácil entender, agora, o que era inexplicável: a pressa deste
governo em extrair um "casus belli" deste despacho falsificado,
até mesmo antes da confirmação. 'As conseqüências foram: o
colapso do Império e o contragolpe em direção ao trono papal.
O edifício imperial e o edifício papal, coroados pelos jesuítas,
caíram na mesma lama, ao invés da Imaculada Conceição e da
infalibilidade papal; infelizmente, porém, tudo estava sobre as
cinzas da França. "(45)
Os Jesuítas em Roma O Sílabo
Podemos ler em um livro do abade Brugerette a seguinte
passagem, no capítulo intitulado "O Clero sob o Segundo
Império": "Devoções particulares, novas ou velhas, eram
honradas mais e mais em um tempo no qual o romantismo
ainda exaltava os sentidos, em detrimento da austera razão. A
adoração de santos e suas relíquias, restringidas por tanto
tempo pelo frio sopro do racionalismo, haviam retomado um
novo vigor. A adoração da Santa Virgem, graças às aparições
de La Salette e Lourdes, adquiriram uma popularidade
extraordinária. Peregrinações a estes lugares privilegiavam a
multiplicação de milagres. O episcopado francês favoreceu
novas devoções. Recebeu calorosamente, em 1854, a
encíclica de Pio IX proclamando o dogma da Imaculada
Conceição. Foi também o episcopado, trazido a Paris em 1856
para o batismo do príncipe imperial, quem pediu a Pio IX que a
festa do Sagrado Coração fosse feita com uma celebração
solene da Igreja Universal".(46)
Estas poucas linhas mostram a influência preponderante
exercida pelos jesuítas sob o Segundo Império, na França
tanto quanto na Santa Sé. Conforme vimos anteriormente, eles
eram e ainda são os grandes propagadores dessas "devoções
particulares, novas ou velhas".
Essa piedade "perceptível" e quase sensual fez as massas
excessivamente escrupulosas em assuntos religiosos,
especialmente as mulheres. Pode-se dizer que elas eram
realistas. Durante a época de Napoleão III, o povo, de forma
geral, os ignorantes e os cultos começaram a tomar um
profundo interesse por questões teológicas.
Intelectualmente, o catolicismo havia terminado sua carreira. É,
portanto, mais por necessidade que por causa de sua
formação, que os filhos de Loyola se esforçaram, durante o
século XIX, e ainda hoje, para despertar a religiosidade
supersticiosa, especialmente entre as mulheres, que reúnem
grandes rebanhos; isto para contrabalançar o "racionalismo".
Para a educação secundária de moças, a Ordem promovia a
fundação de diversas congregações de mulheres. A mais
famosa e ativa era a "Congregação das Senhoras do Sagrado
Coração", em 1830, composta por 105 casas, com 4.700
professores, com grande influência nas altas classes.(47)
No que tange à adoração de Maria, sempre tão louvada pelos
jesuítas, foi fortemente ajudada, no Segundo Império, pelas
"oportunas" supostas aparições da Virgem para jovens
pastores em Lourdes.
Isso aconteceu dois anos depois de Pio IX ter promulgado o
dogma da Imaculada Conceição (1854), pela influência dos
jesuítas. Os principais atos deste pontificado foram todos
vitórias dos jesuítas, cuja influência toda-poderosa sobre a
Cúria Romana se afirmava mais e mais. Em 1864, Pio IX
publicou a encíclica Quanta Cura, acompanhada do Sílabo,
que anatematizava (excomungava) os melhores princípios
políticos das sociedades contemporâneas. 'Anátema de tudo o
que é valioso para a França moderna! A França moderna quer
a independência do Estado; o Sílabo ensina que o poder
eclesiástico deve exercer sua autoridade sem o consentimento
e permissão da sociedade civil. A França moderna quer a
liberdade de consciência e a liberdade de culto. O Sílabo
ensina que a Igreja Romana tem o direito de usar da força e
reinstaurar a Inquisição. A França moderna assegura a
existência de vários tipos de culto; o Sílabo declara que a
religião católica deve ser considerada como a única religião de
Estado, e todas as outras são excluídas. A França moderna
proclama que as pessoas são soberanas; o Sílabo condena o
sufrágio universal. A França moderna professa que todos os
franceses são iguais perante a lei; o Sílabo afirma que os
eclesiásticos são isentos de tribunais civis e criminais."
"Estas são as doutrinas ensinadas pelos jesuítas em seus
colégios. Elas estão na frente do exército da contra-revolução.
Sua missão consiste em educar a juventude sob seus cuidados
com ódio contra os princípios sobre os quais a sociedade
francesa se assenta, princípios definidos por antigas gerações
a um preço muito alto. Através de seus ensinamentos, tentam
dividir a França em duas e colocam em dúvida tudo o que tem
sido feito desde 1789. Queremos harmonia, eles querem luta;
queremos paz, querem a guerra; queremos a França livre, eles
a querem escravizada; querem uma sociedade combatente
recebendo ordens de fora; e nos combatem, nos deixam
defender sozinhos; eles nos ameaçam: vamos desarmálos."(
48)
A eterna pretensão da Santa Sé de dominar a sociedade civil
era então reafirmada, conforme Renan já havia dito em 1848,
em um artigo intitulado "Liberalismo do Clero": "Demonstrou-se
que a soberania do povo, a liberdade de consciência e todas as
liberdades modernas foram condenadas pela Igreja.
Demonstrou-se que a Inquisição é a conseqüência lógica de
todo o sistema ortodoxo, como o sumário do espírito da Igreja".
E acrescenta: "Quando for capaz, a Igreja trará de volta a
Inquisição; se não o fizer, é porque não pode fazê-lo".(49)
O poder dos jesuítas sobre o Vaticano cresceu e se tornou
mais e mais forte alguns anos após o Sílabo, quando o dogma
da infalibilidade papal foi promulgado. O abade Brugerette
escreveu que este dogma era para "atirar sobre os trágicos
anos de 1870-1871, os quais deixaram a França de luto, o
brilho de uma grande esperança cristã."
O mesmo autor diz ainda: "Pode-se dizer que, durante a
primeira metade do ano de 1870, a Igreja da França não estava
mais na França: estava em Roma, apaixonadamente ocupada
com o Concilio Geral que Pio IX tinha acabado de convocar no
Vaticano". De acordo com o monsenhor Pie, esse clero francês
tinha "atirado fora absolutamente todas as suas vestes,
máximas e liberdades francesas ou gálicas".
O bispo de Poitiers acrescentou que isso havia sido feito como
sendo um sacrifício ao princípio de autoridade, doutrina e
direito comum. Tudo foi colocado aos pés do soberano
pontífice, o qual foi entronizado ao som de um trompete,
dizendo: "O papa é nosso rei; não só seu desejo é nosso
comando, mas suas vontades também são nossas regras".(49)
A entrega de todo o clero "nacional" nas mãos da Cúria
Romana é suficientemente clara. Os católicos franceses
ficaram submissos à vontade do déspota estrangeiro que, sob
a máscara do dogma ou da moral, imporia sobre eles suas
direções políticas, sem nenhuma oposição. Os católicos
liberais protestaram em vão contra a exorbitante pretensão da
Santa Sé de ditar suas leis supostamente em nome do Espírito
Santo.
O abade Brugerette denunciou que seu dirigente, M. de
Montalembert, publicou na Gazette de France um artigo no
qual protestava veementemente contra aqueles que "sacrificam
a justiça e a verdade, a razão e a História ao ídolo que
levantaram no Vaticano".(50)
Vários bispos notórios, dentre eles os padres Hyacinthe,
Loyson e Gratry seguiram a mesma linha; este último, ainda
com muito espírito, publicou sucessivamente suas quatro
Cartas ao Monsenhor Deschamps. Nelas, não só discute
eventos históricos, como a condenação do papa Honório que,
segundo consta, se opôs à proclamação da infalibilidade papal.
De forma inteligente e amarga, denunciou o desdém das
autoridades católicas pela verdade e integridade científica. Um
deles, um candidato eclesiástico a Doutoramento em Teologia,
chegou até a ousar justificar falsas decretais diante da
Faculdade de Paris, declarando que "não era uma fraude
odiosa". Gratry acrescentou: 'Até hoje se diz que a condenação
de Galileu foi oportuna".
"Vocês, homens de pouca fé, com corações miseráveis e
almas sórdidas! Seus truques são escandalosos. No dia que a
grande ciência da natureza for levantada acima do mundo,
vocês a condenarão. Não se surpreendam se os homens,
antes de perdoarem seus atos, esperarem de vocês confissão,
penitência, profunda contrição e correção de suas almas".(51)
Nem é preciso dizer que os jesuítas, agentes inspirados de Pio
IX e todo-poderosos do Concilio, estavam ansiosos a respeito
da confissão, penitência, contrição e correção, em um tempo
onde estavam quase a conseguir o objetivo ao qual se haviam
determinado no Concilio de Trento, no meio do século XVI.
Naquele tempo, Lainez já apoiava a idéia da infalibilidade
papal.
Só faltava, portanto, consagrar como dogma uma pretensão
quase tão velha quanto o papado. Nenhum outro Concilio até
então havia desejado ratificá-lo, mas a ocasião parecia
propícia. Além disso, o trabalho paciente dos jesuítas havia
preparado o clero nacional para entregar suas últimas
liberdades. O colapso iminente do poder temporal dos papas
(que acabou acontecendo antes da votação do Concilio) pedia
um reforço da autoridade espiritual, de acordo com os
ultramontanos. O argumento prevaleceu e o "dictatus papae"
de Gregório VII, princípios de teocracia medieval, triunfaram
bem no meio do século XIX.
O que o novo dogma realmente consagrou, entretanto, foi a
onipotência da Companhia de Jesus na Igreja Romana. Com a
cobertura dos jesuítas (estabelecidos no Vaticano desde que
os poderes seculares os tinham rejeitado de todos os países
livres, como se fossem uma associação de malfeitores), o
papado passou a aspirar a novas ambições. Esses homens
malignos, que haviam transformado o Evangelho em um
espetáculo de lágrimas e sangue, mantendo-se na posição dos
piores inimigos da democracia e liberdade de pensamento,
dominavam a Cúria Romana. Todos os seus esforços se
concentravam em manter, na Igreja, suas doutrinas
vergonhosas e preponderância perniciosa".
"Dedicados à causa da centralização extrema, apóstolos
irredutíveis da teocracia, são senhores assumidos do
catolicismo contemporâneo a estampar seu selo na ideologia
católica, em sua piedade oficial e em sua política vigarista.
Verdadeiros janízaros do Vaticano, inspiram tudo, mandam em
tudo, penetram em todos os lugares, colocam a "informação"
como um sistema de governo; fiéis ao casuísmo, cuja profunda
imoralidade tem sido revelada pela História e tem inspirado
páginas imortais de zombaria sublime a Pascal. Através do
Sílabo de 1864, escrito por eles próprios, Pio IX declarou
guerra contra todo pensamento livre e sancionou, alguns anos
depois, o dogma da infalibilidade, que é um anacronismo
histórico real e sem, absolutamente, valor algum perante a
ciência moderna". (52)
Para aqueles que, contra toda a probabilidade, persistirem em
ver as linhas acima mencionadas como um exagero rancoroso
ou depreciação vingativa, nada mais podemos fazer do que
apresentar a confirmação dos fatos por si, pela escrita muito
ortodoxa de Daniel-Rops. Essa confirmação tem ainda mais
valor pelo fato de ter sido publicada em 1959 sob o título de O
Reestabelecimento da Companhia de Jesus, na própria
publicação jesuíta Etudes. É, portanto, um discurso de
verdadeira defesa que lemos: "Por muitas razões, esta
reorganização da Companhia de Jesus teve uma considerável
importância histórica. A Santa Sé redescobriu esta formação
fiel, intimamente devotada à sua causa, e que viria a ser
necessária posteriormente. Muitos padres vieram a exercer,
durante aquele século e até hoje, uma discreta mas profunda
influência em certas disposições tomadas pelo Vaticano. Um
certo tipo de provérbio era ouvido em Roma: "Quem segura a
pena do papa são os jesuítas". Sua influência foi óbvia no
desenvolvimento do culto ao Sagrado Coração, assim como na
proclamação do dogma da Imaculada Conceição, na edição do
Sílabo e na definição da infalibilidade. A "Civilta Cattolica",
fundada pelo neapolitano jesuíta Cario Curei, supostamente
refletiu o pensamento".(53)
Esta confissão é clara o bastante. Lembramos ao espírito
passado deste pio acadêmico que, logicamente, e julgando por
todo o contexto prévio, era muito mais o pensamento do papa
que refletia as opiniões da "Civilta Cattolica". Nem é preciso
dizer que os jesuítas, todo-poderosos em Roma, tanto pelo seu
espírito quanto pela sua organização, estavam engajando o
papado na política internacional cada vez mais, conforme Louis
Roguelin escreveu:
"Como perdera seu poder temporal, a Igreja de Roma se
aproveitou de toda a oportunidade para reconquistar o terreno
forçosamente perdido, através de um recrudescimento de
atividades diplomáticas. Já que seu esquema astutamente
oculto é de dividir para reinar, tentou se aproveitar de todo e
qualquer conflito para seu próprio benefício. De acordo com os
planos dos súditos de Loyola, o dogma da infalibilidade papal
favorecia em muito a ação da Santa Sé, cuja importância pode
ser medida pelo fato da maioria das nações terem
representantes diplomáticos indicados. Sob a cobertura do
dogma e da moral, os súditos que a princípio eram contra a
palavra infalível, hoje aceitam as disposições do papa em sua
autoridade sem limite sobre as consciências dos fiéis. Assim,
durante o século XX, podemos ver o Vaticano engajado
ativamente nas políticas internas e externas dos países, e até
mesmo governando através de partidos católicos. Vemos ainda
o seu suporte "providencial" a homens como Mussolini e Hitler
que, por causa de sua ajuda, desencadearam os piores tipos
de catástrofes. O "vigário de Cristo" admitiu profusamente os
serviços desta famosa Companhia, que tão bem trabalhava a
seu favor. Estes "filhos de satã", conforme alguns bravos
eclesiásticos os qualificavam, estão agora desbotados; podem,
por outro lado, gabarem-se de seu testemunho augusto da
satisfação absoluta que lhes foi dada pelo falecido papa Pio
XII, cujo confessor, como sabemos, era um jesuíta alemão.
Neste texto, publicado por La Croix em 9 de agosto de 1955,
podemos ler: "A Igreja não necessita de outros auxiliares que
não do tipo desta Companhia. Que os filhos de Loyola se
esforcem a seguir as marcas de seus predecessores".
Hoje, tanto quanto ontem, estão apenas fazendo isso, para a
grande destruição das nações.
Os Jesuítas na frança de 1870 a 1885
O colapso do Império deveria, ter trazido uma reação contra o
espírito ultramontano na França. Não foi, no entanto, o que
aconteceu. Adolphe Michel mostra: "Quando o trono caiu na
lama de Sedan em 2 de dezembro, a França foi definitivamente
derrotada, quando a Assembléia de 1871 se encontrou em
Bordeaux; enquanto esperavam a vinda a Versalhes, o partido
clerical foi ainda mais audacioso. Em todos os desastres que
ocorriam em sua própria casa (o Vaticano), ainda falavam
como senhores.
Quem não se lembra das manifestações presunçosas e das
ameaças insolentes dos jesuítas durante esses anos
derradeiros? Ou de certo padre Marquigny, o qual anunciava o
queimar em praça pública dos princípios de 89; ou M. de
Belcastel, em seu próprio nome, dedicando a França ao
Sagrado Coração? Os jesuítas ergueram uma igreja no monte
de Montmartre, em Paris, e assim desafiavam a Revolução: Os
bispos incitavam a França a declarar guerra contra a Itália, a
fim de reestabelecerem o poder temporal do papa".
Gaston Bally explica muito bem as razões para essa situação
aparentemente paradoxal: "Durante o cataclisma, os jesuítas,
como sempre, rapidamente voltaram aos seus buracos,
deixando a República por sua própria conta na confusão que
fora criada. Quando, entretanto, a maior parte do trabalho de
salvamento havia sido terminado, quando nosso território nos
foi recuperado da invasão prussiana, a invasão negra
recomeçou e eles tiraram proveito. A terra estava começando a
emergir de um tipo de pesadelo, um sonho horrível, e este era
simplesmente o melhor momento deles se apoderarem das
massas apavoradas".
Não seria, por acaso, exatamente assim depois de cada
guerra? É incontestável que a Igreja Romana sempre se
beneficiou dos grandes desastres públicos. A morte, a miséria
e o sofrimento de qualquer espécie incitam as massas a
procurarem consolo ilusório em práticas complacentes. Dessa
forma, o poder daqueles que deixam tais desastres surgirem
fica fortalecido (ou até mesmo maior) pelas próprias vítimas. As
duas guerras mundiais, na verdade, tiveram as mesmas
conseqüências da guerra de 1870. Assim é que a França foi
conquistada.
Por outro lado, foi uma vitória brilhante da Companhia de Jesus
quando, em 1873, uma lei foi aprovada, permitindo a
construção da basílica do Sagrado Coração em Montmartre.
Essa igreja, chamada de "desejo nacional" (por uma cruel
ironia do destino), materializaria em pedra o triunfo do
jesuitismo, no local onde havia começado a sua existência. À
primeira vista, essa invocação do Sagrado Coração de Jesus,
exaltado pelos jesuítas, pode parecer quase inocente, apesar
de basicamente idolatra.
"Para compreender a extensão do perigo", escreveu Gaston
Bally, "devemos olhar por trás da fachada, testemunhar a
manipulação de almas e ver o objetivo de suas várias
associações: Irmandade da Adoração Perpétua; Irmandade da
Guarda de Honra; Apostolado da Oração; Comunhão
Reparativa, e outras. Irmandades, associações, apóstolos,
missionários, devotos, fanáticos, guardas de honra, os
restauradores, os mediadores e outros agregados do Sagrado
Coração parecem querer exclusivamente, como Mille.
Alacoque os convidou a unirem sua homenagem aos nove
coros dos anjos. Na realidade, tudo isso não tem nada de
inocente. As irmandades afirmam seus objetivos muitas vezes.
"Elas não podem me acusar de caluniá-las, pois citarei
algumas passagens de suas mais claras declarações e
confissões".
'A opinião pública ficou chocada com as observações do padre
Olivier quando o incidente ocorrido no Bazar de Caridade, o
qual provocou inúmeras vítimas, foi encoberto. O monge viu na
catástrofe apenas mais uma prova da clemência divina. Deus
estaria triste com os pecados do povo e estaria convidando,
gentilmente, a uma correção. Isso parecia monstruoso. A
construção da Basílica de Montmartre foi o resultado do
mesmo tipo de pensamento, mas isso foi esquecido".
Qual era então o terrível pecado do qual a França precisava se
redimir? O autor acima mencionado responde: 'A Revolução!"
Este foi o "terrível crime" que os franceses tiveram de "expiar"!
'A Basílica do Sagrado Coração simboliza o arrependimento da
França (Sacratissimo cordi Jesu Gallioe poenitens et devoter) e
expressa também nossa firme intenção de corrigirmos nossas
faltas. É um monumento de expiação e correção ".
"Salve Roma e a França em nome do Sagrado Coração",
tornou-se o slogan da ordem moral. 'Assim nos tornamos
capazes de termos esperanças contra todas as esperanças",
escreveu o abade Brugerette, "e esperarmos do "céu pacífico"
em algum momento o grande evento da restauração da Ordem
e da salvação da pátria".
Parece, no entanto, que os "céus", com raiva da França e dos
direitos humanos, não era suficientemente "pacífico" quando da
construção da famosa basílica. A restauração da monarquia se
aproximava lentamente. O mesmo autor explica isso da
seguinte maneira: 'Apesar das grandiosas manifestações da fé
católica durante os anos seguintes à guerra de 1870 poderem
parecer impressionantes, seria uma falta de raciocínio lógico
querer julgar a sociedade francesa da época apenas em
termos da piedade exterior. Também nos estaria faltando o
espírito psicológico e isenção dos fatos. Devemos nos
perguntar então se o sentimento religioso era verdadeiramente
uma resposta direta de toda a sociedade, nas expressões de fé
reveladas pelas peregrinações impostas e organizadas pelos
bispos e pelo ardor das missas nas igrejas. Sem querer
atenuar de alguma forma a importância do movimento religioso
na França, surgido pela ocasião das duas guerras de 1870 e
1914, que também despertaram grandes esperanças, devemos
admitir, no entanto, que este renascimento da fé não tinha nem
a profundidade nem a extensão que uma verdadeira renovação
religiosa deve ter. Mesmo nessas ocasiões, a Igreja da França
era formada (infelizmente) por milhares de descrentes e
adversários, além de uma grande quantidade de pessoas que
só eram católicas pelo nome, e não pela convicção. As práticas
religiosas eram realizadas não por convicção, mas por hábito.
Logo depois das eleições, a França parecia arrepender-se do
sentimento desesperado que a havia feito mandar uma maioria
católica para a Assembléia Nacional.
Cinco meses depois, reverteu sua posição nas eleições
comple-mentares de 2 de julho! Nesse dia, o país escolheria
113 deputados. Foi uma derrota completa para os católicos e a
vitória para os republicanos, que obtiveram entre 80 e 90
deputados eleitos. Todas as eleições seguintes a essa consulta
de sufrágio universal tiveram o mesmo caráter republicano e de
composição anticlerical. Seria infantil supor que não fossem a
expressão dos sentimentos e vontades da sociedade".
O abade Brugerette, falando sobre as grandes peregrinações
organizadas naquela época para o "reerguimento da nação",
admite que estas eram as causas de "alguns erros e excessos"
que levantavam as suspeitas dos "adversários da Igreja". 'As
peregrinações serão, para eles, empreendimentos organizados
pelo clero para a restauração da monarquia na França e o
poder papal em Roma. A atitude tomada pelo clero nestes dois
sentidos parece justificar essa acusação por parte da imprensa
irreligiosa e dará, dessa forma, como poderemos observar
adiante, um potente ímpeto ao anticlericalismo. Sem se livrar
de seus hábitos religiosos reavivados tão intensamente durante
os anos do pós-guerra, a sociedade francesa se rebelará
contra este "governo de padres", conforme Gambetta costuma
estigmatizá-lo. No fundo, o povo francês tinha mantido um
instinto invencível de resistência contra tudo o que vagamente
lembrasse a dominação política da Igreja.
Como um todo, essa nação amava a religião, mas o espectro
da "teocracia", reavivado pela imprensa oposicionista,
assustava. A filha mais velha da Igreja não queria se esquecer
que também era a mãe da Revolução".
Mesmo assim, o clero (encabeçado pelos jesuítas) fazia
esforços para persuadir o povo francês a negar o espírito
republicano! "Desde que a lei Falloux foi posta em vigor, os
jesuítas se expandiram livremente com seus colégios, onde
educavam as crianças das classes médias dominantes. É óbvio
que não lhes ensinavam um grande amor pela República... À
semelhança dos assuncionistas, criados em 1845 pelo
intransigente padre d'Alzon, eles queriam devolver ao povo a fé
que haviam perdido". Brotavam, no entanto, outras
congregações de ensino, florescentes e invejosas: oratorianos,
eudistas, dominicanos da Terceira Ordem, marianitas, maristas
(que Jules Simon chamava de "o segundo volume" dos
jesuítas, envoltos em peles de animais) e os famosos "Irmãos
das Escolas Cristãs", mais conhecidos pelo nome de
ignorantinos, que ensinavam a "doutrina boa" aos
descendentes da classe média e a um milhão e meio de
crianças do povo.
Não é de surpreender que essa situação tenha colocado o
regime republicano na defensiva. Uma lei, proposta em 1879
por Jules Ferry, queria remover o clero do Conselho de
Instrução Pública, no qual havia sido introduzido por leis de
1850 e 1873, e assim devolver ao Estado o direito exclusivo de
credenciar os vários níveis de professores.
O abade Brugerette, autor dessa passagem, descreve a
resistência levantada pelos católicos contra o que ele viria a
chamar "um ataque traiçoeiro", mas ainda acrescenta: "O clero
ainda ignora o imenso progresso do laicismo; não entendeu
ainda que, por causa da sua oposição aos princípios de 89, ele
perdeu sua profunda influência sobre a direção do espírito
público na França".
O artigo 7 foi rejeitado pelo Senado, mas Jules Ferry invocou
as leis existentes a respeito das congregações. "Em
conseqüência, a 29 de março de 1880, o Journal Offidel
publicou dois decretos obrigando os jesuítas a se dispersarem,
e todas as congregações não autorizadas de homens e
mulheres a obterem o reconhecimento e a aprovação de seu
regimento e estatuto legal dentro de três meses".
Sem qualquer atraso, um movimento de oposição foi
organizado: 'A Igreja, profundamente ferida, desperta", de
acordo com M. Debidour. 'Após 11 de março, Leão XIII
determina: Agora é a vez de todos os bispos defenderem
energicamente as ordens religiosas".
Os filhos de Loyola, no entanto, foram expulsos. Vejamos o
que o abade Brugerette tem a dizer sobre esse assunto:
"Apesar de tudo, os jesuítas, experts em entrar através de
janelas quando são jogados pela porta afora, já tinham
conseguido (e com sucesso) colocar os seus colégios nas
mãos de leigos ou eclesiásticos seculares. Apesar de não
residirem nesses colégios, podiam ser vistos chegando em
certos momentos do dia, para exercerem suas funções de
direção e supervisão".
O truque, no entanto, foi descoberto e os colégios jesuítas
finalmente fechados. No total, os decretos de 1879 foram
executados sobre 32 congregações que se recusaram a se
submeter às disposições legais. Em muitos locais, a expulsão
foi levada a cabo pelo pelotão militar "Manu Militari", contra a
oposição dos fiéis, os quais eram instigados pelos jesuítas.
Estes não só se recusaram a solicitarem a autorização legal,
mas também a assinarem uma declaração negando toda a
idéia de oposição ao regime republicano. Isto teria sido
suficiente ao M. de Freycinet, então presidente do Conselho e
favorável a eles, para que ainda os pudesse "tolerar".
Quando as Ordens finalmente decidiram assinar essa
declaração formal de lealdade, a manobra foi anulada e M. de
Freycinet teve de se afastar, pois havia tentado negociar esse
acordo contra a vontade do Parlamento e de seus colegas de
gabinete. O abade Brugerette comentou sobre a declaração
que as ordens religiosas tinham de assinar, considerando o
fato repugnante: "Esta declaração de respeito pelas instituições
que a França criou para si própria livremente pode parecer
isenta e inofensiva hoje, quando comparada com o voto solene
de lealdade pedido aos bispos alemães pelo Tratado de 20 de
julho de 1933 entre a Santa Sé e o Reich: Artigo 16 - Antes de
assumir suas dioceses, os bispos farão um voto de lealdade
diante do presidente do Reich ou um Reichsstatthalter
competente nos seguintes termos: Diante de Deus e sobre a
Sagrada Escritura, eu juro e prometo, como um bispo deve
fazer, lealdade ao Reich alemão e ao Estado. Eu juro e
prometo respeitar e fazer o meu clero respeitar o governo
estabelecido de acordo com as leis constitucionais. Como é o
meu dever, trabalharei para o bem e os interesses do Estado
alemão; no exercício do ministério sagrado a mim atribuído,
tentarei evitar tudo o que seja danoso a ele (Tratado entre a
Santa Sé e o Reich alemão)".
O artigo 7 dessa lei também especificava que "ninguém seria
autorizado a tomar parte no ensino público ou privado se
pertencesse a uma congregação religiosa não autorizada". "Os
jesuítas eram o maior objetivo desse famoso artigo 7, e
ninguém mais. Os padres do deado de Moret (Seine-et-Mame)
declararam que "estão do lado de todas as comunidades
religiosas, incluindo os veneráveis padres da Companhia de
Jesus". 'Atacar os jesuítas", eles escrevem, "seria como atacar
a nós mesmos". A confissão é explícita.
A diferença seguramente é grande entre uma mera promessa
de não-oposição ao regime da França e esta garantia solene
de apoio ao Estado nazista. Tão grande quanto a diferença
entre os dois regimes: um, democrático e liberal, tão odiado
pela Igreja Romana; o outro, totalitário e brutalmente
intolerante, desejado e estabelecido pelos esforços unidos de
Franz von Papen, o ajudante secreto do papa, e pelo
monsenhor Pacelli, núncio em Berlim e futuro Pio XII.
De novo é o abade Brugerette quem, após ter declarado que o
desejo do governo havia sido atingido no que tange à
Companhia de Jesus, também admite: "Não podíamos falar na
destruição da instituição de congregações. As congregações
femininas sequer haviam sido tocadas e as autorizadas, "tão
perigosas quanto as outras para o espírito laico", ainda
permaneciam de pé. Sabíamos também que quase todas as
congregações masculinas, expulsas de suas residências por
causa dos decretos de 1880, haviam silenciosamente voltado
aos seus monastérios".
Essa trégua, no entanto, teve vida curta. A intenção do Estado
em coletar impostos e direitos de sucessão sobre a riqueza de
comunidades eclesiásticas provocou uma manifestação de
protesto entre eles, pois não tinham a menor intenção de se
submeterem à lei comum.
'A organização da resistência foi feita por um comitê liderado
por Bailly, "assuncionista", Stanislas, capuchino, e Le Dore,
superior dos eudistas. O padre Bailly estava reavivando o
grande zelo do clero quando escreveu: "Como São Laurent, os
monges e as freiras devem antes voltar aos pelouros de
torturas do que se entregarem".
Por "coincidência", o principal revivalista deste grande "zelo",
Bailly, era um "assuncionista" ou, na verdade, um jesuíta
camuflado. Quanto ao pelouro e às torturas, poderíamos
lembrar a esse bom padre que esses tristes expedientes são
muito mais uma tradição da própria Santa Sé que do Estado
republicano. Finalmente, o abade acima mencionado admitiu
que "a prosperidade de seu trabalho não fora prejudicada",
conforme bem podemos imaginar.
Não podemos entrar em detalhes sobre as leis de 1880 e 1886,
as quais tendiam a assegurar a neutralidade confessional das
escolas públicas, essa "secularização" tão natural a todas as
mentes tolerantes, mas rejeitada pela Igreja Romana como
uma tentativa abominável de forçar consciências, algo que ela
sempre considerou ser tarefa exclusiva sua. Poderíamos
imaginá-la a lutar por esse "direito" tão violentamente quanto
por seus privilégios financeiros.
Em 1883, a congregação romana do Index, inspirada pelo
jesuitismo, entrou na luta pela condenação de certos livros
escolares de moral e civismo. O assunto era grave. Um dos
autores, Paul Bert, ousou escrever que até mesmo a idéia de
milagre "deve ser destruída". Assim é que mais de 50 bispos
promulgaram o decreto do Index, com comentários fulminantes,
e um deles, monsenhor Isoard, declara em sua carta pastoral
de 27 de fevereiro de 1883 que os professores, pais e crianças
que se recusassem a destruir esses livros seriam afastados
dos sacramentos.
As leis de 1886, 1901 e 1904, que declaravam que nenhum
posto de ensino poderia ser exercido por membros de
congregações religiosas, também geraram uma onda de
protestos do Vaticano e do clero francês. Na verdade, os
monges e freiras que exerciam a função de professores apenas
teriam de se "secularizar".
O único resultado positivo dessas disposições legais foi que os
professores das chamadas escolas "livres" tiveram, a partir de
então, de produzir qualificações pedagógicas adequadas, uma
boa coisa quando se sabe que, antes da última guerra, as
escolas primárias católicas na França chegavam a 11.655 com
824.595 alunos.
Quanto às escolas "livres", especialmente as jesuítas, se os
seus números estão baixando, é devido a vários fatores que
não têm nada a ver com as disputas legais. A superioridade do
ensino laico, reconhecida pela maioria dos pais, é a principal
causa de sua crescente popularidade. Além do que, a
Companhia de Jesus tem voluntariamente reduzido o número
de suas escolas.
O General Boulanger e o Caso Dreyfus
Não faltariam justificativas para a hostilidade que o "partido
santo" fingiu ter sido vítima, ao final do século XIX, por parte do
Estado republicano, apesar dessa hostilidade, ou melhor seria
dizer desconfiança, ter sido ainda mais benéfica. A oposição do
clero ao regime ao qual a França se havia auto-determinado se
mostrava evidente em todas as ocasiões, de acordo com o
abade Brugerette. Em 1873, a tentativa de restaurar a
monarquia com o conde de Chambord falhou, apesar de
fortemente apoiada pelo clero, porque o "pretendenteembusteiro"
teimosamente se recusava a adotar a bandeira de
três cores, para ele o emblema da Revolução.
"Tal como está, o catolicismo parece restrito à política, ou a um
certo tipo especificamente. A lealdade à Monarquia foi
transmitida de geração a geração dentro das velhas famílias
nobres, tanto quanto nas classes médias e no povo, nas
religiões do Leste e do Sul. Sua nostalgia de um regime antigo
e idealizado, retratado em uma Idade Média épica, era
reforçada pelos desejos de católicos ardorosos, cuja principal
preocupação era a salvação da religião; eles se reorganizaram,
atrás de Veuillot, com a família real legítima e devota dos
Chambord, considerando que esta era a forma de governo
mais favorável à Igreja. Da união destas forças políticas e
religiosas nasceu, na situação complicada do pós-guerra, um
tipo de misticismo reacionário, ilustrado à perfeição pelo
monsenhor Pie, bispo de Poitiers, e sua melhor encarnação no
mundo eclesiástico: 'A França, que espera por outro chefe e
clama por um senhor, receberá novamente de Deus "o cetro do
Universo que lhe caiu das mãos por algum tempo", no dia em
que tiver aprendido outra vez como se ajoelhar".
Este quadro, descrito por um historiador católico, é significativo.
Ajuda a compreender os sentimentos que se seguiram, alguns
anos depois, na tentativa infeliz da Restauração de 1873. O
mesmo historiador católico descreve da seguinte forma a
atitude política do clero na ocasião: "Na época das eleições, os
presbíteros se tornaram centros de apoio para os candidatos
reacionários. Os padres e auxiliares batiam de porta em porta,
fazendo propaganda eleitoral; caluniavam a República e suas
novas leis de ensino; declaravam que aqueles que votassem
nos liberais, no atual governo ou nos maçons (descritos como
"bandidos", "ralé" e "ladrões") seriam culpados de pecado
mortal. Um deles chegou mesmo a declarar que uma mulher
adúltera seria perdoada mais facilmente que aqueles que
mandassem seus filhos às escolas laicas. Outro disse: É
melhor estrangular uma criança que apoiar o regime. Um
terceiro ameaçou recusar os últimos sacramentos àqueles que
tivessem votado nos partidários do regime. Ainda fizeram mais:
os negociantes republicanos e anti-clericais eram boicotados;
recusavam ajuda a pessoas sem bens e os trabalhadores eram
demitidos".
Esses excessos de um clero cada vez mais afetado pelo
ultramon-tanismo jesuítico eram ainda menos aceitáveis devido
ao fato de serem tais eclesiásticos pagos pelo Governo, pois o
Tratado ainda estava em vigor.
A maioria da opinião pública também não estava satisfeita com
essa pressão sobre as consciências, conforme o autor
anteriormente mencionado indica: "O povo francês, como um
todo, era indiferente quanto aos problemas religiosos, e não
podemos confundir a observação hereditária de práticas
religiosas com a fé verdadeira. O fato é que o mapa político da
França é idêntico ao mapa religioso. Podemos dizer que nas
regiões onde a fé é forte, o povo francês vota pelos candidatos
católicos; nos outros locais, conscientemente são eleitos
deputados e senadores anti-clericais. O povo não quer o
clericalismo, ou seja, uma autoridade eclesiástica nos assuntos
políticos, o que usualmente é chamado de "governo dos
padres". Para um grande número de católicos, o fato do padre,
este homem incômodo, interferir, através de instruções de
sermões e prescrições de confessionário, no comportamento
dos fiéis, checando pensamentos, sentimentos, atos, comida e
bebida, e até mesmo as intimidades da vida de casado, é o
suficiente. Pretendem, pelo menos, limitar seu império pela
preservação de sua independência enquanto cidadãos".
Gostaríamos de ver esse espírito de independência vivo ainda
hoje. Apesar da opinião de "um grande número de católicos"
ser esta, os ultramontanos, no entanto, não se desarmaram e
buscaram, em todas as oportunidades, a luta contra o regime
tão odiado. Pensaram por algum tempo que haviam encontrado
o "homem providencial" na pessoa do general Boulanger,
ministro da Guerra em 1886, o qual havia organizado sua
propaganda pessoal tão bem que parecia destinado a ser o
futuro ditador.
"Um acordo tácito", escreveu Adnen Dansette, "ficou
estabelecido entre o general e os católicos, e tornou-se claro
durante o verão. Ele também firmou um acordo secreto com os
membros monarquistas do Parlamento, dentre eles o barão de
Mackau e o conde de Mun, fiéis defensores da Igreja na
Assembléia. O fleumático ministro do Interior, Constans,
ameaçou prendê-lo e, a Io de abril, o candidato a ditador
escapa para Bruxelas, com sua amante. A partir desse
momento, o boulangismo declinou rapidamente. A França não
havia sido tomada: ela se recuperara. O boulangismo foi
esmagado nas votações de 22 de setembro e de 6 de outubro
de 1889".
Podemos ler, do punho do mesmo historiador, qual era a
posição do papa da época em relação a este aventureiro: foi
Leão XIII quem, em 1878, sucedendo a Pio IX, o papa do
Sílabo, fingia aconselhar aos fiéis da França que se unissem
ao regime republicano. "Em agosto (1889), o embaixador
alemão no Vaticano pretende que o papa se encontre com o
general (Boulanger), o homem que derrubará a República
Francesa e restabelecerá o trono. Podemos ler um artigo no
qual o Monitor de Roma prevê que o candidato ditatorial tomará
o poder na França e que a Igreja poderá se beneficiar muito
disso. O general Boulanger enviou um de seus antigos oficiais
a Roma, com uma carta para Leão XIII, na qual promete ao
papa "que no dia em que ele tiver em suas mãos a espada da
França, fará o máximo possível para que os direitos do papado
sejam reconhecidos"
Este era o pontífice jesuíta e o clero intransigente que
discordava de seu suposto excesso de "liberalismo". A crise
boulangista revelou a ação dirigida pelo partido religioso contra
a República laica, sob o disfarce de nacionalismo. A natureza
"apartidária" de seu caráter, entretanto, bem como a resistência
de uma maioria da nação, haviam derrotado tal tentativa,
apesar de toda essa agitação forçada. Essa tática chauvinista,
no entanto, havia provado ser muito efetiva, especialmente em
Paris, e eles a usariam novamente em uma outra (e melhor)
oportunidade. Esta surgiu (não teria sido provocada?) e os
discípulos de Loyola, obviamente, lá estavam a encabeçar o
movimento outra vez. "Os amigos deles estão aqui", escreveu
Pierre Dominique, "uma nobreza fanática, uma burguesia que
rejeita Voltaire e muitos militares. Eles trabalham bem,
especialmente sobre o Exército, e o resultado é a famosa
aliança "da espada e do borrifador da água santa".
"Em 1890, não se trata mais de dominar a consciência do rei
da França, mas sim do aparelho de governo, ou pelo menos,
de seu chefe; então, o "Caso Dreyfus" explode, uma autêntica
guerra civil que divide a França em duas".
O historiador católico Adnen Dansette resume o começo do
caso assim: 'A 22 de dezembro de 1894, o capitão de artilharia
Alfred Dreyfus foi acusado de traição, condenado à deportação
para prisão perpétua e demitido. Três meses antes, nosso
Serviço de Inteligência havia descoberto, na embaixada alemã,
uma lista de vários documentos que tinham a ver com a
segurança nacional. Também foi estabelecida uma semelhança
entre as escritas do capitão Dreyfus e a da lista.
Imediatamente, o Estado-Maior afirmou: "É ele, é o judeu". Só
existia pressuposto, pois a traição não tinha nenhum tipo de
explicação psicológica (Dreyfus tinha boa reputação, era rico e
levava uma vida normal). O pobre homem foi, no entanto,
levado à prisão, condenado por um tribunal militar após um
inquérito tão ligeiro e parcial que o julgamento certamente
havia sido preconcebido. Para piorar ainda mais as coisas,
soube-se de um documento secreto dado aos juizes, sem o
conhecimento do advogado de defesa.
"Mas houve ainda mais vazamento do Estado-Maior após a
prisão de Dreyfus. O comandante Picquart, chefe do Serviço de
Inteligência, após julho de 1895, veio a saber de um certo
projeto chamado "petitbleu" (cartas expressas), entre o
assessor militar alemão e o comandante francês (de origem
húngara) Esterhazy. Este era um homem de má fama que não
alimentava nada, além de ódio e desprezo por seu país de
adoção. Um oficial do Serviço de Inteligência, o comandante
Henry, acrescentou ao arquivo Dreyfus - conforme veremos -
um documento falso que seria desastroso para o oficial judeu
se fosse genuíno; ele também apagara e reescrevera o nome
de Esterhazy no "petit bleu" para dar a impressão de que o
documento era falso. Assim foi que Picquart caiu em desgraça,
em novembro de 1896".
A queda do chefe do Serviço de Inteligência é fácil de
entender: o seu cuidado ao tentar dissipar a obscuridade
acumulada era excessivo demais. O testemunho mais
fidedigno pode ser encontrado nos Carnets de
Schwartzkoppen, publicados após a sua morte, em 1930. Foi
de Esterhazy, e não de Dreyfus, que o autor, então primeiro
adido militar da embaixada alemã em Paris, recebia os
documentos secretos da defesa nacional francesa. "Já algum
tempo antes, em julho, Picquart pensava ter chegado o
momento de avisar por carta ao chefe do Estado-Maior, que na
altura se encontrava em Vichy, sobre as suspeitas em relação
a Esterhazy. O primeiro encontro foi em 5 de agosto de 1896.
O general de Boisdeffre aprovou tudo o que Picquart havia feito
até então com relação a este caso e lhe deu autorização para
continuar com sua investigação. "O ministro da Guerra, general
Billot, foi igualmente informado, a partir de agosto, sobre as
suspeitas de Picquart, pois também sancionava as medidas
tomadas por ele. Esterhazy, que havia sido demitido, tentara,
usando suas conexões com o deputado Jules Roche, obter um
cargo no ministério da Guerra, a princípio para tentar entrar em
contato comigo novamente. Havia escrito várias cartas ao
ministro da Guerra assim, e ao seu auxiliar de campo. Uma das
suas cartas foi dada a Picquart que, pela primeira vez,
percebeu que a sua caligrafia era a mesma que constava da
"lista". Ele mostrou uma foto daquela caligrafia a Du Paty e
Bertillon, sem lhes dizer, é óbvio, quem havia escrito aquilo.
Bertiloon disse: 'Ah, mas é a caligrafia da lista!"
"Sentindo se desfazer sua convicção sobre a culpa de Dreyfus,
Picquart decidiu consultar o "pequeno arquivo" que havia sido
entregue somente aos juizes, o qual lhe foi repassado pelo
arquivista Gribelin. Era noite. Abandonado em seu escritório,
Picquart abriu o envelope sem selo de Henry, sobre o qual se
encontrava o estampo do mesmo, escrito com uma caneta
azul. Grande foi seu espanto quando percebeu a nulidade
daqueles lamentáveis documentos, pois nenhum deles poderia
ser aplicado a Dreyfus. Pela primeira vez, ele tinha a certeza
que o homem condenado da "lie du Diable" (Ilha do Diabo) era
inocente. No dia seguinte, Picquart escreveu uma carta ao
general de Boisdeffre, na qual expunha todas as acusações
contra Esterhazy e sua recente descoberta. Quando leu sobre
o "arquivo secreto", o general pulou da cadeira e exclamou:
"Por que isso não foi queimado como havia sido combinado? "
Von Schwartzkoppen escreveu posteriormente: "Minha posição
tornou-se extremamente delicada. Deveria dizer toda a verdade
e assim reparar o erro terrível e liberar aquele pobre homem
inocente? Se eu tivesse agido como queria, com certeza teria
feito dessa forma! Olhando com mais cuidado, cheguei à
conclusão que não deveria me envolver na situação porque,
naquela conjuntura, ninguém teria acreditado em mim. Além
disso, as considerações diplomáticas me impediriam de assim
proceder. Considerando que o governo francês seria capaz de
tomar as medidas necessárias para esclarecer o problema e
reparar a injustiça, eu realmente me determinei a nada fazer".
"Podemos ver a tática do Estado-Maior", observa Adrien
Dansette. "Se Esterhazy for culpado, os oficiais que
provocaram a condenação ilegal de Dreyfus, e principalmente o
general Marcier, ministro da Guerra na época, também são
culpados. Os interesses do Exército exigiam o sacrifício de
Dreyfus; não devemos interferir na sentença de 1894". É
impressionante a constatação de que tal argumento pudesse
ser invocado para justificar uma condenação absolutamente
injusta.
Assim seria durante todo o caso que estava apenas
começando. É óbvio que se vivia na época uma verdadeira
febre anti-semítica. As violentas dissertações de Edouard
Drumont, no Libre Parole, mostravam todos os dias os filhos de
Israel na posição de agentes da corrupção e dissolução
nacional. O pesado preconceito assim criado incitava uma
grande parcela da opinião pública a acreditar, "a priori", na
culpa de Dreyfus. Posteriormente, entretanto, quando a
inocência do acusado se tornou evidente, o argumento
monstruoso da "infalibilidade" do tribunal militar ainda foi
mantida, e desde então com um cinismo invejável. Não seria o
Espírito Santo, o qual supostamente inspirava esses juizes de
farda, isento de cometer algum erro? Seria tentador acreditar
nessa intervenção celestial - tão semelhante àquela que
também supostamente garantia a infalibilidade papal -quando
lemos sobre o padre du Lac, da Companhia de Jesus, e que
tinha muito a ver com o caso: "Ele dirigia o colégio da Rue des
Postes, quando os jesuítas preparavam os candidatos para as
escolas maiores. É um homem inteligente, que mantém
contatos importantes. Ele converteu Drumont; é o confessor de
De Mun e de Boisdeffre, chefe do Estado-Maior do Exército,
que o avistava todos os dias".
Drumont e o incitou a escrever A França Judia, e quem
forneceu os meios para criar o Libre Parole? O general de
Boisdeffre também não vê o famoso jesuíta todos os dias? O
chefe do Estado-Maior nunca toma uma decisão sem antes
consultar o seu dirigente religioso"
Na Ilha do Diabo, que bem merece esse nome, por seu horrível
clima, a vítima dessa trama atroz era tratada com uma
crueldade extrema, pois a imprensa anti-semítica havia
espalhado uma reportagem que dava conta de sua tentativa de
fuga. O ministro para as Colônias, André Leblon, deu ordens
para um controle maior.
"Na manhã de domingo, dia 6 de setembro, o carcereiro chefe,
Lebar, informou seu prisioneiro que ele não estava autorizado a
caminhar pela parte da ilha que lhe havia sido reservada, e que
seria confinado à sua cabana. Foi-lhe dito que passaria a ser
acorrentado todas as noites. Ao pé de sua cama, feita de três
tábuas, foram fixadas duas algemas do mais duro ferro, as
quais serviriam para prender seus pés. Quando as noites eram
tórridas, essa punição era especialmente dolorosa".
"De manhãzinha, os guardas soltavam o prisioneiro que, ao se
levantar, tremia sobre seus pés. Ele estava proibido de sair de
sua cabana, na qual deveria ficar dia e noite. Após algum
tempo, seus calcanhares começaram a se cobrir de sangue e
tiveram de enfaixá-los. Seus guardas, emocionados e
condoídos, envolviam seus pés secretamente, antes de
acorrentá-los". O condenado continuava a proclamar sua
inocência. Escreveu à esposa: "Deve haver, em algum lugar
nessa terra bela e generosa da França, um homem honesto
que seja suficientemente corajoso para buscar, e descobrir, a
verdade"
De fato, a verdade não era mais desconhecida. O que faltava
era o desejo de torná-la pública. O próprio abade Brugerette é
testemunha do fato: "As suposições sobre a inocência do
condenado da Ilha do Diabo se multiplicavam em vão; as
declarações de M. de Bulow no Reichstag e as que foram
transmitidas por M. de Munster, seu embaixador, ao governo
francês, também afirmavam a inocência de Dreyfus, em vão.
Uma inocência também proclamada pelo imperador Guilherme
e confirmada quando Schwartzkoppen (o adido militar alemão)
foi convocado a Berlin assim que Esterhazy foi acusado por
Mathieu Dreyfus (irmão do condenado). O Estado-Maior se
manteve contra a reabertura do processo. Alguém está
ocupado com a cobertura de Esterhazy. Documentos secretos
são transmitidos a ele para a sua defesa, e até mesmo sua
caligrafia não chega a ser autorizada a ser comparada com a
da "lista".
'Assim protegido, o vilão Esterhazy torna-se suficientemente
audacioso para pedir sua presença diante de um Conselho de
Guerra. Lá, ele é unanimemente absolvido em 17 de janeiro de
1898, após uma deliberação que durou apenas três minutos".
Devemos mencionar que, alguns meses depois, quando o
coronel Henry foi condenado por falsificação de documentos
em uma tentativa de esconder uma verdade óbvia, houve a
demissão do chefe do Estado-Maior e a queda dos ministros.
Detido em Mont Valerien, Henry cometeu suicido cortando o
pescoço e, assim, assinou com seu próprio sangue sua
confissão de culpa. Em dezembro de 1898, esta nota semioficial
foi publicada pela imprensa germânica: 'As declarações
do governo imperial determinam que nenhuma autoridade
alemã, superior ou inferior, teve qualquer tipo de relações com
Dreyfus. Portanto, do ponto de vista alemão, não vemos
qualquer inconveniente com relação à publicação integral do
arquivo secreto"
Finalmente, a reabertura inevitável do caso foi decidida pela
Corte Suprema. Dreyfus precisou se apresentar diante do
Conselho de Guerra em Rennes, em 3 de julho de 1899, e este
foi o começo de uma nova tortura. "Ele não poderia imaginar
que se defrontaria com um ódio ainda mais virulento do que
quando caiu e que seus ex-chefes, os quais conspiravam para
colocá-lo de novo no caminho para a Ilha do Diabo, não teriam
piedade dele, desafortunado, pobre criatura, que pensava já ter
suportado todo o sofrimento deste mundo". 'Assim é que",
escreveu o abade Brugerette, "o Conselho de Guerra em
Rennes somente acrescentaria uma nova injustiça à iniqüidade
do julgamento de 1894. A ilegalidade deste julgamento, a culpa
de Esterhazy e as manobras criminosas de Henry se tornaram
patentes durante as 29 sessões daquele julgamento de
Rennes. O Conselho de Guerra, no entanto, julgaria Dreyfus
por outras acusações de espionagem, as quais nunca haviam
sido causa de uma acusação ou relatório. Todos os
vazamentos anteriores seriam a ele atribuídos e vários
documentos seriam forjados. Finalmente, e contra toda a nossa
tradição legalista, exigiriam que o próprio Dreyfus provasse que
tais documentos ou papéis não haviam sido feitos por ele,
como se não mais coubesse à acusação a tarefa de provar o
crime".
A parcialidade dos acusadores de Dreyfus era tão óbvia que a
opinião pública fora da França despertou. Na Alemanha, o
semi-oficial Cologne Gazeffe publicou, em 16 e 29 de agosto,
no meio do julgamento, dois artigos em que podemos ler a
seguinte frase: "Se, após as declarações do governo alemão e
dos debates da Corte Superior na França, alguém ainda
acreditar que Dreyfus é culpado, podemos apenas responder a
essa pessoa que deve estar mentalmente doente ou que
conscientemente quer a condenação de um inocente".
O ódio, o absurdo e o fanatismo não estavam desarmados para
essa batalha. Ainda outras novas falsificações foram usadas,
substituindo aquelas que haviam perdido o seu crédito.
Resumindo, tudo não passava de uma sinistra palhaçada. Ao
final, para Dreyfus, surgiu a condenação a dez anos de
detenção, com circunstâncias paliativas! "Este julgamento
desastroso provocou um estupor indignado por todo o mundo.
A França foi desprezada. Quem poderia ter imaginado pesar
tão terrível?", exclamou Clemenceau, por ocasião da leitura
dos jornais alemães e franceses.
A misericórdia era indispensável. Dreyfus aceitou-a para
"continuar a viver", disse, "e buscar o reverso do terrível erro
militar do qual havia sido vítima". Para este reverso, não
adiantava contar com a justiça dos Conselhos de Guerra. Essa
justiça já tinha dado provas do seu trabalho! Ela só pôde vir
novamente da Corte máxima de apelação que, após
minuciosas investigações e longos debates, anulou para
sempre o ver edito de Rennes. Alguns dias depois, a
Assembléia e o Senado, por um voto solene, reincorporaram
Dreyfus ao Exército: Dreyfus, a quem havia sido conferida a
Legião de Honra, estava finalmente reerguido diante da
nação".
Essa mudança final, obtida com tanto trabalho, deveu-se aos
homens "honestos e corajosos", tal qual sonhava o inocente da
Ilha do Diabo. O número deles cresceu cada vez mais na
medida em que a verdade vinha à tona. Após a absolvição
ligeira do traidor Esterhazy por um Conselho de Guerra em
janeiro de 1898, Émile Zola publicou na Aurore, a publicação
de Clemenceau, sua famosa carta-aberta J'accuse: 'Acuso o
primeiro Conselho de Guerra de ter violado a lei através da
condenação de um réu baseada em alguns documentos que
permaneceram secretos, e acuso o segundo Conselho de
Guerra de haver coberto esta ilegalidade e cometer também
um crime judicial ao absolver conscientemente um culpado".
Os "cavaleiros" de nossa famosa Companhia, entretanto,
estavam de vigia para calar qualquer coisa que pudesse
esclarecer o público. Uma acusação do deputado católico De
Mun trouxe Zola diante da Corte Assize de Sena, e o corajoso
escritor foi condenado a um ano de prisão, a pena máxima,
como conseqüência desse julgamento iníquo.
A opinião pública havia sido enganada tão bem pelas
manifestações de protesto dos clérico-nacionalistas que as
eleições de maio de 1898 foram favoráveis a eles. A revelação
pública das falsificações, a demissão do chefe do Estado-Maior
e a parcialidade criminal evidente dos juizes, no entanto,
abriram os olhos daqueles que sinceramente buscavam a
verdade cada vez mais. Estes, porém, pertenciam quase
exclusivamente aos grupos protestantes, judeus e leigos.
"Na França, os católicos do lado de Dreyfus eram poucos e
distantes; dentre eles, poucos eram proeminentes. As ações
dessas poucas pessoas não causaram muita agitação. A
conspiração do silêncio os envolvia".
"Muitos padres e bispos mantinham-se convencidos da culpa
de Dreyfus", escreveu o abade Brugerette. George Sorel
também declarava: "Enquanto o caso Dreyfus trouxe divisão
entre todos os grupos sociais, o mundo católico estava
absolutamente unido contra a reabertura do processo". O
próprio Peguy admite que "todas as forças políticas da Igreja
tinham sido levantadas contra Dreyfus". Será que devemos
lembrar as listas de subscrições abertas pelo Libre Parole e
pelo La Croix em favor da viúva do falsificador Henry, o qual
havia cometido suicídio? Os nomes dos padres subscritos
eram freqüentemente acompanhados de "comentários não
muito evangélicos", conforme nos diz Adrien Dansette, que cita
o seguinte: "Um certo abade Cros pediu um pequeno tapete de
quarto feito de pele judia, para poder fazer estamparias dia e
noite; um jovem padre gostaria de arrebentar o nariz de
Reinach com seu salto; três padres adorariam esbofetear a
face imunda do judeu Reinach".
Somente o clero secular mantinha ainda alguma reserva. Nas
congregações, as coisas eram mais violentas. A 15 de julho de
1898, o dia de distribuição de prêmios no Colégio de Arcueil,
presidido pelo generalíssimo Lamont (vice-presidente do
Conselho Superior de Guerra), o padre Didon, reitor da Escola
Albert-le-Grand, fez um discurso violento no qual advogava o
uso da violência contra os homens cujo crime havia sido a
denúncia corajosa de um erro militar. "Será que devemos",
disse o monge eloqüente, "deixar os infelizes se safarem? É
claro que não! O inimigo é o intelectualismo que finge
desprezar a força, e civis que querem subjugar os militares.
Quando a persuasão falhar, quando o amor se tornar inócuo,
devemos levantar nossa espada, espalhar o terror, cortar
cabeças, fazer guerra, atacar." Esse discurso parecia um
desafio contra todos os simpatizantes daquele infeliz
condenado".
Quantos destes discursos, no entanto, já ouvimos desde
então? Convocações a repressões sangrentas, vindas de um
clero gentil, especialmente durante a ocupação alemã! Pelo
grito de alerta de ódio contra o intelectualismo, podemos
encontrar o eco perfeito nesta declaração de um certo general:
"Quando alguém fala de inteligência, saco do meu revólver!"
Destruir o pensamento pela força física é um princípio da Igreja
Romana nunca alterado. O abade Brugerette pensa, no
entanto, sobre o fato de nada haver perturbado a crença do
clero da culpa de Dreyfus: "Um evento tão grande e dramático,
vindo como um furacão em um céu azul e trazendo à tona o
departamento de falsificações que operava no Estado-Maior,
deve ter aberto os olhos, até mesmo daqueles que não
queriam conhecer a verdade. Refiro-me à descoberta das
falsificações realizadas por Henry."
"Já não seria a ocasião para o clero francês e os católicos
repudiarem um erro que já havia chegado longe demais? Os
padres e os fiéis poderiam ter se alinhado, tais quais os
trabalhadores mencionados pelos evangelhos, para aumentar
as fileiras dos defensores da justiça e da verdade. Os fatos
mais evidentes, no entanto, nem sempre esclarecem as
mentes dominadas por certos preconceitos, pois estes são
contrários à análise e, por natureza, se revoltaram contra as
evidências".
De qualquer maneira, incontáveis esforços foram feitos para
manter os católicos no erro! Poderiam eles imaginar que eram
escandalosamente enganados por uma imprensa que
teimosamente escondia todas as provas da inocência, todos os
testemunhos favoráveis ao condenado da Ilha do Diabo, e
também buscavam impedir o curso da justiça de todas as
formas?"(94) À frente dessa imprensa estava La Libre Parole,
criada, conforme já vimos, com a ajuda do padre jesuíta du
Lac, e La Croix, do padre "assuncionista" Bailly. Como a
Ordem da 'Assunção" era uma "filial disfarçada" da Companhia
de Jesus, devemos, portanto, atribuir a esta o início e a
manutenção da campanha anti-Dreyfus.
Uma testemunha não muito suspeita, o padre Lecanuet,
escreve claramente: 'As congregações, e em especial os
jesuítas, são denunciados pelos historiadores do caso. E, neste
momento, devemos admitir que os jesuítas deram o primeiro
tiro com uma temeridade muito impensada".
"Quase todos os jornais de província católicos, como por
exemplo o Nouvelliste, de Lyon, tão informativos e muito lidos,
tomarão parte nessa trama obscura contra a verdade e a
justiça. Parece que o lema passava por impedir a luz de entrar
e manter o público na escuridão."
Na realidade, seria necessária uma cegueira muito peculiar que
não discernisse, por detrás do furor demonstrado pelo La Croix
em Paris e nas províncias, o tal lema mencionado pelo abade
Brugerette. Seria também muita ingenuidade não conhecer sua
origem.
Adnen Dansette também diz: "É a Ordem assuncionista, em
sua totalidade, e com ela a Igreja, que estão expostas pela
campanha do La Croix. O padre Bailly gaba-se de que o "Santo
Papa" o aprova."
De fato, não há qualquer dúvida a respeito dessa aprovação!
Os jesuítas, usando o nome emprestado dos "assuncionistas",
não são os instrumentos políticos do papado desde a sua
fundação? A história espalhada, a qual é repetida por
historiadores apologistas, de que Leão XIII tinha uma aparente
"moderação" com relação aos diretores do La Croix, não passa
de uma piada. Trata-se de um truque clássico, que não perde
sua eficiência nos dias atuais, pois ainda existem pessoas que
acreditam em um certo tipo de "independência" da voz oficial
da Santa Sé!
Vejamos agora o que foi publicado na própria Roma pela Civilta
Cattolica, a publicação oficial dos jesuítas, sob o título de O
Caso Dreyfus: 'A emancipação dos judeus tem sido o resultado
dos assim chamados princípios de 1789, que têm subjugado
tão fortemente todo o povo francês. Os judeus têm a República
nas suas mãos, que se tornou muito mais hebraica do que
francesa. Os judeus foram criados por Deus para serem
usados como espiões, sempre que houver alguma traição a ser
preparada. Não só na França, mas também na Alemanha,
Áustria e Itália, os judeus têm de ser expulsos da nação. Então,
com a grande harmonia dos tempos antigos a se reestabelecer,
as nações encontrarão novamente sua felicidade perdida".
Nos capítulos anteriores, fizemos um pequeno resumo da
"grande harmonia" e "felicidade" vividas pelas nações nas
quais os filhos de Loyola ouviam as confissões e inspiravam os
reis. Tal qual acabamos de ver, a "harmonia" também reinou
quando eles se tornaram confessores e conselheiros de chefes
do Estado-Maior.
De acordo com o abade Brugerette, o general de Boisdeffre,
penitente do padre jesuíta du Lac, sentiu o mesmo amargor
que muitos outros antes, os quais haviam sido enganados
igualmente por esses "diretores de consciências". As
confissões do falsificador Henry o fizeram se demitir. "Sendo
um homem muito honesto, ele próprio diria que havia sido
"escandalosamente enganado", e aqueles que o conheciam
sabiam que se sentia amargurado com a trama da qual ele
próprio havia sido vítima".
O abade Brugerette acrescenta que tinha encerrado "todas as
formas de comunicação" com seu antigo confessor e "até
mesmo se recusado a vê-lo de novo quando estava morrendo".
Após ler tudo isso, escrito e publicado na Civilta Cattolica, seria
desnecessário nos estendermos ainda mais sobre a culpa da
Ordem. Podemos apenas concordar com o que Joseph
Reinach disse na época: "Conforme vemos, foram os jesuítas
que criaram este caso obscuro. Para eles, Dreyfus é só um
pretexto; o que querem, e o admitem, é estrangular o laicismo
e redirecionar a Revolução Francesa".
Devido ao fato de que alguns ainda insistem, contra todas as
evidências, que poderia haver uma possível discordância entre
o papa e seu exército secreto, entre as intenções de um e as
ações do outro, é fácil mostrar o vazio de tal suposição. O caso
de Bailly é muito esclarecedor sobre esse aspecto. O que
podemos ler no La Croix de 29 de maio de 1956? Nada menos
do que isto: "Como já anunciamos, Sua Eminência o Cardeal
Feltin ordenou uma pesquisa nos escritos do padre Bailly; ele
foi o fundador de nossa publicação e da Maison de Ia Bonne
Press."
Aqui está o texto daquela ordenança, datado de 15 de maio de
1956: "Eu, Maurice Feltin, pela graça divina e da Santa Sé
apostólica, cardeal chefe da Santa Igreja Romana, cujo título é
Santa Maria da Paz, arcebispo de Paris. Em vista do plano
submetido pela Congregação dos Augustinianos da Assunção
e aprovado por nós, de introduzir em Roma a causa do servo
de Deus Vincent-de-Paul Bailly, fundador de La Croix e Bonne
Press. Em vista das disposições e instruções da Santa Sé com
relação ao ato de beatificação e busca dos escritos dos servos
de Deus, nós ordenamos o seguinte: Qualquer pessoa que
conheceu este servo de Deus ou que possa nos dizer algo em
especial sobre sua vida, deve nos informar sobre ele. Qualquer
um que possua escritos deste servo de Deus deve repassá-los
antes de 30 de setembro de 1956, seja por livros escritos,
notas manuscritas, cartas, memorandos, até mesmo instruções
ou conselhos não escritos, mas por ele ditados. Por todas
essas comunicações, designamos Canon Dubois, secretário do
arcebispado e promotor de fé, para esta causa."
Eis aqui um servo de Deus bem no caminho para receber o
prêmio justo por seus serviços leais na forma de uma auréola.
Ousamos dizer, no que tange aos seus "escritos" tão
cuidadosamente pesquisados, que o "promotor de fé" terá
muito para escolher. Quanto ao material "impresso", a coleção
do La Croix, especialmente entre 1895 e 1899, fornecerá os
materiais mais "edificantes."
'A atitude deles (dos jornais católicos), e especialmente do La
Croix, constitue no momento, para todas as mentes
esclarecidas e concretas, o que Paul Violet, membro católico
do instituto, chama de escândalo indescritível (e este
escândalo gera, no Caso Dreyfus, os mais chocantes erros): a
mentira e o crime contra a verdade, a honestidade e a justiça.
A Corte de Roma, sabe disso, tanto quanto todas as outras
Cortes da Europa."
A Corte de Roma realmente sabia mais do que qualquer outra!
Como já vimos, em 1956 ela não havia se esquecido das
façanhas "santas" desse "servo de Deus", pois estava
preparando sua beatificação. Sem dúvida, o promotor de fé
creditava a esse futuro "santo" aquelas famosas listas de
subscrições em favor da viúva do falsificador Henry, sobre
quem o abade Brugerette diz: "Hoje, quando lemos aqueles
pedidos pelo retorno da Inquisição, pela perseguição aos
judeus e pelo assassinato dos defensores de Dreyfus, é como
se estivéssemos ouvindo as imaginações delirantes de
fanáticos selvagens e grotescos. Estes, no entanto, nos são
apresentados pelo La Croix como sendo um espetáculo
grandioso, reconfortante e digno de aplausos".
O padre Bailly não teve o prazer de ver realizar durante sua
vida todos esses "santos desejos" com relação aos judeus, o
que só viria a ser possível com esses fanáticos selvagens sob
a suástica.
Ele só poderia desfrutar desse espetáculo "grandioso,
reconfortante e digno de aplausos" nos céus, apesar de lá, os
espetáculos desse tipo serem "muito comuns", de acordo com
os "estudiosos" e, especialmente, Santo Tomás de Aquino, o
"anjo" da Escola: 'A fim de ajudar os santos a desfrutarem suas
bênçãos ainda mais, e aumentar suas ações de graças a Deus,
a eles é permitido contemplarem em todo o seu absurdo a
tortura dos homens sem Deus. Os santos se regozijarão nos
tormentos dos homens sem Deus" (Sancti de poenis impiorum
gaudebunt).
Conforme podemos constatar, o padre Bailly, fundador do La
Croix, tinha feito tudo que é necessário, segundo afirmavam,
para se fazer um santo: perseguir os inocentes e amaldiçoar
aqueles que os defendiam; entregá-los para serem
assassinados; sustentar com todas as forças a mentira e a
iniqüidade e provocar a discórdia e o ódio. Estes são, aos olhos
da Igreja Romana, realizações sólidas para a "glória", e
podemos entender seu desejo de outorgar a auréola ao autor
dessas façanhas tão "devotas".
A seguinte questão, no entanto, é oportuna: Seria esse "servo
de Deus" um trabalhador padrão também? Porque sabemos
que, para merecer tal promoção, deve-se ter realizado milagres
muito bem "documentados". Quais foram, afinal, os milagres
realizados pelo diretor-fundador do La Croix? Seria a
transmutação, para os seus leitores, do preto em branco e do
branco em preto, apresentando uma mentira como sendo
verdade e a verdade como mentira?
Naturalmente, mas um "milagre" ainda maior foi o fato de que
ele persuadiu membros do Estado-Maior (e então o público)
que, após terem cometido o erro inicial, e quando esse erro foi
descoberto, foi pela honra deles que negaram as evidências,
transformando dessa forma o erro em abuso de poder!
"Errare humanum est;perseverare diabolicum". O "servo de
Deus" não estava prestando muita atenção neste provérbio. Ao
invés de se deixar inspirar por ele, o escondeu sob sua batina.
De fato, o "mea culpa" é para os simples fiéis, e não para os
eclesiásticos. Também não é, como acabamos de ver, para os
chefes militares que tinham confessores jesuítas. O resultado -
pretendido - era a exaltação das paixões partidárias e a divisão
do povo francês. Isso é confirmado pelo eminente historiador
Pierre Gaxotte: "O Caso Dreyfus foi um decisivo momento de
virada. Julgado por oficiais, envolveu a instituição militar. O
Caso se expandiu, tornou-se num conflito político,
desestruturou famílias e dividiu a França em duas. Teve os
efeitos de uma guerra religiosa. Criou o ódio contra as
corporações de oficiais e deflagrou o anti-militarismo".
Quando pensamos na Europa daquela época, a Alemanha
superequipada com suas armas e seus dois aliados; quando
lembramos a responsabilidade do Vaticano no início do conflito
de 1914, não podemos deixar de perceber que a diminuição do
potencial militar da França havia sido premeditada. Como
poderíamos deixar de notar que, de fato, o Caso Dreyfus
começou em 1894, o ano da Aliança Franco-Russa? Naquele
período, o porta-voz do Vaticano chegou a falar demais sobre o
acordo com poder de cisma o que, a seus olhos, era um
escândalo.
Até mesmo hoje, "um prelado de Sua Santidade", monsenhor
Cristiani, ousou escrever: "Através de políticas misteriosamente
; cegas e doentes, nosso país parece sentir prazer em provocar
inclinações guerreiras em seus formidáveis vizinhos (a
Alemanha). A aliança franco-russa parecia ameaçar a
Alemanha com o isolamento".
Para o "respeitável prelado", a Tríplice Aliança (Alemanha,
Itália, Austro-Hungria) não era uma ameaça a ninguém e a
França estava errada em se isolar diante de tal bloco. Com três
contra um, o golpe teria sido mais fácil e nosso "Santo Papa"
não teria que lamentar, em 1918, a derrota de seus
"campeões".
Os Anos Antes da Guerra 1900 - 1914
Escreveu o abade Brugerette: "Sob a imagem de Jesus
crucificado, símbolo divino da idéia da justiça, La Croix tinha
apaixonadamente cooperado com o trabalho de fraude e crime
contra a verdade, a honestidade e a justiça". A justiça, no
entanto, tinha vencido ao final. O abade Fremont, que não
temia mencionar a cruzada sinistra liderada por Inocêncio III
contra os albigenses, quando se referiu ao caso parecia um
verdadeiro profeta: "Os católicos estão vencendo e pensam
que derrubarão a República por causa do ódio contra os
judeus. Temo, porém, que eles acabem por derrubar a si
próprios" .
Quando a opinião pública foi esclarecida, a reação foi fatal.
Ranc havia aprendido a lição do caso quando exclamou: 'A
República quebrará o poder das congregações, ou então será
estrangulada".
Em 1899, um ministro de "defesa da República" foi constituído.
O padre Picard, superior dos "assuncionistas", o padre Sailly,
diretor do La Croix, e outros dez membros daquela Ordem
foram levados a julgamento diante do Tribunal do Sena, por
quebra da lei de associações. A congregação dos
"assuncionistas" foi dissolvida. Waldek-Rousseau, presidente
do Conselho, declarou em um discurso pronunciado em
Toulouse, em 28 de outubro de 1900: "Dispersadas, mas não
suprimidas, as Ordens religiosas formaram-se novamente,
maiores em número e militância; cobrem o território com uma
rede de uma organização política cujas ligações são milhares e
muito bem costuradas, como viemos a observar em um
julgamento recente". Finalmente, em 1901 uma lei foi
aprovada, determinando que nenhuma congregação poderia
ser formada sem autorização, e que aquelas que não a
solicitassem dentro do tempo legal seriam automaticamente
dissolvidas.
Serão esses regulamentos, muito naturais da parte de
autoridades públicas cuja função é acompanhar as
associações fundadas em seu território, que serão
considerados um abuso intolerável por parte dos católicos. 'A
casa de um homem é o seu castelo", diz o ditado; a Igreja, no
entanto, não entende assim: a lei comum não é para ela.
A resistência dos sacerdotes quanto à aplicação da lei seria
suficiente para mostrar quão necessária era ela. Tal resistência
só viria a fortalecer a atitude do governo, especialmente sob o
ministro Combes; e a intransigência de Roma, especialmente
quando Pio X sucedeu a Leão XIII, conduziria à lei de 1904,
que aboliu as Ordens de ensino. Após isso, a disputa entre o
governo francês e a Santa Sé será constante.
A eleição do novo papa também foi feita em circunstâncias
significativas. "Leão XIII morreu em 20 de julho de 1903. O
conclave, que se reuniu para designar seu sucessor, após
várias votações, somou 29 votos para o cardeal Rampolla
(sendo que o mínimo para a eleição eram 42 votos), quando o
cardeal austríaco Puzyna se levantou e declarou que Sua
Majestade Apostólica o Imperador da Áustria, rei da Hungria,
foi oficialmente inspirado a excluir o secretário de Estado de
Leão XIII. Todos sabemos que o cardeal Rampolla era pró-
França."
O cardeal Sarto foi eleito, através da manobra austríaca, que
acabou por tomar o lugar do Espírito Santo para inspirar
cardeais do conclave. Esta eleição foi uma vitória dos jesuítas.
Na verdade, o novo pontífice, descrito como sendo uma
mistura de "padre de província e arcanjo com uma espada
apaixonada", era o tipo perfeito desejado pela Ordem. Vejamos
o que Adnen Dansette diz sobre o assunto: "Quando amamos
o papa, não limitamos o campo no qual ele pode e deve
exercer a sua vontade".
E ainda esta sua primeira conferência consistorial: "Sabemos
que chocaremos muitas pessoas quando declararmos que
estaremos necessariamente envolvidos em política. Qualquer
um, no entanto, que deseje julgar com justiça, pode ver que o
Soberano Pontífice, investido por Deus com uma autoridade
suprema, não tem o direito de separar a política do domínio da
fé e da mora".
Assim é que Pio X, no momento em que foi erguido ao "trono
de São Pedro", publicamente declarou que, para ele, a
autoridade do papa deveria ser sentida em todos os campos, e
que o clericalismo político não era apenas um direito, mas um
dever. Também acabou por escolher para seu secretário de
Estado um prelado espanhol, monsenhor Merry dei Vai, que
tinha 38 anos na época e, tanto quanto ele, era
apaixonadamente pró-Alemanha e anti-França.
Esse estado de espírito não é surpreendente quando lemos
estas palavras do abade Fremont: "Merry dei Vai, que tive a
oportunidade de encontrar no Colégio Romano, era o "pupilo
favorito dos jesuítas".
As relações entre a Santa Sé e a França logo sentiram os
efeitos dessa escolha. Primeiro, foi a indicação dos bispos pelo
poder civil que deflagrou um conflito. Antes da guerra de 1870,
a Santa Sé determinava os nomes dos novos bispos só após
terem sido indicados. O papa se reservava o direito, se não lhe
agradava algum nome, de o afastar do bispado pela recusa da
instituição canônica. As dificuldades eram enormes, pois os
governos, sob qualquer tipo de regime, eram cuidadosos em
eleger candidatos valiosos para o ofício episcopal".
Assim que Pio X se tornou papa, a maior parte das indicações
para novos bispos foi recusada por Roma. Além disso, o núncio
de Paris, Lorenzelli, era, como nos conta Dansette, "um teólogo
que havia se perdido pela política e era enlouquecidamente
hostil à França". Alguns dirão: "É só mais um a acrescentar na
lista! Mas tal escolha para um posto tão estratégico demonstra
claramente quais eram as intenções da Cúria Romana em
relação à França. Essa hostilidade sistemática viria a ser
exibida mais claramente em 1904, quando M. Loubet,
presidente da República, foi a Roma para retribuir uma visita
feita a ele em Paris algum tempo antes, pelo rei da Itália, Victor
Emmanuel III. M. Loubet desejou também ser recebido pelo
papa. A Cúria Romana, entretanto, produziu um suposto
"protocolo inevitável": O papa não poderia receber um chefe de
Estado que, ao visitar o rei da Itália em Roma, parecia
reconhecer como legítima a "usurpação" daquele antigo Estado
papal. Houve, no entanto, precedentes: Em 1888 e 1903, um
chefe de Estado (e não menos importante) havia sido recebido
pelo rei da Itália e pelo papa. É lógico que esse visitante não
era o presidente de uma República, mas o imperador alemão
Guilherme II. A mesma honra havia sido dada a Edward VII, rei
da Inglaterra, e ao czar.
A intenção de insulto dessa recusa ficou evidente e foi ainda
mais enfatizada por uma nota enviada por várias chancelarias
pelo secretário de Estado Merry dei Vai. Um autor católico, M.
Charles Ledre, escreveu sobre o assunto: 'A diplomacia
pontificai poderia ignorar o objetivo decisivo e importante que,
por detrás da visita do presidente Loubet a Roma, estava
tomando forma?"
É óbvio que o Vaticano sabia a respeito do plano de afastar a
Itália de seus parceiros da Tríplice Aliança, Alemanha e Austro-
Hungria, esses dois poderes germânicos considerados pela
Igreja Romana como sendo seus melhores braços seculares.
Este era o verdadeiro ponto de embate e foi, de fato, a razão
das freqüentes explosões nervosas do Vaticano.
Outros conflitos surgiram em relação aos bispos franceses,
considerados por Roma como excessivamente republicanos.
Finalmente o governo francês pôs um fim em 29 de julho de
1904 às "relações que se tornaram anuladas pela Santa Sé". A
quebra de relações diplomáticas fatalmente levaria, logo em
seguida, à separação da Igreja e do Estado. "Achamos normal,
hoje em dia", escreveu Adnen Dansette, "que a França
mantenha relações diplomáticas com a Santa Sé e que o
Estado e a Igreja vivam em regime de separação. As relações
diplomáticas são necessárias, pois a França deve ser
representada onde tenha interesses a defender, além de
qualquer consideração doutrinária. A separação é necessária,
pois em uma democracia fundada sobre a soberania de um
povo dividido por várias crenças, o Estado só deve à Igreja a
liberdade". O autor acrescenta: "Pelo menos, esta é a opinião
geral".
Nós só temos a concordar com essa opinião razoável, sem
esquecer, é lógico, que o papado nunca avalizaria tal coisa. A
Igreja Romana nunca deixou de proclamar sua proeminência
sobre a história civil, através de sua própria história, e pela
vontade de ser capaz de se impor abertamente em tempos
recentes, fez o máximo para se implantar com a ajuda de seu
exército secreto, a Companhia de Jesus. Além disso, foi
naquela época que o padre Wemz, o prior dessa Ordem,
escreveu: "O Estado está sob a jurisdição da Igreja; assim, a
autoridade secular está, na verdade, sob o jugo da autoridade j
eclesiástica e esta tem que ser obedecida".
Essa é a doutrina desses campeões intransigentes da
teocracia^ conselheiros e executores de suas próprias ordens,
que se fizerar indispensáveis ao Vaticano, tanto que hoje seria
absolutament^ impossível distinguir a menor diferença entre o
"Papa Negro" e "Papa Branco"; eles são praticamente o
mesmo.
Conforme podemos ver, o papado tinha feito tudo o que era
necessário para implantar essa convicção. Além disso, o
monsenhor Fruhwirth disse em 1914: 'A Alemanha é a base
sobre a qual o Santo Papa pode e deve estabelecer grandes
esperanças".
Quando nos referimos à política do Vaticano, simplesmente
queremos dizer a política dos jesuítas. Juntamente com muitos
outros observadores qualificados, o abade Fremont admite
essa verdade, como se segue: "Os jesuítas dominam o
Vaticano". Diante da oposição irredutível dos jesuítas (todopoderosos
na Igreja) contra a República, o Estado foi obrigado
a determinar a Lei da Separação, com várias emendas, de
1905 a 1908. Essa lei não se destinava a diminuir a riqueza e
os bens da Igreja, ou mesmo as construções para culto. Os
fiéis poderiam se reunir em associações locais, sob a direção
de um padre que os liderasse. O que Roma faria?
"Na encíclica Vehementer, de 11 de fevereiro de 1906, Pio X
condena o princípio de separação e o de associações locais.
Mas será que ele vai além dos princípios? "Saberemos em
breve.
Apesar do conselho do episcopado francês, ele rejeitou
qualquer acordo em 10 de agosto de 1906, na encíclica
Gravíssimo. Eis uma outra frustração para os católicos liberais:
"Quando penso", exclama Brunetiere, "que o que foi recusado
pelos católicos franceses, com certo conhecimento de que tal
recusa desencadearia uma guerra religiosa em nosso pobre
país que tanto precisa de paz, acabou sendo aceito pelos
católicos alemães, e que as "associações locais" têm operado
por lá há 30 anos para a satisfação geral, eu não posso evitar,
na posição de patriota e de católico, de sentir muita
indignação".
Houve algum problema, de fato, quando um inventário das
propriedades eclesiásticas foi feito, mas não uma guerra
religiosa. Mesmo assim, os ultramontanos estavam provocando
confusão. A população em geral ficou calma, quando algumas
das propriedades da Igreja foram devolvidas ao Estado por ela
mesma, que assim preferiu do que se submeter às medidas
conciliatórias determinadas por lei.
Teria, então, o escritor Brunetiere conseguido compreender
plenamente a razão para aquela diferença entre os católicos
franceses e os alemães, no tratamento dispensado pela Santa
Sé? A primeira guerra mundial viria a revelar todo o significado
disso.
Enquanto os jesuítas tinham efetivamente trabalhado, através
do Caso Dreyfus, para dividir o povo francês e enfraquecer o
prestígio de seu exército, na Alemanha eles estavam fazendo
exatamente o contrário. Bismark, que havia lançado no
passado o "Kultur Kampf" contra a Igreja Católica, estava
recebendo muitos favores dela. Isso é o que o autor católico
Joseph Rovan também explica: "Bismark será o primeiro
protestante a receber a Ordem de Cristo com jóias, uma das
honrarias máximas da Igreja. O governo alemão autoriza os
jornais devotos a publicarem o fato de que o chanceler estaria
pronto a apoiar efetivamente as pretensões do papa de uma
restauração parcial de sua autoridade temporal".
"Em 1886, o Centro (partido católico alemão) estava hostil aos
projetos militares apresentados por Bismark. Leão XIII interveio
nos assuntos internos alemães em favor de Bismark. Seu
secretário de Estado escreveu ao núncio de Munique: "Tendo
em consideração a próxima revisão da legislação religiosa que,
por termos razões para acreditar, será executada de forma
conciliatória, o Santo Papa deseja que o Centro promova, de
todas as formas possíveis, os projetos dos militares".
Isso é o que Joseph Rovan tem a dizer: 'A diplomacia alemã
interveio (já é um velho hábito) no Vaticano, para fazer com
que o papa exercesse a sua influência no Zentrum (partido
católico), de forma a favorecer os projetos militares. Os
católicos alemães falarão sobre a grande "missão política" da
Alemanha que é, ao mesmo tempo, uma missão moral
universal. O Zentrum torna-se assim responsável pelo
prolongamento de um reino que, entre estrondos que ocultam
fraquezas, discursos de guerra sobre armamentos navais e
coisas do gênero, acabariam por levar a Alemanha para a
catástrofe. O Zentrum entra na guerra (de 1914) convencido da
honestidade, pureza e integridade moral dos líderes de seu
país, do acordo dos seus planos e programas com os planos
da justiça eterna.
O Ciclo Infernal
"Se a guerra começar (...) não procurem a culpa fora do
Vaticano, pois ele será o provocador oculto"
A Primeira Guerra Mundial
A fúria levantada no Vaticano pela aliança franco-russa e tão
bem comprovada no Caso Dreyfus, ao ódio que a união francoitaliana
incitou e que o incidente com Loubet prova claramente,
acrescentou-se um ressentimento ainda mais amargo causado
pela Entente Cordiale com a Inglaterra. A França tinha
firmemente decidido não se opor sozinha ao seu "formidável
vizinho", a Áustria-Hungria. Os políticos, "tão cegos e doentes",
de acordo com monsenhor Cristiani, eram vistos de forma
extremamente desfavorável pelo "santo" catolicismo. Além de
pôr em perigo o "cuidadoso sangramento" que a França "sem
Deus" precisava, esses políticos eram um apoio inestimável
para a Rússia do cisma; essa ovelha perdida, cujo retorno ao
rebanho do catolicismo romano nunca tinha deixado de existir
na esperança e no sonho, apesar de sua realização implicar
em uma guerra.
Naquele momento, a Igreja Ortodoxa estava firmemente
implantada nos Bálcãs, especialmente na Sérvia, onde o
Tratado de Bucarest, ao terminar o conflito dos Bálcãs, havia
feito dela um centro de atração de eslavos do Sul e em
particular daqueles que estavam sob o jugo da Áustria. Os
planos ambiciosos do Vaticano e o imperialismo apostólico dos
Hapsburg estavam, portanto, em perfeita sintonia, tal como era
no passado. Para Roma e para Viena, o poder crescente da
Sérvia fazia desta um inimigo a derrubar.
Isso se torna efetivamente claro em um documento diplomático
encontrado nos arquivos austro-húngaros, o qual relata, para o
conhecimento do ministro austríaco Berchtold, as
conversações mantidas entre o príncipe Schonburg e o
Vaticano, em outubro/ novembro de 1913: "Entre outros
assuntos discutidos primeiramente com o cardealsecretário de
Estado (Merry dei Vai), a questão da Sérvia foi levantada,
conforme já antecipamos. O cardeal, de início, expressou seu
contentamento com relação à nossa atitude firme e oportuna
tomada nos últimos meses. Durante a audiência que tive com
Sua Santidade, o Santo Papa, o qual começou a conversa com
a menção dos passos enérgicos tomados por nós em Belgrado,
ele chegou a fazer um comentário bem característico: "Com
certeza, poderia ter sido melhor", disse Sua Santidade, "se a
Austro-Hungria tivesse punido os sérvios por todos os erros
que haviam cometido"
Assim, os sentimentos pró-guerra de Pio X já tinham sido
claramente expressos em 1913. Não há nada de
surpreendente nisso, quando lembramos de quem são os
inspiradores da política de Roma. "O que é que se esperava
dos Hapsburgs? Que punissem a Sérvia, uma nação ortodoxa.
O prestígio da Austro-Hungria, destes Hapsburgs que, à
semelhança dos Bourbons de Espanha eram os últimos
suportes dos jesuítas, e em especial o prestígio do herdeiro,
François-Ferdinand, o homem deles, havia aumentado muito.
Para Roma, o caso tornou-se de importância quase religiosa;
uma vitória da monarquia apostólica sobre o czarismo poderia
ser considerada uma vitória de Roma sobre o cisma do Leste".
O caso se arrastava sem maiores conseqüências em 1913. Em
28 de junho de 1914, o arquiduque Franco is-Fendinand foi
assassinado em Sarajevo. O governo sérvio não teve nada a
ver com esse crime, cometido por um estudante macedônio,
mas essa seria a desculpa perfeita para que o imperador
François-Joseph começasse com as hostilidades.
"O conde Sforza afirma que o principal problema seria
persuadir François-Joseph da necessidade da guerra. O
conselho do papa e do seu ministro era o que poderia ter maior
influência sobre ele". * Esse conselho foi, logicamente, dado ao
imperador, sendo do tipo que poderia ser esperado desse papa
e seu ministro, "pupilo favorito dos jesuítas". Enquanto a Sérvia
tentava manter a paz, cedendo a todos os pedidos do governo
austríaco, o qual havia mandado uma nota ameaçadora a
Belgrado, o conde Palffy, representante austríaco no Vaticano,
fornecia a seu ministro Berchtold, em 29 de julho, um resumo
das conversas mantidas no dia 27 com o cardeal-secretário de
Estado, Merry dei Vai. Essas conversas foram sobre "as
questões que estão afetando a Europa neste momento". O
diplomata negava com desprezo os rumores "fantasiosos"
sobre a suposta intervenção do papa, o qual aparentemente
implorava ao imperador para salvar as nações cristãs dos
horrores da guerra.
Tendo lidado com essa suposição "absurda", ele expõe a
"verdadeira opinião da Cúria", assim comunicada pelo
secretário de Estado: "Seria impossível detectar qualquer
espírito de indulgência e conciliação nas palavras de Sua
Eminência. É verdade que descreveu a nota à Sérvia como
sendo muito severa; ele, entretanto, a aprovava inteiramente.
Ao mesmo tempo e indiretamente, expressava o desejo de que
a Monarquia terminasse com o trabalho. "De fato", acrescentou
o cardeal, "é uma pena que a Sérvia não tenha sido humilhada
muito antes, como poderia ter sido feito no passado, sem
tantos outros riscos adicionais". Essa declaração reflete os
desejos do papa que, durante os últimos anos, tem expressado
desgosto pela Hungria ter negligenciado a "punição" de seu
vizinho perigoso do Danúbio".
Isso seguramente é o oposto dos rumores "fantasiosos" sobre
uma intervenção papal em favor da paz. O diplomata austríaco
não foi o único a relatar a "verdadeira opinião" do pontífice
romano e de seu ministro. Um dia antes, em 26 de julho, o
barão Ritter, representante comercial da Bavária no Vaticano,
havia escrito ao seu governo: "O papa concorda que a Áustria
esteja lidando de forma severa com a Sérvia. Ele não pensa
muito a respeito dos exércitos francês e russo; sua opinião é de
que não poderiam fazer muita coisa em uma guerra contra a
Alemanha. O cardeal secretário de Estado não vê outro
momento, senão agora, para que a Áustria possa entrar em
guerra".
Conforme podemos ver, a Santa Sé estava plenamente
consciente dos "grandes riscos" representados por um conflito
entre a Áustria e a Sérvia; fez, no entanto, tudo o que estava
ao seu alcance para encorajar a guerra. O "Santo Papa" e seus
conselheiros jesuítas não estavam preocupados com o
sofrimento das "nações cristãs"! Não era a primeira vez que
essas nações estavam sendo usadas para o benefício da
política romana. A oportunidade desejada havia chegado,
finalmente, para se usar o braço secular alemão contra a
Rússia ortodoxa, a França "sem Deus", que precisava de um
"sangramento prolongado" e, de "bonificação", contra a
Inglaterra "herege". Tudo parecia prometer uma guerra "viva e
feliz".
Pio X não enxergou os desdobramentos que acabaram por
resultar contra todas as suas previsões. Ele morreu no princípio
do conflito, em 20 de agosto de 1914. Quarenta anos depois,
entretanto, Pio XII canonizou este "augusto pontífice", e o
Precis d'Histoire Sainte (Resumo da História Santa), usado
para catecismo paroquial, dedica a ele essas palavras
"edificantes": "Pio X fez o que pôde para evitar o começo da
guerra de 1914 e morreu de angústia ao antever os sofrimentos
que ela deflagraria".
Se fosse uma comédia, não haveria palavras melhores do que
essas! Alguns anos antes de 1914, Yves Guyot, um verdadeiro
"profeta", disse: "Se a guerra começar, ouçam vocês, homens
que pensam que a Igreja Romana é o símbolo da ordem e da
paz: Não procurem a culpa fora do Vaticano, pois ele será o
provocador oculto, à semelhança da guerra de 1870"
Provocador da calúnia, o Vaticano viria a apoiar os seus
"campeões" não menos habilidosos, os austro-húngaros,
durante toda a guerra. A excursão militar na França, que o
kaiser se gabava que faria, foi detida no Marne e o agressor
voltou à defensiva, após todos os seus furiosos ataques. A
diplomacia papal lhe trouxe, no entanto, toda a ajuda possível,
e isso não chega a surpreender quando consideramos que a
"Providência Divina" parecia adorar favorecer os impérios
centrais.
O cardeal Rampolla, considerado pró-França (e por essa
mesma razão afastado do trono papal por um veto da Áustria),
não se encontrava mais entre aqueles que poderiam se tornar
papa, pois havia morrido alguns meses antes de Pio X, morte
que parece ter sido muito oportuna.
Isso diz respeito à intervenção de "Deus": Conforme havia
prometido, mesmo antes da votação acontecer, o novo papa,
Benedito XV, indicou o cardeal Ferrata para secretário de
Estado. Mas o cardeal não teve tempo nem mesmo de assumir
todas as suas funções. Tendo sido empossado no final de
setembro de 1914, morreu subitamente em 20 de outubro,
vítima de uma "terrível indisposição", após saborear um leve
refresco.
"Ele estava sentado em seu escritório quando, de repente,
ficou extremamente doente. Desfaleceu como se um
relâmpago tivesse caído sobre ele. Os criados correram para
ajudar. O médico, que havia sido chamado imediatamente,
percebeu a gravidade da situação e pediu uma junta médica
urgente. A exemplo de Ferrata, ele já havia compreendido que
não havia esperanças... Implorou para que aquele homem não
fosse deixado ali, a morrer no Vaticano. Seis médicos o
examinaram e se recusaram a emitir um boletim oficial; o que
acabou por ser publicado não levava nenhuma assinatura".
Ele não sofria de doença ou enfermidades. "O escândalo dessa
morte foi tamanho, que uma sindicância não poderia ser
evitada. Descobriram que uma jarra havia sido quebrada no
escritório. A presença de vidro moído no açucareiro usado pelo
cardeal foi explicada dessa forma tão simples. O fato do açúcar
ser granulado foi muito útil! A sindicância acabou por aí".
O abade Daniel acrescenta que a partida repentina, alguns dias
depois, do criado do cardeal morto provocou uma série de
comentários, especialmente porque ele tinha aparentemente
sido criado também de monsenhor. Von Gerlach, antes de seu
mestre entrar para as ordens sagradas. Esse prelado
germânico, um famoso espião, viria a fugir de Roma em 1916.
Seria preso e acusado de sabotagem do navio de guerra
italiano "Leonardo da Vinci", o qual explodiu na Baía de
Tarento, levando consigo 21 oficiais e 221 marinheiros. "Seu
julgamento foi reaberto em 1919. Von Gerlach não se
apresentou e foi condenado a 20 anos de trabalhos forçados".
Através do caso desse "camareiro participativo", editor do
Osservatore Romano, podemos ter uma clara idéia da
concepção de mundo das altas esferas do Vaticano.
Novamente o abade Brugerette descreve aos "assessores da
Santa Sé": "Doutores ou eclesiásticos, eles não desistem
diante de nenhum obstáculo em sua luta para conseguir
impressionar o clero italiano e o mundo católico em Roma, com
o respeito e a admiração pelo exército alemão, e o desprezo e
ódio pela França.
Ferrata, que favorecia a neutralidade, havia morrido no
momento exato, e o cardeal Gaspam se tornou secretário de
Estado; em perfeita sintonia com Benedito XV, fez o seu
melhor para servir aos interesses dos impérios centrais.
"Levando em conta tudo isso, não chega a surpreender que o
papa Benedito XV, nos meses seguintes, tenha trabalhado
tanto para manter a Itália no nível de intervenção que melhor
servisse aos jesuítas, amigos dos Hapsburgs".
Charles Ledre, outro autor católico, confirma: "Em duas
ocasiões, mencionadas em alguns famosos artigos da La
Revue de Paris, a Santa Sé, ao convidar a Itália e
posteriormente os Estados Unidos a se manterem afastados da
guerra, não quis apenas antecipar o final do conflito. De acordo
com o abade Brugerette, servia aos interesses de nossos
inimigos e trabalhava contra nós".
As ações dos jesuítas e, portanto, as ações do Vaticano, não
eram sentidas apenas na Itália e nos Estados Unidos. De
qualquer forma e em todos os lugares havia sido favorável a
eles. "Não se assustem de ver a diplomacia pontificai ocupada
desde o início em dificultar o nosso suprimento de comida e
dissuadindo os neutros de se ligarem ao nosso lado, de forma
a quebrar os laços da Entente. Não se desprezou nada que
pudesse ajudar nessa grande empreitada e que trouxesse a
paz pela fraqueza do aliados.
Ainda havia pior: solicitações por uma paz separada. Entre os
dias 2 e 10 de janeiro de 1916, alguns católicos alemães foram
à Bélgica para pregar (diziam ser em nome do papa) e pedir
por uma paz separada. Os bispos belgas os acusaram de
mentir, mas o núncio e o papa se mantiveram em silêncio... 'A
Santa Sé pensou em reunir a França e a Áustria; assim
esperava fazer a França assinar uma paz separada ou
convencê-la de que, com seus aliados, deveria negociar uma
paz geral. Algumas semanas depois, em 31 de março de 1917,
o príncipe Sixto de Bourbon deu a famosa carta do imperador
Carlos ao presidente da República. Como a manobra havia
falhado nos lados dos Alpes, tinha de ser tentada em algum
outro lugar; na Inglaterra, na América e em especial, na Itália...
Quebrar as forças temporais da "Entente", de forma a deter os
ataques ofensivos, arruinar seu prestígio moral para
enfraquecer sua coragem e levá-la a negociar; essa foi a
política de Benedito XV e todos os esforços da sua
imparcialidade sempre foram e ainda são para nos paralisar".
Isso foi escrito por um famoso católico, Louis Canet; e isto pelo
abade Brugerette: "Ficamos sabendo somente quatro anos
depois, através das declarações de Erzberger, publicadas no
Germânia de 22 de abril de 1921, que a proposta de paz
defendida pelo papa em agosto de 1917 havia sido precedida
por um acordo secreto entre a Santa Sé e a Alemanha".
Outro ponto interessante é que o diplomata eclesiástico
negociador desse "acordo secreto" era o núncio em Munique,
monsenhor Pacelli, futuro Pio XII. Um de seus apologistas, o
jesuíta Femesoll, escreveu: "Em 28 de maio de 1917, o
monsenhor Pacelli apresentou suas credenciais ao rei da
Bavária. Fez o que pôde para se envolver com a cooperação
de William II e o chanceler Bethmann-Holveg. Em 29 de junho,
o monsenhor Pacelli foi solenemente recebido pelo imperador
William II em Kreuznach".
O resultado dessa audiência foi que o futuro papa exerceu por
12 anos as funções de núncio em Munique, depois em Berlim,
de forma que conseguiu, durante aqueles anos, multiplicar as
intrigas que acabaram por derrubar a República Alemã
estabelecida após a Primeira Guerra Mundial e preparar a
revanche de 1939 ao levar Hitler ao poder. Quando os aliados
assinaram o Tratado de Versailles, em julho de 1919, estavam
tão conscientes do papel exercido pelo Vaticano no conflito que
este foi cuidadosamente mantido afastado da mesa de
conferências. Ainda mais surpreendente foi que o Estado mais
católico, a Itália, insistiu nessa exclusão. 'Através do artigo XV
do Pacto de Londres (26 de abril de 1915), que definiu a
participação da Itália na guerra, o barão Sonnino havia obtido a
promessa dos outros aliados de que se oporiam a qualquer
intervenção do papado nos acordos de paz."
Essa medida era correta, mas insuficiente. Ao invés de aplicar
as sanções contra a Santa Sé, que bem as merecia por suas
implicações no começo da Primeira Guerra Mundial, os
vitoriosos não fizeram nada para evitar futuras intrigas dos
jesuítas e do Vaticano. Estes, 20 anos depois, levariam o
mundo a uma catástrofe ainda pior, talvez jamais vista.
Preparativos para a Segunda Guerra Mundial
Em 1919, os filhos de Loyola colheram os frutos amargos de
sua política criminosa. A França não havia sucumbido ao
"sangramento prolongado". O império apostólico dos
Hapsburgs (que eles tinham encorajado a "punir os sérvios")
havia se desintegrado, liberando os eslavos ortodoxos do jugo
de Roma. A Rússia, ao invés de voltar ao rebanho romano,
havia se tornado marxista, anticlerical e oficialmente ateísta.
Quanto à Alemanha invencível, estava mergulhada no caos. A
natureza arrogante da Companhia, no entanto, nunca
consideraria a hipótese de confessar um pecado. Quando
Benedito XV morreu, em 1922, ela estava pronta a recomeçar
sobre novas bases. Ou não era ela toda-poderosa em Roma?
Vejamos o que diz Pierre Dominique: "O novo papa Pio XI, que
é, de acordo com alguns, um jesuíta, tenta remendar as coisas
e recuperar a Companhia de Jesus. Enviou o padre jesuíta
d'Herbigny para a Rússia, em uma tentativa de recuperar tudo
o que tenha sobrado do catolicismo e, especialmente, para ver
o que poderia ser feito. Esperança vaga e grandiosa: recuperar
ao pontífice o mundo ortodoxo oprimido. Em Roma, existem 39
colégios eclesiásticos, cuja fundação marca as datas de
grandes contra-ataques; a maior parte deles possui jesuítas em
sua direção ou trabalhando: Os Colégios Germânico (1552);
Inglês (1578); Irlandês (1628, reestabelecido em 1826);
Escocês (1600); Norte-Americano (1859); Canadense (1888);
Etíope (1919, reconstituído em 1930).
"Pio XI criou o Colégio Russo (Ponteficio Collegio Russo di S
Teresa dei Bambino Gesu) e o colocou sob a orientação dos
jesuítas. Eles também eram responsáveis pelo Instituto
Oriental, Instituto de São João Damasceno, o Colégio Polonês
e, posteriormente, o Colégio Lituano. Não seriam para lembrar
o padre Possevino, Ivan o Terrível e o falso Dimitri? O segundo
dos três grandes objetivos durante o tempo de Ignácio tomou o
lugar principal. Os jesuítas, novamente, foram os agentes
inspiradores e executores daquela grande iniciativa"
Na derrota que acabaram de sofrer, os filhos de Loyola
conseguiram ainda enxergar o brilho de alguma esperança. A
Revolução Russa, pela eliminação do czar, protetor da Igreja
Ortodoxa, não tinha decapitado o grande rival e ajudado a
penetração da Igreja Romana? Não se molda o ferro enquanto
ele ainda está quente? O famoso Russicum foi criado e seus
missionários clandestinos levaram as Boas-Novas a este país
do cisma.
Um século após a expulsão deles pelo czar Alexander I, os
jesuítas novamente retornam à conquista do mundo eslavo.
Desde 1915, o seu prior era Nalke von Ledochowski. Outra
vez, Pierre Dominique: 'Alguns dirão que vejo jesuítas em
todos os lugares! Sou, no entanto, obrigado a indicar a sua
presença e as suas ações; dizer que eles estavam por detrás
da monarquia de Alfonso XIII, cujo confessor era o padre
Lopez. Quando a monarquia espanhola acabou e seus
monastérios e colégios foram incendiados, eles estavam por
detrás de Gil Robles. Quando a guerra civil explodiu, estavam
por detrás de Franco. Em Portugal, sustentaram Salazar. Na
Áustria e na Hungria, o imperador Charles, o qual já havia sido
destronado três vezes (que papel eles exerceram nessas
tentativas de retomada do trono da Hungria? Quem sabe...).
Eles mantinham a cadeira aquecida sem saber muito bem para
quem ou para o quê. Os monsenhores Seipel, Dolfuss e
Schussnig pertenciam às suas fileiras. Sonharam por algum
tempo com uma grande Alemanha, a maioria católica, à qual os
austríacos necessariamente pertenciam: uma versão moderna
da velha aliança do século XVI entre os Wittelsbach e os
Hapsburg.
Na Itália, apoiaram primeiramente Don Sturzo, fundador do
Partido popular; depois Mussolini. O padre jesuíta Tacchi
Ventun, secretário-geral da Companhia, serviu de mensageiro
entre Pio XI (cujos confessores eram os jesuítas Alissiardi e
Celebrano) e Mussolini. "O papa, em fevereiro de 1929, na
época do Tratado de Lateran, chamou Mussolini de "o homem
que a Providência nos permitiu conhecer". Roma não
condenou o que foi chamado de "a agressão etíope" e, em
1940, o Vaticano ainda era o amigo sincero de Mussolini. Os
jesuítas tinham sua residência secreta lá. Dessa residência,
avaliavam a Igreja com uma visão fria e calculista de políticos".
Este é um resumo perfeito da atividade jesuíta entre as duas
guerras mundiais. A "residência secreta" dos filhos de Loyola
era o cérebro político do Vaticano. Os confessores de Pio XI
eram jesuítas; os de seu sucessor, Pio XII, também foram
jesuítas e alemães, em boa parte. Não importa que, por causa
disso, a trama ficasse evidente: parecia que tudo estava pronto
para a vingança.
Sob o pontificado de Pio XI, temos apenas o período dos
preparativos. O "braço secular" germânico, derrotado, havia
largado a espada. Enquanto o Vaticano esperava que a
Alemanha voltasse a tomar a espada nas mãos, na Europa
estava sendo preparado um campo digno para suas façanhas
futuras, obstruindo o surgimento da democracia.
A Itália foi o primeiro campo de ação. Lá existia um líder
socialista barulhento, o qual reunia ex-funcionários públicos em
torno de si. Demonstrava uma doutrina aparentemente
intransigente, mas era ambicioso e suficientemente lúcido para
compreender quão precária era sua posição, apesar de sua
arrogância extravagante. A diplomacia jesuíta logo o trouxe
para seu lado.
Fraçois Charles-Roux, embaixador francês no Vaticano, diz:
Quando o Duce era um simples deputado, o cardeal Gaspam,
secretário de Estado, teve um encontro secreto com ele. O
líder fascista tinha concordado imediatamente que o papa
deveria exercer uma soberania temporal sobre uma parte de
Roma. Quando me relatou essa entrevista, o cardeal Gasparri
concluiu: Com esta promessa, tive a certeza que, se este
homem subisse ao poder, nós o sucederíamos. Não
mencionarei seu relatório de negociações entre os agentes
secretos de Pio XI e Mussolini...".
Esses agentes secretos, sendo o principal deles o padre jesuíta
Tacchi Venturi, realizaram plenamente sua missão.
Não se surpreendam ao saberem que o padre era o secretário
da Companhia de Jesus e confessor de Mussolini ao mesmo
tempo. De fato, ele era "instruído" a fazer essas "adulações" ao
líder fascista pelo prior da Ordem, Halke von Ledochowski,
conforme nos diz Gaston Gaillard (22): "A 26 de novembro de
1922, o Parlamento elegeu Mussolini por 306 votos contra 116
e, no encontro, podia-se ver o grupo católico Don Sturzo,
supostamente democrata cristão, votando de maneira unânime
a favor do primeiro governo fascista" .
Dez anos depois, a mesma manobra levou a um resultado
semelhante na Alemanha. O Zentrum católico de monsenhor
Kass assegurou, por sua votação maciça, a ditadura do
nazismo.
A Itália tinha sido, em 1922, o campo de testes para a nova
fórmula do conservadorismo autoritário: o fascismo mascarado,
quando as condições locais assim o exigiam, com algum
pseudo-socialismo. A partir de então, todos os esforços dos
jesuítas do Vaticano tinham por objetivo espalhar essa
"doutrina" na Europa, cuja ambigüidade era muito familiar.
Ainda hoje, o colapso do regime de Mussolini, a derrota e as
ruínas não foram suficientes para desacreditarem, diante dos
democratas cristãos italianos, o ditador megalomaníaco
imposto sobre seu país pelo Vaticano. Negado apenas "da
boca para fora", seu prestígio continua intacto nos corações
dos sacerdotes.
Quando Roma sediou as Olimpíadas, em 1960, a impresa
publicou: "Decidimos que os visitantes que vêm a Roma para
os Jogos Olímpicos verão o obelisco de mármore erguido por
Benito Mussolini para sua própria glória, pois este domina, da
beira do Tiber, o estádio olímpico. O memorial de 33 metros de
altura leva a inscrição: "Mussolini Dux" 6 é decorado com
mosaicos e inscrições que louvam o fascismo. A frase "Vida
longa ao Duce" é repetida mais de cem vezes e o slogan
"Muitos inimigos significam muita honra" também. O
monumento tem, em cada lado, blocos de mármore que
comemoram os principais eventos do fascismo, da fundação da
publicação Popolo d'Itália por Mussolini, até o estabelecimento
do curto império fascista, e incluindo a guerra na Etiópia. O
obelisco seria coroado com uma estátua gigantesca de
Mussolini, com quase cem metros de altura, mas o regime caiu
antes que esse estranho projeto pudesse ser acabado. Após
um ano de polêmica, o governo de Segni decidiu que o
obelisco do Duce deveria permanecer".
A guerra, o sangue que jorrou, as lágrimas e as ruínas não
importavam. Eram detalhes, pequenas manchas no
monumento erguido para a glória do "homem que a
Providência nos permitiu conhecer", conforme o decreveu Pio
XI. Nenhuma falta, erro ou crime pode apagar seu principal
mérito: o fato de ter restabelecido o poder temporal do papa,
ter proclamado o catolicismo romano como sendo a religião
oficial do Estado, e ter dado ao clero, através de leis que ainda
hoje vigoram, poder absoluto sobre a vida da nação.
É para atestar isto que o obelisco de Mussolini deve
permanecer no coração de Roma, para benefício dos turistas
estrangeiros que olham com admiração ou ironia, e na
esperança de tempos melhores que permitiriam a construção
da estátua de cem metros de altura, enaltecendo o campeão
simbólico do Vaticano.
O Tratado de Lateran, pelo qual Mussolini demonstrou sua
gratidão ao papado, concedia à Santa Sé, além do pagamento
de um bilhão e 750 milhões de libras (mais de 300 milhões de
dólares!), a soberania temporal sobre'o território da cidade do
Vaticano. Monsenhor Cristiani, prelado de "Sua Santidade",
explica o significado desse evento: "Com absoluta certeza, a
Constituição da Cidade do Vaticano era uma questão de
primeira ordem no estabelecimento do papado como um poder
político".
Não vamos perder tempo tentando em vão conciliar esta
confissão explícita com a frase tão ouvida de que "a Igreja
Romana não se envolve com política". Só vamos apontar para
a posição única e singular no mundo de um Estado que é
secular e sagrado, de natureza ambígua também, e as
conseqüências dessa posição.
Quais são os truques habilidosos dos jesuítas usados por esse
poder que, dependendo das circunstâncias, faz uso do seu
caráter temporal ou espiritual, para se isentar de todas as
regras definidas pelas leis internacionais? As próprias nações
se deixaram levar por esses truques e, assim procedendo,
favoreceram a penetração deles em suas sociedades, dentro
do "cavalo de Tróia" do clericalismo. "O papa parecia se
identificar demais com os ditadores", escreveu Fraçois Charles
Roux, embaixador francês no Vaticano. Poderia ser diferente,
se a própria Santa Sé era responsável por ter levado esses
homens ao poder?
Mussolini, o protótipo, inaugurou a série de homens
"providenciais", esses empunhadores de espada que
preparariam a vingança contra a derrota sofrida na Primeira
Guerra Mundial. Da Itália, onde havia prosperado tão bem sob
o cuidado do padre jesuíta Tacchi Venturi e seus auxiliares, o
fascismo foi logo exportado para a Alemanha.
"Hitler recebeu seu ímpeto de Mussolini; o ideal dos nazistas
era o mesmo da Itália... Desde que Mussolini subiu ao poder,
todas as simpatias foram dirigidas para a Alemanha. Em 1923,
o fascismo se integrou ao nacional-socialismo; Mussolini ficou
amigo de Hitler, a quem forneceu braços e dinheiro". Naquela
época, o monsenhor Pacelli, futuro Pio XII e então o melhor
diplomata da Cúria, era o núncio em Munique, capital da
católica Bavária. Lá, o começo do futuro ditador nazista
irrompeu. Ele também era católico, tal qual a maior parte de
seus seguidores. Daquela província, berço do nazismo,
Maurice Laporte nos diz: "Os seus dois inimigos se chamavam
protestantismo e Democracia".
A angústia da Prússia era, portanto, compreensível. "É fácil
imaginar qual o tipo de cuidado especial que o Vaticano
dispensava à Bavária, onde o nacional-socialismo de Hitler
recrutava seu mais forte contingente"
Tomar da Prússia "herege" o controle do braço secular alemão
e transferi-lo para a católica Bavária era um fantástico sonho!
Monsenhor Pacelli envidou todos os esforços para conseguir
isso, agindo em comunhão com o líder da Companhia de
Jesus. 'Após a Primeira Guerra (1914-1918), o prior dos
jesuítas, Halke von Ledochowski, tinha concebido um plano
vasto: a criação, com ou sem imperador Hapsburg, de uma
federação de nações católicas na Europa Central e no Leste:
Áustria, Eslováquia, Boêmia, Polônia, Hungria, Croácia e,
logicamente, Bavária. "Este novo Império Central teria de lutar
em duas frentes: no lado oriental, contra a União Soviética; no
lado ocidental, contra a Prússia, a Grã-Bretanha protestante e
a França republicana e rebelde. Naquele momento, o
monsenhor Pacelli, futuro Pio XII, era o núncio em Munique,
depois em Berlin, e um amigo íntimo do cardeal Faulhaber,
principal colaborador de Ledochowski. O plano deste último era
o sonho de juventude de Pio XH".
Seria realmente apenas um sonho de juventude? A "Mittel-
Europa" que Hitler estava tentando organizar era muito
semelhante àquele plano, exceto pela presença, naquele bloco,
de uma Prússia luterana, uma minoria não muito perigosa, e as
reconhecidas áreas de influência (talvez temporárias) que
pertenciam à Itália. Era o plano de Ledochowski, adaptado às
necessidades do momento, que o Fuhrer estava tentando
seguir, sob o patrocínio da Santa Sé, com a ajuda de Franz von
Papen, camareiro secreto do papa, e do monsenhor Pacelli.
François Charles-Roux escreve: "Durante a época
contemporânea a política mundial sentiu a intervenção católica
mais do que durante o ministério de monsenhor Pacelli".
Joseph Roven esclarece: 'Agora, a Bavária católica vai receber
e proteger todos os que semearam problemas, todos aqueles
confederados e assassinos de Saint-Vehme". Dentre esses
agitadores, a escolha dos "regeneradores" da Alemanha recaiu
sobre Hitler, que estava destinado a vencer sobre os "erros
democráticos" com o estandarte do "Santo Papa".
É óbvio; ele era católico. "O regime nazista é como um retorno
ao governo da Alemanha do Sul. Os nomes e as origens de
seus líderes demonstram isso: Hitler é especificamente
austríaco; Goering é bávaro; Goebbels vem do Reno, e assim
por diante".
Em 1924, a "Santa Sé" assinou um tratado com a Bavária. Em
1927, podemos ler na Cologne's Gazette: "Pio XI é certamente
o mais germânico dos papas que já sentou no trono de São
Pedro". Seu sucessor, Pio XII, viria roubar esse título. Por
enquanto, o encontramos seguindo sua carreira diplomática (ou
melhor, carreira política) nessa Alemanha pela qual, como
chegou a dizer mais tarde a Ribbentrop, "ele sempre teria uma
afeição especial".
Promovido a núncio em Berlim, trabalhou com Franz von
Papen pela destruição da República de Weimar. Em 20 de
julho de 1932, um estado de sítio foi proclamado em Berlim e
os ministros expulsos "manu militari". Seria o primeiro passo
em direção à ditadura hitleriana. Novas eleições foram
preparadas para estabelecer o sucesso dos nazistas.
"Com a aprovação de Hitler, Goering e Strasser entraram em
contato com monsenhor Kaas, líder do partido de centro
católico".
O cardeal Bertram, arcebispo de Breslau e primaz da
Alemanha, declarava: "Nós, cristãos e católicos, não
reconhecemos nenhuma religião ou raça". À semelhança de
tantos outros bispos, ele tentou alertar os fiéis contra "o ideal
pagão dos nazistas". Obviamente, o cardeal não havia
compreendido a política papal, mas logo teria leumas lições
sobre o assunto. O Mercure de France apresentou urn
excelente estudo em 1934: "No início de 1932, os católicos
alemães não consideravam que tivessem perdido a causa mas,
na primavera, seus líderes pareciam de alguma forma
indecisos: Ficaram sabendo que "o papa estava pessoalmente
a favor de Hitler".
"Que Pio XI era simpatizante de Hitler é algo que não nos
surpreende. Para ele, a Europa poderia se estabelecer apenas
pela hegemonia alemã. O Vaticano havia pensado em mudar o
centro de gravidade do Reich, através de Anschluss, por muito
tempo, e a Companhia de Jesus estava trabalhando
abertamente com este fim (o plano de Ledochowski),
especialmente na Áustria. Sabemos o quanto Pio XI dependia
da Áustria para realizar o que chamava de "seu triunfo político".
O que deveria ser evitado era a hegemonia da Prússia
protestante, tanto quanto o Reich ser o único dominador da
Europa... um Reich teria de ser reconstruído onde os católicos
fossem maioria.
"Em março de 1933, os bispos alemães se reuniram em Fulda,
debatendo sobre as vantagens que o discurso de Hitler
produziu em Potsdam, declarando: "Temos de admitir que o
mais alto representante do governo do Reich, que ao mesmo
tempo era o cabeça do movimento nacional-socialista, tem feito
públicas e solenes declarações sobre a inviolabilidade da
doutrina católica e seu trabalho, reconhecendo os imutáveis
direitos da Igreja...
"Von Papen viveu para Roma; este homem, cujo passado é
obscuro, veio a ser um piedoso peregrino, com a missão de
concluir a Concordata (para uma Alemanha totalitária) com o
papa. Ele também teria de trabalhar em favor de aberturas para
Mussolini em direção ao Vaticano.
De fato, muitos acontecimentos, em ambos os países: na Itália,
o partido católico de Don Sturzo encaminhou a ascensão de
Mussolini ao poder; na Alemanha, o Zentrum do monsenhor
Kaas fez o mesmo Para Hitler e, em ambas ocasiões, a
Concordata selou o pacto.
M. Joseph Rovan admite o seguinte: 'Agradecemos a Von
Papen deputado do Zentrum desde 1920 e dono do Germânia,
publicação oficial do partido. Hitler chegou ao poder em 30 de
janeiro de 1933".
O catolicismo político alemão, ao invés de se tornar democrata
cristão, foi eventualmente composto para conferir amplos
poderes a Hitler, em 26 de março de 1933. Para votar a favor
de amplos poderes, uma maioria de dois terços era necessária
e os votos do Zentrum foram indispensáveis para a sua
obtenção".
O mesmo autor acrescenta: "Na correspondência e
declarações dos dignatários eclesiásticos, sempre
encontraremos, sob o regime nazista, a aprovação ardorosa
dos bispos".(36) Tal fervor é facilmente explicado quando
lemos o seguinte de Von Papen: "Os termos gerais do Tratado
eram mais favoráveis do que todos os outros acordos similares
assinados pelo Vaticano, e o chanceler Hitler me pediu para
assegurar ao secretário de Estado papal (cardeal Pacelli) que
ele amordaçaria o clã anticlerical imediatamente".
Esta não era uma promessa vazia. Naquele mesmo ano
(1933), além do massacre de judeus e assassinatos
perpetrados pelos nazistas, havia 45 campos de concentração
na Alemanha, com 40 mil prisioneiros de diversas opiniões
políticas mas, principalmente, liberais.
Franz Von Papen, o camareiro secreto do papa, definiu
perfeitamente o profundo significado do pacto entre o Vaticano
e Hitler, por esta frase digna de ser reproduzida: "O nazismo é
uma reação cristã contra o espírito de 1789".
Em 1937, Pio XI, sob pressão da opinião pública, "condenou"
as teorias raciais como incompatíveis com a doutrina católica e
seus princípios, no que seus apologistas curiosamente
chamam de a "terrível" encíclica Mit brennender Sorge. O
racismo nazista é condenado, mas não Hitler, seu promotor:
"Distinguio". E o Vaticano tomou cuidado em não denunciar o
"vantajoso" tratado concluído quatro anos antes, com o Reich
nazista. Enquanto a cruz de Cristo e suástica estavam
cooperando na Alemanha, Benito Mussolini seguiu para a
conquista da Etiópia, com a bênção do "Santo Papa".
"O Soberano Pontífice não havia condenado a política de
Mussolini e havia deixado o clero italiano absolutamente livre
para cooperar com o governo fascista. Os sacerdotes, dos
padres de humildes sapatos aos cardeais, falavam em favor da
guerra. "Um dos mais incríveis exemplos veio do cardealarcebispo
de Milão, Alfredo Ildefonso Schuster, jesuíta, o qual
chegou ao ponto de chamar esta campanha de "uma cruzada
católica".
'A Itália", esclareceu Pio XI, pensa que essa guerra é justificada
por causa de uma necessidade premente de expansão". Dez
dias depois, quando falava a uma platéia de membros das
Forças Armadas, Pio XI expressou o desejo de que as
necessidades legítimas de uma nação grande e nobre (da qual
ele mesmo descendia e assumia isso), fossem satisfeitos"
A agressão fascista contra a Albânia, numa sexta-feira de
1939, teria a mesma compreensão, como nos conta Camille
Cianfarra: 'A ocupação italiana da Albânia foi muito vantajosa
para a Igreja. De uma população de um milhão de albaneses,
que se tornaram súditos italianos, 68% eram muçulmanos, 20%
ortodoxos-gregos e apenas 12% católicos-romanos. Do ponto
de vista político, a anexação do país por um poder católico
certamente melhoraria a posição da Igreja e agradaria ao
Vaticano".
Na Espanha, o estabelecimento da República ainda era sentido
pela Cúria Romana como sendo uma ofensa pessoal: "Nunca
ousei mencionar a questão espanhola a Pio XI", escreveu
François Charles-Roux. "Ele provavelmente teria me lembrado
que os interesses da Igreja, naquela grande e histórica terra da
Espanha, era uma questão exclusivamente para o papado".
Assim, esse "campo de caça protegido" acabou sendo
abastecido com um ditador semelhante àqueles que haviam
sido bem sucedidos na Itália e na Alemanha. A aventura do
general Franco só começou no meio de julho de 1936, mas em
21 de março de 1934 o Pacto de Roma havia sido selado entre
Mussolini e os líderes dos partidos reacionários da Espanha,
sendo que um deles era Goicoechea, líder da Renovação
Espanhola. Por esse pacto, o Partido Fascista Italiano assumia
abastecer os rebeldes com dinheiro, armas, soldados e
munição.
Sabemos que eles chegaram a fazer mais ainda do que
prometeram, e que Mussolini e Hitler continuaram a abastecer
a rebelião espanhola com material, aviação e "voluntários".
Quanto ao Vaticano, esquecendo-se de seu próprio princípio
de que os fiéis deveriam respeitar o governo estabelecido,
pressionou a Espanha com ameaças. O papa excomungou os
chefes da República Espanhola e declarou guerra espiritual
entre a Santa Sé e Madrid. Editou, então, a encíclica
Dilectissimi Nobis. O arcebispo Goma, novo primaz da
Espanha, declarou a guerra civil".
Os prelados de "Sua Santidade" aceitaram os horrores desse
conflito fratricida com alegria, e o monsenhor Gomara, bispo de
Cartagena, interpretou de forma admirável seus sentimentos
apostólicos quando disse: 'Abençoados são os canhões se,
nas brechas que abrem, o Evangelho chegar a ser espalhado!"
O Vaticano chegou até a reconhecer o governo de Franco, em
3 de agosto de 1937, vinte meses antes do fim da guerra civil.
A Bélgica também contou com a atenção da Ação Católica que
era, nem é preciso dizer, uma organização eminentemente
ultramontana e jesuítica. O terreno havia sido preparado para a
invasãodo Exército do Fuhrer! Assim, sob a pretensa
"renovação espiritual", o evangelho hitlerista fascista era
diligentemente pregado ali pelos jesuítas, monsenhor Picard,
padre Arendt, padre Foucart e outros. Um jovem belga, vítima
deles à semelhança de muitos outros, testifica isso: "Naquela
época, todos estávamos obcecados com um tipo de fascismo.
A Ação Católica, à qual eu pertencia, era claramente
simpatizante do fascismo italiano. O monsenhor Picard
proclamava dos púlpitos que Mussolini era um gênio e que
desejava muito a chegada de um ditador... Organizavam-se
peregrinações para desenvolver contatos com a Itália e o
fascismo. Quando, com 300 alunos, fui à Itália, todos em nossa
volta para casa nos saudámos à italiana e cantamos a
Giovineza".
Outra testemunha diz: 'Após 1928, o grupo de Leon Degrelle
colaborava regularmente com o monsenhor Picard. Este contou
com sua ajuda para uma missão particularmente especial:
administrar uma editora dentro da Ação Católica, que recebeu
um nome que ficaria famoso: Rex. As exigências por um novo
regime se multiplicavam. Os resultados dessa propaganda na
Alemanha eram observados com muito interesse.
Em outubro de 1933, um artigo no Vlan lembrava que os
nazistas eram apenas sete em 1919, e que Hitler nada mais
deu, além do talento, para a publicidade. Fundada em
princípios semelhantes, a equipe "rexista" iniciava um
programa de propaganda ativa no país. Suas reuniões logo
começaram a atrair algumas centenas, depois milhares de
participantes".
É claro que Hitler havia trazido ao recente nacional-socialismo
o mesmo que Mussolini trouxe ao fascismo, muito mais que o
talento para a publicidade: o apoio do papado! Não sendo mais
que uma pálida sombra desses dois, Leon Degrelle, líder do
"Christus Rex", era beneficiário do mesmo apoio, mas para um
propósito bem diferente, pois seu trabalho seria o de abrir o
país ao invasor.
Raymond de Becker diz: "Eu colaborei com a Avant Garde.
Esta publicação (editada por Picard) tinha como objetivo
quebrar os laços que uniam a Bélgica, a França e a Inglaterra".
Sabemos como foi rápida a vitória do Exército alemão sobre a
defesa belga, traída pela "quinta coluna" do clero. Talvez
lembremos também que o apóstolo do "Christus Rex", em um
uniforme alemão, foi "lutar no front do Leste", acompanhado de
muita publicidade e como dirigente de sua "Waffen SS",
recrutada principalmente entre a juventude da Ação Católica.
Depois, uma oportuna retirada lhe deu condições de chegar à
Espanha. Antes disso, porém, deu vazão total aos seus
sentimentos "patrióticos" pela última vez.
Maurice de Behaut escreveu: "Dez anos atrás (em 1944), o
porto de Anvers, o terceiro mais importante do mundo, caiu
quase intacto nas mãos das tropas britânicas. No momento em
que a população começava a vislumbrar o fim dos sofrimentos
e privações, a mais diabólica invenção nazista caiu sobre eles:
as bombas aéreas VI e V2. Esse bombardeio, o mais longo da
História, durou quase seis meses, dia e noite, cuidadosamente
escondido, sob as ordens do comando central dos aliados.
Esta é a razão pela qual ainda hoje o martírio das cidades de
Anvers e Liege é totalmente ignorado. Na véspera do primeiro
bombardeio (12 de outubro), algumas pessoas ouviram na
Rádio Berlin os comentários alarmantes do traidor "rexista"
Leon Degrelle: "Pedi a meu Fuhrer", exultava, "20 mil bombas
aéreas. Elas castigarão um povo idiota. Prometo a vocês que
farei de Anvers uma cidade sem porto ou um porto sem
cidade". "Daquele dia em diante, o ritmo dos bombardeios iria
se acentuar; as catástrofes e os desastres seriam as
conseqüências, enquanto o traidor Leon Degrelle ficava
prometendo na Rádio Berlin cataclismas ainda mais terríveis"
Essa foi a despedida de sua pátria desse produto monstruoso
da Ação Católica. Um pupilo obediente do monsenhor Picard
(jesuíta), padre Arendt (jesuíta), etc. O chefe do "Christus Rex"
seguiu estritamente as regras papais. "Os homens da Ação
Católica", escreveu Pio XI, "falhariam em seus encargos se,
assim que a ocasião permitisse, não tentassem dirigir a política
de sua província e de seu país". Leon Degrelle cumpriu sua
função e o resultado, como podemos observar, foi proporcional
à sua devoção. Lemos no livro de Raymond de Becker: "A
Ação Católica havia encontrado na Bélgica homens
excepcionais para orquestrar seus temas, como o monsenhor
Picard (o mais importante) e o cônego Cardjin, fundador do
movimento jocista, um homem de temperamento quente e
visionário".
Este último, em especial, chegou a jurar que nunca "viu ou
ouviu" seu companheiro Leon Degrelle. Assim sendo, estes
dois líderes da Ação Católica belga, ambos trabalhando sob o
controle do cardeal Van Roey, aparentemente nunca se
conheceram! Mas que tipo de "milagre" é esse? Claro, o antigo
cônego não nos contaria qual é. Desde então, ele foi elevado a
"monsenhor" por Pio XII e diretor dos movimentos jocistas do
mundo inteiro.
Outro "milagre": o monsenhor Cadijn também nunca se
encontrou com o líder de péssima reputação dos "Rex" durante
o Congresso descrito por Degrelle: "Lembro-me do grande
congresso da Juventude Católica em Bruxelas, em 1930. Eu
estava atrás do monsenhor Picard, que por sua vez estava ao
lado do cardeal Van Roey. Cem mil jovens marcharam atrás de
nós, por duas horas, aplaudindo as autoridades religiosas que
se reuniam sobre a plataforma". Pois então onde é que se
escondia o líder dos jovens católicos, cujas tropas estavam
tomando parte naquela gigantesca marcha? Será que, por um
decreto especial da "Providência", estes dois homens foram
condenados a tropeçar um no outro e nunca se viram, tanto
nas plataformas oficiais quanto nos centros da Ação Católica
que eles freqüentavam tão assiduamente?
Monsenhor Cardijn, jesuíta, ainda vai mais longe. Chega a
fingir que também lutou "verbalmente" contra o "rexismo".
Realmente, essa Ação Católica era uma organização peculiar!
Não só os líderes de seus dois principais "movimentos" -
"Juventude Católica" e "Rex" - brincavam de esconde-esconde
nos corredores, mas também um deles poderia dizer que
"lutava" contra o que o outro fazia com o pleno consentimento
da "hierarquia"! Este fato não pode ser negado: "Degrelle foi
levantado à direção do "Rex" pelo próprio monsenhor Picard,
sob a autoridade do cardeal Van Roey e o núncio apostólico
monsenhor Micara. Assim, de acordo com o monsenhor
Cardijn, ele desaprovava incisivamente as ações de seu colega
na Ação Católica, sob a tutela, tal qual ele próprio, do primaz
da Bélgica e, sem nenhuma consideração pelo núncio, seu
"protetor e amigo reverenciado", de acordo com Pio XII".
Esta declaração é bastante grave. Ficamos ainda mais
alarmados com ela quando examinamos qual foi a atitude,
após a invasão de Hitler à Bélgica, daqueles que são como o
monsenhor Cardijn e seus associados e que, "repudiavam"
Degrelle e o "rexismo".
Em um livro (posteriormente "revisado" quando da sua edição),
o líder dos "Rex" trouxe lembranças, como podemos ver e,
para o nosso conhecimento, o que foi dito por ele nunca
chegou a ser refutado: "Sendo um cristão fervoroso e
habituado às interpretações do espiritual e do temporal, não
pensaria em colaborar (com Hitler) sem antes consultar as
autoridades religiosas de meu país. Tinha solicitado uma
entrevista com Sua Eminência, o cardeal Van Roey. O cardeal
me recebeu de forma amigável, no palácio episcopal de
Malines. Ele estava tomado por um fanatismo total e absoluto.
Se tivesse vivido alguns séculos antes, teria, enquanto cantava
a "Magnificat", colocado os infiéis na ponta da espada,
queimado ou deixado ficar nos calabouços dos conventos as
ovelhas não muito obedientes de seu rebanho. Como estamos
no século XX, só tem seu bastão episcopal, mas mesmo assim
faz com que realize um grande trabalho. Para ele, tudo era
importante desde que servisse aos interesses da Igreja. Se era
algo bom, apoiava, mas qualquer coisa ruim, ele destruía.
A Igreja tinha tantos canais de serviços: suas obras, festas,
jornais, cooperativas agrícolas (Boerenbond) e instituições
bancárias, os quais asseguravam o poder temporal da
instituição divina... "E agora, posso dizer honestamente que
este era o sentido dos comentários do cardeal: "A colaboração
era uma coisa adequada a ser feita; a única que uma pessoa
sensata deveria fazer. Durante toda a entrevista, ele nem
mesmo considerou que aquela atitude não devesse ser
tomada. Para o cardeal, no outono de .1940 a guerra já estaria
acabada. Ele sequer mencionou o nome "inglês" ou supôs que
uma recuperação aliada fosse viável... O cardeal não
acreditava que, politicamente, qualquer coisa fosse possível,
além da colaboração... Ele não fazia objeções a nenhuma das
minhas concepções ou dos meus projetos... Ele poderia ou
deveria ter avisado se achasse minhas idéias referentes à
política sem propósitos, pois eu tinha ido para obter seu
conselho. Antes de partir, o cardeal me deu sua bênção
paternal."
Também outros católicos, no outono de 1940, procuraram pela
grande torre de Saint Rombaut. Muitos entraram no palácio
episcopal para pedir o conselho do monsenhor Van Roey ou de
seus assessores, com relação à moralidade, utilidade ou
necessidade de colaboração. "Mais de mil burgomestres
católicos, todos os secretários gerais, apesar de
cuidadosamente escolhidos, se adaptaram imediatamente à
nova ordem. Todas as boas pessoas na prisão ou insultadas
em 1944 devem ter pensado em 1940: O que Malines pensa
sobre isso? Quem poderia imaginar que nem Malines, nem os
bispos, nem os padres tinham sido capazes de descansar suas
mentes? Oito de cada dez colaboracionistas eram católicos...
Durante aquelas semanas decisivas, por causa da escolha que
tinha de ser feita, Malines e outros bispados chegaram a emitir
conselhos negativos por escrito e oralmente, a mim e a todos
os outros colaboracionistas.
Apesar de não muito agradável, esta é a pura verdade. A
atitude do alto clero católico no estrangeiro só podia fortalecer
a convicção dos fiéis de que o colaboracionismo era
perfeitamente compatível com a fé. Em Vichy, os mais altos
prelados da França tiveram fotos suas tiradas ao lado de
Marshal Petain e Pierre Lavai, após a entrevista entre Hitler e
Petain. Em Paris, o cardeal Baudrillart declarou publicamente
que era um colaboracionista. Na própria Bélgica, o cardeal Van
Roey autorizou um dos mais famosos padres dos Flandres (o
intelectual católico mais importante da região), o abade
Verschaeve, a declarar em 7 de novembro de 1940, durante
uma Sessão solene do Senado e na presença de um general
alemão, o presidente Raeder: "É responsabilidade do Conselho
Cultural construir a ponte que unirá os Flandres à Alemanha."
Em 29 de maio de 1940, um dia após a rendição, o cardeal Van
Roey descreveu a invasão como sendo um tipo de presente
dos céus: "Estejam certos", escreveu ele, "de que estão a
testemunhar no momento uma intervenção excepcional da
Providência Divina, a qual está exibindo seu poder através
destes grandes eventos." Assim, após tudo isso, Hitler parecia
ser nada mais nada menos que um instrumento purificador a
castigar providencialmente o povo belga".
'Algo semelhante estava acontecendo em outro país (a
França), onde éramos constantemente lembrados de que "a
derrota é mais frutífera que a vitória" como, antes de 1914,
quando um "sangramento prolongado" e purificador foi
desejado para a França. Nessas lembranças que caíram no
esquecimento (ou melhor, foram jogadas na masmorra),
também podemos encontrar alguns detalhes interessantes com
relação a "Boerenbond", a grande máquina política e financeira
católica do cardeal Van Roey, que financiava largamente a
secção flamenga da Universidade de Louvain".
"A gráfica Standaard assegurava-se que suas impressoras se
mantivessem trabalhando na impressão de convocações
extremamente colaboracionistas de VN.V (Vlaamsch
Nationalist Verbond). Logo, os negócios começaram a jorrar
dinheiro. Sendo 200% católica e pilar da Igreja de Flandres, os
líderes da Standaard não levariam em consideração o
colaboracionismo a menos que o cardeal tivesse anteriormente
dado sua bênção a isso de forma clara e distina. O mesmo foi
dito a respeito de toda a imprensa católica".
Todos esses esforços tinham por objetivo a quebra da Bélgica,
conforme nos lembra outro escritor católico, Gaston Gaillard:
"Os católicos flamengos e os católicos autonomistas da Alsácia
justificavam sua atitude pelo suporte tácito sempre dado pela
Santa Sé à propaganda alemã. Quando se referiam à carta
memorável enviada por Pio XI a seu secretário de Estado,
cardeal Gaspari, no dia 26 de Junho de 1923, eles foram
facilmente convencidos de que a sua política tinha a aprovação
de Roma e, logicamente, Roma não fez absolutamente nada
para os convencer do contrário. Ou o núncio Pacelli (futuro Pio
XII) não havia habilmente apoiado os nacionalistas alemães e
encorajado a chamada população "oprimida" da Alta-Silésia?
Os planos autonomistas da Alsácia, EupenMalmedy e Silésia
não haviam recebido a aprovação eclesiástica que nem sempre
era dada de forma discreta? Foi, portanto, muito fácil para os
flamengos esconderem seus feitos contra a unidade da Bélgica
atrás das diretivas de Roma"
Também em 1942 o papa Pio XII solicitou à sua nunciatura em
Berlim para enviar suas condolências a Paris, por ocasião da
morte do cardeal Baudrillart, querendo dizer com isso que
considerava a anexação da França do Norte pela Alemanha já
um fato. Também confirmou o apoio "tácito" sempre dado à
expansão germânica pela Santa Sé, e por ele em particular.
Hoje podemos sorrir com desdém quando vemos os jesuítas de
"Sua Santidade" sofismarem sobre algo tão óbvio e repudiar
toda a cumplicidade com a "quinta coluna" que eles próprios
haviam organizado, e especialmente com Degrelle. A ele
(mantido em refúgio seguro, pois sabia demais) podemos
dedicar os famosos versos de Ovídio: "Donec eris feliz, muitos
numerabis amicos. Têmpora si fuerint nubila, solus eris". Só
podemos rir quando lemos o seguinte de R. R Fessard
(jesuíta): "Em 1916 e 1917, esperávamos pelos reforços
americanos com muita impaciência! Em 1939 percebemos com
tristeza que, mesmo após a declaração de guerra, Hitler era
visto favoravelmente por uma grande parte da opinião pública
americana; e ainda mais pelos católicos! Em 1941 e 1942,
ainda ficávamos imaginando se os Estados Unidos iriam ou
não intervir".
Assim, parece que o "Bom Papa" via os resultados obtidos na
América pelos seus próprios irmãos jesuítas "com tristeza"! É
sabido e provado pela História que a "Frente Cristã", um
movimento católico de oposição à intervenção norteamericana,
era dirigida pelo padre jesuíta Coughlin, um ilustre
hitlerista. 'A esta santa organização não faltava nada e ainda
recebia, de Berlim, um grande suprimento de material de
propaganda, preparado pelo escritório de Goebbels. Através de
sua publicação Justiça Social e transmissões de rádio, o padre
jesuíta Coughlin, apóstolo da suástica, alcançava um grande
público. Ele também era responsável por comandos secretos
nos principais centros urbanos, dirigidos de acordo com os
métodos dos filhos de Loyola e treinados por agentes
nazistas".
Um documento secreto de Wilhelmstrasse esclarece o seguinte
aspecto: "Estudando a evolução do anti-semitismo nos Estados
Unidos, observamos que o número de ouvintes das
transmissões radiofônicas do padre Coughlin, famoso por seu
anti-semitismo, excedia a 20 milhões"
Será que devemos lembrar que o padre jesuíta Walsh, um
agente do papa, diácono da Escola de Ciências Políticas da
Universidade de Georgetown, era auxiliar da diplomacia
americana e um dedicado propagandista da política alemã?
Naquela época, o prior da Companhia de Jesus era, como se
fosse por acaso, Halke von Ledochowski, um ex-general do
Exército austríaco; ele sucedeu a Wernz, um prussiano, em
1915.
Fessard também se esqueceu que o La Croix escreveu durante
toda a guerra, e especialmente isto: "Não há nada a ganhar
com uma intervenção das tropas do outro lado do canal e do
Atlântico". Também não se lembra deste telegrama de "Sua
Santidade" Pio XII: "O papa envia sua bênção ao La Croix, a
voz do pensamento papal".
Levando-se em conta tanto esquecimento, deveríamos chegar
à conclusão que os membros da Companhia de Jesus têm uma
memória muito curta? Nem mesmo seus inimigos se atreveriam
a dizer uma coisa dessas... É melhor dizer que R. P Fessard
expressou seus medos patrióticos de 1941-1942 somente em
1957. Suas "meditações livres" trouxeram resultados apenas
15 anos depois e ele teve tempo de reler uma certa passagem
dos Exercícios Espirituais, a qual diz ue "o jesuíta deve estar
pronto, se a Igreja assim determinar, a ver 0 branco como
negro; a concordar com ela, mesmo se os seus sentidos lhe
disserem o oposto".
Nesse aspecto, R. P. Fessard parece ser um excelente jesuíta!
No dia 7 de março de 1936, Hitler levou a Wehrmacht à região
desmilitarizada do Reno, quebrando, portanto, o Pacto de
Locarno. A11 de março de 1938, era a Anschluss (união da
Áustria e Alemanha), e a 29 de setembro do mesmo ano, em
Munique, a França e a Inglaterra tiveram que admitir a
imposição do Reich de anexação da Sudelândia à
Tchecoslováquia. O "Fuhrer" chegara ao poder, graças aos
votos do Zentrum católico, apenas cinco anos antes, mas a
maior parte dos objetivos cinicamente revelados em "Mein
Kampf" já tinham sido realizados. Este livro, um desafio
insolente às democracias ocidentais, foi escrito pelo padre
jesuíta Staempfle e assinado por Hitler. O fato que muitos
ignoram é que foi a Companhia de Jesus que aperfeiçoou o
famoso programa Pan-Germânico definido neste livro, e o
"Fuhrer" o endossou.
A Agressão Alemã e os Jesuítas: Áustria, Polônia,
jchecoslováquia e Yugoslávia
Vejamos como a Anschluss foi preparada: Primeiro e por um
"providencial" sincronismo, quando Mussolini assumiu o poder
na Itália, graças a Don Sturzo, jesuíta e chefe do Partido
Católico, o monsenhor Seipel (jesuíta) tornou-se o chanceler da
Áustria. Manteve-se no posto até 1929, com um intervalo de
dois anos e, durante aqueles anos decisivos, levou a política
interna da Áustria pelos caminhos reacionários do clero. Seus
sucessores o seguiram na mesma trilha que levaria à absorção
daquele país pelo bloco germânico. A repressão sangrenta dos
levantes operários lhe custaram o apelido de "Keine Mild
Kardinal" (o Cardeal Sem Piedade).
"Nos primeiros dias de maio (1936), Von Papen entrou em
negociações secretas com o doutor Schussnigg (chanceler
austríaco). Trabalhando com o seu ponto fraco, mostrou-lhe
como seria vantajosa uma reconciliação com Hitler na medida
em que os interesses do Vaticano estavam em jogo. O
argumento pode parecer estranho, mas Schussnigg era muito
devoto, e Von Papen, o camareiro do papa".
Sem ser surpreendente, foi o camareiro secreto que dirigiu todo
o caso que acabou em 11 de março de 1938 com a demissão
do "santo" Schussnigg (pupilo dos jesuítas), em favor de
Seyss-Inquart, chefe dos nazistas austríacos. No dia seguinte,
as tropas alemãs entraram na Áustria e o governo "fantoche"
de Seyss-lnquart proclamou a união do país ao Reich. Esse
evento foi recebido com uma declaração entusiástica do
arcebispo de Viena, cardeal Innitzer (jesuíta). A 15 de março, a
imprensa alemã publicou a seguinte declaração do cardeal
Innitzer: "Os padres e os fiéis devem apoiar sem hesitar o
grande Estado alemão, e o Fuhrer cuja luta para estabelecer o
poder, a honra e a prosperidade da Alemanha está de acordo
com os desejos da Providência".
Os jornais imprimiram uma cópia dessa declaração para
dissipar qualquer dúvida sobre sua autenticidade. As
reproduções eram pregadas nas paredes em Viena e em
outras cidades austríacas. Innitzer tinha escrito, do próprio
punho, as seguintes palavras diante de sua assinatura: "Und
Heil Hitler!" Três dias depois, todo o epis-copado austríaco
dirigiu uma carta aos seus paroquianos. Os jornais italianos
publicaram o texto dessa carta em 28 de março. Era uma
adesão incondicional ao regime nazista, cujas virtudes eram
altamente elogiadas".
O cardeal Innitzer, o mais alto representante da Igreja Romana
na Áustria, também escreveu em sua declaração: "Convido a
todos os chefes de organizações jovens a prepararem sua
união para organização do Reich alemão".
Conforme podemos ver, o cardeal-arcebispo de Viena não
tinha só seguido a seu episcopado, aderindo a Hitler com muito
entusiasmo, jflas também tinha exortado a juventude "cristã" a
ser treinada de acordo com os métodos nazistas.
"Esses mesmos métodos haviam sido "oficialmente
condenados" na "terrível" encíclica "Mit brennender Sorge"!
Posteriormente, o Mercure de France observa com razão:
"Estes bispos não tomaram uma decisão que envolvesse a
Igreja como um todo no seu próprio acordo; a Santa Sé lhes
deu diretivas que eles apenas tiveram de seguir".
Isso é óbvio. Que outras "diretivas", no entanto, poderíamos
esperar desta Santa Sé que levou Mussolini ao poder, da
mesma forma que Hitler, Franco e, na Bélgica, criou o
"Christus-Rex" de Leon Degrelle? "Entendemos porque autores
ingleses, a exemplo de F. A. Ridley, Secker e Warburg, faziam
objeções à política de Pio XI, que favorecia movimentos
fascistas por todos os lados".
Quanto à Anschluss, François Charles-Roux nos conta por que
a Igreja estava tão favorável a ela: "Oito milhões de católicos
austríacos unidos aos católicos do Reich poderiam fazer um
corpo católico alemão mais capaz de exercer o poder".
A Polônia estava na mesma situação da Áustria, quando Hitler,
após tê-la invadido, anexou parte dela com o nome de "Terra
do Pai". Eram outros tantos milhões de católicos para reforçar
o contingente alemão sob a obediência a Roma. A Santa Sé só
poderia ser a favor de uma coisa dessas, apesar de todo o seu
amor pelo seu "amado povo polonês", e não ficou de "cara
amarrada" ao ver a reagrupação brutal dos católicos na Europa
Central, que estava de acordo com o plano do prior jesuíta,
Halke von Ledechowski.
Os aduladores licenciados do Vaticano continuavam a lembrar
aos seus leitores que Pio XII "protestava" contra a agressão na
encíclica Summi Pontifícatus. A bem da verdade, esse
documento ridículo era igual aos outros: não chegava a 45
páginas e havia apenas uma frase no final que fazia referência
à Polônia esmagada por Hitler e essa pequena alusão era um
aviso ao povo polonês para que rezasse muito à Virgem Maria!
O contraste é chocante entre aquelas palavras de condolências
contritas e as páginas de adulação dedicadas à Itália fascista e
à exaltação do Tratado de Laterano, o qual havia sido assinado
pela Santa Sé e Mussolini, o colaborador de Hitler que, no
momento em que o papa estava escrevendo a encíclica, fez
um discurso escandaloso, com uma ameaça ao mundo, e que
começava dizendo: "Liquidata Ia Polônia!"
Quais são, realmente, os riscos de se usar esses álibis
irrisórios, quando se prega aos convertidos? Além disso,
quantos deles estavam ansiosos por referências desse tipo?
Quando estudamos o comportamento do Vaticano nesse caso,
o que vemos? Primeiramente, o núncio em Varsóvia,
monsenhor Cortesi, incitando o governo polonês a ceder em
tudo a Hitler: Dantzig, "o corredor" e os territórios onde as
minorias alemãs viviam. Depois, quando isso estava feito,
também vemos o "Santo Papa" emprestar sua ajuda ao
agressor, tentando fazer Paris e Londres ratificarem a
amputação de uma grande parte de sua "amada Polônia". Para
aqueles que ficariam surpresos com tal comportamento em
relação a um país católico, citaremos um precedente famoso:
Após a primeira divisão da Polônia, em 1772, uma catástrofe
na qual as intrigas dos jesuítas desempenharam um papel
importante, o papa Clemente XIV, ao escrever à imperatriz da
Áustria, Maria Teresa, expressou sua satisfação assim: "A
invasão e divisão da Polônia não aconteceram por motivos
políticos. Era interessante para o desenvolvimento espiritual da
Igreja que a Corte de Viena estendesse sua dominação sobre a
Polônia tanto quanto fosse possível".
Obviamente, não há nada de novo sob o sol, especialmente no
Vaticano. Em 1939 não houve necessidade de modificar uma
palavra sequer daquela declaração cínica, exceto "o
desenvolvimento espiritual da Igreja" Que naquele momento,
consistia em vários milhões de católicos poloneses se unindo
ao Reich. Esse fato explica facilmente a parcimônia das
condolências papais na Summi Pontificatus.
Na Tchecoslováquia, o Vaticano fez ainda mais: deu a Hitler
um de seus próprios prelados, um camareiro secreto, para que
este fosse o dirigente desse Estado satélite do Reich. A
Anschluss tinha feito muito barulho na Europa. A ameaça
hitteriana estava rondando a República da Tchecoslováquia e a
guerra se sentia no ar. No Vaticano, entretanto, ninguém
parecia preocupado.
Vejamos o que diz François Charles-Roux: "No meio de
agosto, eu havia tentado persuadir o papa de que ele deveria
falar em favor da paz - uma paz justa, é claro. Minhas primeiras
tentativas foram sem sucesso. A partir do começo de setembro
de 1938, no entanto, quando a crise internacional atingiu seu
limite, comecei a perceber, no Vaticano, reações
tranqüilizadoras que contrastavam estranhamente com a
situação que se deteriorava rapidamente".(70)
"Todas as minhas tentativas", acrescenta o embaixador
francês, "recebiam a mesma resposta de Pio XI: "Seria inútil,
desnecessário, inoportuno". Não conseguia entender sua
obstinação em manter o silêncio".
Os eventos logo explicariam esse silêncio. Antes de tudo foi a
anexação da Sudelândia pelo Reich, com o apoio do Partido
Social Cristão, é lógico. Essa anexação foi ratificada pelo
acordo de Munique e a República da Tchecoslováquia foi
dividida. Hitler, que tinha se comprometido a respeitar sua
integridade territorial, queria na verdade anexar a região tcheca
independentemente da Eslováquia, e reinar sobre esta através
de seu próprio homem de confiança a ser indicado.
Foi fácil para ele alcançar esses objetivos, pois a maior parte
dos dirigentes eslovacos era de sacerdotes católicos, de
acordo com Walter Hagen e, dentre estes, o padre Hlinka
(jesuíta) tinha à sua disposição Urn "guarda treinado nos
princípios da polícia secreta nazista".
Sabemos que, de acordo com a lei canônica, nenhum padre
pode aceitar um posto público ou um mandato político sem o
consentimento da Santa Sé. Isso é confirmado e explicado pelo
jesuíta De Soras: "Como poderia ser diferente? Já dissemos o
mesmo anteriormente: um padre, em virtude do "caráter" que
sua ordenança lhe concede, em virtude das funções oficiais
que exerce dentro da própria Igreja, em virtude da batina que
veste, é obrigado a agir como um católico, pelo menos quando
uma ação pública está envolvida. Onde o padre estiver, lá
estará a Igreja".
Foi, portanto, com o consentimento do Vaticano, que os
membros do clero se sentaram no Parlamento tchecoslovaco.
Ainda mais, um desses padres teve de obter a aprovação da
Santa Sé quando o próprio "Fuhrer" o designou para a posição
de chefe-de-governo e posteriormente lhe conferiu as mais
altas distinções hitleristas: as condecorações da Cruz-de-Ferro
e da Águia Negra. Como já dissemos, em 15 de março de 1939
Hitler anexou o resto da Boêmia e da Morávia, e pôs a
República da Eslováquia (que havia sido criada com um
rabisco de caneta) "sob sua proteção". No governo, colocou o
monsenhor Tiso (jesuíta), "que sonhava em combinar o
catolicismo e o nazismo".
Uma "nobre ambição" e facilmente realizada, pois já tinha sido
aprovada pelos episcopados da Alemanha e da Áustria. "O
catolicismo e o nazismo", proclamava o monsenhor Tiso, têm
muito em comum; trabalham de mãos dadas para reformar o
mundo". Tal deve ter sido também a opinião do Vaticano pois,
apesar da "terrível" encíclica Mit brennender Sorge, não perdeu
tempo e nèm tentou regatear sua aprovação ao padre chefede-
governo. Em junho de 1940, a Rádio Vaticano anunciava: A
declaração de monsenhor Tiso, chefe do Estado eslovaco,
afirmando sua intenção de construir a Tchecoslo-váquia de
acordo com um plano cristão, tem a plena aprovação da Santa
Sé".
"O regime de Tiso, na Tchecoslováquia, foi especialmente
aflitivo para a Igreja Protestante daquele país, que
correspondia a uma quinta parte da população. O monsenhor
Tiso tentou reduzir a influência protestante a seu mínimo, e até
mesmo eliminá-la. Membros influentes da Igreja Protestante
foram mandados para campos de concentração". Estes ainda
poderiam se achar com sorte, se considerarmos esta
declaração do prior jesuíta Wernz, um prussiano (1906-1915):
"A Igreja pode condenar hereges à morte, pois quaisquer
direitos que venham a ter só lhes podem ser atribuídos devido
à nossa clemência".
Vejamos agora que tipo de "gentileza apostólica" foi usada pelo
prelado Tiso com relação aos judeus: "Em 1941, o primeiro
contingente de judeus da Tchecoslováquia e da Alta-Silésia
chega a Auschwitz. Desde o começo, aqueles que não eram
capazes de trabalhar eram mandados para as câmaras de gás,
em um salão do prédio onde ficavam os fornos crematórios".
Quem escreveu isto? Uma testemunha que não podia ser
desafiada, Lord Russel de Liverpool, um conselheiro jurídico
nos julgamentos de crimes de guerra.
Assim sendo, a Santa Sé não havia "emprestado" um de seus
prelados a Hitler em vão. O chefe-de-Estado jesuíta estava
fazendo um bom trabalho e a satisfação manifestada pela
Rádio Vaticano era compreensível. Ser o primeiro a abastecer
Auschwitz, que glória para este homem "sagrado" e para toda a
Companhia de Jesus!
De fato, a este triunfo não faltava nada. No momento da
Libertação, este prelado foi entregue pelos americanos à
Tchecoslováquia, condenado à morte em 1946 e enforcado - a
vitória, para o "mártir"!
"Qualquer coisa a ser feita contra os jesuítas, faremos por
causa de nosso amor por esta nossa grande nação. O amor
por nossos companheiros e o amor pelo país têm levado a uma
luta frutífera contra os inimigos do nazismo" .
Outro alto dignatário da Igreja Romana, em um país vizinho
poderia ter-se apropriado dessa declaração do monsenhor Tiso
para si. Se as fundações da "Cidade de Deus" eslovaca eram o
ódio e a perseguição, de acordo com a longa tradição da Igreja,
o que podemos dizer do eminente Estado católico da Croácia,
filho da colaboração entre o assassino Pavelitch e monsenhor
Stepinac, e com a assistência do legado papal Marcone?
Teríamos que olhar para trás até chegarmos às conquistas do
Novo Mundo, reunir todas as ações dos aventureiros das
cortes e dos não menos ferozes monges da conversão para
encontrar algo que se possa comparar às atrocidades daqueles
"Oustachis", sustentados, comandados e assessorados por
aqueles sacerdotes loucos e fanáticos. O que esses
"assassinos em nome de Deus" (como eram tão bem
apelidados por Hervé Laurière) fizeram por mais de quatro
anos desafia toda a imaginação, e os anais da Igreja Romana,
apesar de tão ricos nesse tipo de material, não poderiam exibir
nada semelhante ocorrido na Europa. Precisamos acrescentar
que o amigo íntimo desse sangrento Ante Pavelitch era
monsenhor Stepinac, outro jesuíta?
A organização terrorista croata dos "Oustachis", dirigida por
Pavelitch, veio a ser conhecida pelo povo francês quando do
assassinato, em Marselha, do rei Alexandre I, da Yugoslávia, e
do ministro de Assuntos Externos da França, Louis Barthou,
em 1934. "Como o governo de Mussolini estava claramente
também envolvido no crime(79), a extradição de Pavelitch, que
tinha se refugiado na Itália, foi solicitada pelo governo francês;
o Duce obviamente não fez caso e a sessão do Tribunal
Superior de Aix-en-Provence havia imposto a sentença de
morte por ausência para o líder dos "Oustachis". Esse dirigente
de terroristas, contratado por Mussolini, "trabalhou" pela
expansão italiana na costa do Adriático. Quando, em 1941,
Hitler e Mussolini invadiram e dividiram a Yugoslávia, esse
suposto patriota croata foi posto por eles no governo de um
Estado satélite criado por eles com o nome de "Estado
Independente da Croácia".
A 18 de maio do mesmo ano, em Roma, Pavelitch ofereceu a
coroa daquele Estado ao duque de Spoleto, o qual assumiu o
nome de "Tomislav II". É claro que ele tomou o cuidado de
nunca pôr os pés naquela terra manchada de sangue do seu
pseudo-reino. "No mesmo dia, Pio XII concedeu uma audiência
privada a Pavelitch e seus "amigos", um dos quais monsenhor
Salis-Sewis, vigário-geral do monsenhor Stepinac. 'A Santa Sé
não temeu apertar a mão de um assassino, sentenciado à
morte pelo assassinato do rei Alexandre I e de Louis Barthou,
um líder de terroristas que tinha os crimes mais horríveis na
sua consciência! A 18 de maio de 1941, quando Pio XII
recebeu alegremente Pavelitch e sua "gang" de assassinos, o
massacre dos croatas ortodoxos estava em seu ponto máximo,
tanto quanto as conversões forçadas ao catolicismo".
Era a minoria servia da população que eles procuravam,
conforme o autor Walter Hagen explica: "Graças aos
"Oustachis", o país logo se transformaria em um caos de
sangue. O ódio mortal dos novos senhores era dirigido aos
judeus e aos sérvios, os quais eram oficialmente considerados
criminosos. Vilas inteiras, até mesmo regiões inteiras foram
sistematicamente destruídas. Como a tradição antiga queria a
fé católica e a Croácia (enquanto a Sérvia e a Igreja Ortodoxa
eram sinônimos), os fiéis ortodoxos eram obrigados a entrar
para a Igreja Católica. Essas conversões compulsórias
constituíram a realização da "croatização".
Andrija Artukovic, ministro do Interior, era o grande organizador
desses massacres e conversões compulsórias. Enquanto fazia
isso, ele se defendia "moralmente", de acordo com uma
testemunha de alta patente. Quando o governo iugoslavo pediu
sua extradição dos Estados Unidos (onde estava refugiado),
alguém veio a seu favor: o jesuíta Lackovic, também residente
nos Estados Unidos, e secretário do monsenhor Stepinac,
arcebispo de Zagreb durante a última guerra.
'Artukovic", afirma o jesuíta, "foi o porta-voz leigo do
monsenhor Stepinac. Entre 1941 e 1945, sequer um dia se
passou sem que ele viesse ao meu escritório ou eu fosse ao
dele. Ele pedia o aconselhamento do arcebispo em todas as
suas ações, no que respeitava aos seus aspectos morais".
Quando conhecemos as "ações" desse carrasco, podemos
imaginar que tipo de conselho "edificante" o monsenhor
Stepinac lhe dava. Os massacres e as "conversões"
aconteceram até a Libertação, e a boa vontade do "Santo
Papa" em relação aos assassinos nunca chegou a se alterar.
Devemos ler, nos jornais católicos croatas da época, as trocas
de elogios entre Pio XII e Pavelitch, o "Poglavnik", a quem o
monsenhor Saric, arcebispo jesuíta de Sarajevo e poeta nos
tempos livres, dedicou versos impregnados de uma adoração
entusiástica. Isso era apenas uma demonstração de "boas
maneiras": "O monsenhor Stepinac tornou-se membro do
Parlamento "Oustachi".(82) Veste as prendas "Oustachi", está
presente em todas as manifestações "Oustachi" importantes
nas quais chega a fazer discursos. Podemos então imaginar o
respeito devido ao monsenhor Stepinac pelo Estado satélite da
Croácia? Ou como suas virtudes eram elogiadas pela imprensa
"Oustachi"? É evidente que sem o apoio de monsenhor
Stepinac, no aspecto religioso e político, Ante Pavelitch nunca
teria obtido a colaboração dos croatas católicos a tal nível.(83)
A fim de compreendermos plenamente essa colaboração,
devemos ler a imprensa católica croata, o Katolicki Tjednik, o
Katolicki List, o Hrvatski Narod, e tantas outras publicações que
competiam entre si para adularem o sangrento "Poglavnik".
Pio XII estava muito satisfeito por ser um "católico praticante",
e a alta estima do "Soberano Pontífice" se estendia até mesmo
aos seus cúmplices. O Osservatore Romano nos informa que,
em 22 de julho de 1941, o papa recebia cem membros da
Polícia de Segurança da Croácia, liderados pelo chefe da
polícia de Zagreb, Eugen Kvaternik Dido. Esse grupo da SS
croata, o mais representativo grupo dos carrascos e
torturadores que operavam nos campos de concentração, foi
apresentado ao "Santo Papa" por alguém que cometera crimes
tão monstruosos que levou a própria mãe ao suicídio, devido
a0S sucessivos desgostos.
A boa vontade de Sua Santidade Pio XII é fácil de ser
explicada pelo cuidado apostólico destes assassinos. Outro
"católico praticante", ]Vlile Budak, ministro do Culto, exclamava
em agosto de 1941, em Karlovac: "O movimento "Oustachi"
está baseado na religião. Todo nosso trabalho se apoia na
lealdade à religião e à Igreja Católica".
Além disso, em 22 de julho, em Gospic, o mesmo ministro do
Culto tinha definido perfeitamente esse trabalho: "Mataremos
alguns sérvios, deportaremos outros, e o restante será
obrigado a abraçar a religião católica romana". Este belo
programa foi executado "ao pé da letra".
Quando a Libertação pôs um fim a essa tragédia, 300 mil
sérvios e judeus haviam sido deportados e mais de 500 mil
massacrados. Através desses meios, a Igreja Romana havia
feito 240 mil fiéis ortodoxos serem incorporados ao seu
rebanho, mas que rapidamente voltaram à religião de seus
ancestrais quando sua liberdade foi restaurada. Para a
obtenção desses resultados ridículos, no entanto, quantos
horrores caíram sobre aquele país desafortunado! Deve-se ler,
no livro de Hervé Laurière, Assassinos em Nome de Deus, os
detalhes das torturas monstruosas que estes católicos
praticantes chamados de Oustachis impuseram às suas pobres
vítimas.
O jornalista inglês J. A. Voigt escreveu: "A política croata
consistia em massacres, deportações ou conversões. O
número daqueles que eram massacrados chegava a centenas
de milhares. Os massacres eram acompanhados pelas torturas
mais selvagens. Os "Oustachis" arrancavam os olhos de suas
vítimas e faziam guirlandas com eles, usando-as e
presenteando-as como lembranças". "Na Croácia, os jesuítas
^plantaram o clericalismo político".
Esse é o presente invariavelmente dado pelos jesuítas aos
países que os recebem bem. O mesmo autor acrescenta: "Com
a morte do grande tribuno croata, Raditch, a Croácia perdeu
seu príncipe oponente ao clericalismo político que envolvera a
missão da Ação Católica definida por Friedrich Muckermann.
Este jesuíta alemão conhecido antes do advento de Hitler,
tornou isso público, em 1928' em um livro cujo prefácio foi
escrito pelo monsenhor Pacelli (então núncio apostólico em
Berlim).
Muckermann se expressa da seguinte forma: "O papa apela
em favor da nova cruzada da Ação Católica. Ele é o guia que
carrega o estandarte do Reino de Cristo. A Ação Católica
significa a reunião do mundo junto ao catolicismo. Ela deve
viver o seu momento heróico. A nova época pode ser atingida
em Cristo apenas pelo preço do sangue".
Dez anos depois, aquele que escrevera o prefácio do livro do
padre jesuíta Muckermann sentou-se no "trono de São Pedro"
e, durante o seu pontificado, o "sangue de Cristo" literalmente
escorreu pela Europa; a Croácia, entretanto, sofreu os mais
horríveis desastres daquela "nova época". Ali, não só os
padres advogavam a carnificina do púlpito, mas também
chegaram a marchar com os dirigentes dos assassinos. Outros
mantinham, além de seus ministérios sagrados, postos oficiais
de prefeitos ou chefes da polícia "Oustachi", sendo até mesmo
responsáveis por campos de concentração, onde os horrores
não eram superados nem mesmo por Dachau ou Auschwitz.
Para essa lista sangrenta de honrarias, devemos adicionar os
nomes do abade Bozidar Bralo, o padre Dragutin Kamber, os
jesuítas Lackovic e o abade Yvan Salitch; os secretários do
monsenhor Stepinac, o padre Nicolas Bilogrivic e outros, e
numerosos franciscanos; sendo que um dos piores foi o irmão
Miroslav Filipovitch, principal organizador daqueles massacres,
chefe e carrasco no campo de concentração de Jasenovac, o
mais terrível desses infernos terrestres.
O destino do irmão Filipovitch foi o mesmo do monsenhor Tiso,
na Eslováquia: quando finalmente veio a Libertação, ele foi
enforcado, vestindo o seu hábito. Muitos de seus rivais, não
muito ansiosos por lhe tomarem o símbolo de mártir,
escaparam para a Áustria, juntamente com os assassinos que
eles tão bem haviam ajudado.
O que, entretanto, estaria fazendo a "hierarquia", quando foi
confrontada com o frenesi sedento de sangue daqueles que
estavam sOb suas ordens? A "hierarquia", ou seu episcopado
e seu líder, monsenhor Stepinac, votou no Parlamento
"Oustachi" pelos decretos referentes à conversão dos
ortodoxos ao catolicismo; enviou "missionários" aos
aterrorizados camponeses; "converteu", sem titubear, vilas
inteiras; incorporou bens da Igreja Ortodoxa Sérvia e lançou
sem cessar bênçãos e louvores sobre Poglavnik, copiando o
exemplo já firmado pelo papa Pio XII.
"Sua Santidade" Pio XII estava representado pessoalmente em
Zagreb por um monge eminente, Marcone. Este "Sancti Sedis
Legatus" recebia o lugar de honra em todas as cerimônias do
regime "Oustachi", e tinha ele mesmo se fotografado na casa
do líder dos assassinos, Pavelitch, com sua família, que o
havia recebido na condição de amigo. Assim, a mais sincera
cordialidade sempre reinou nas relações entre os assassinos e
os eclesiásticos; logicamente, muitos desses eclesiásticos
mantiveram ambas as funções, pelas quais nunca foram
acusados de nada. "Os fins justificam os meios".
Quando Pavelitch e seus quatro mil "Oustachis" (que incluíam
Saric, um jesuíta, o bispo Garic e 400 sacerdotes) saíram de
cena com suas realizações para a Áustria, primeiro, depois
Itália, deixaram para trás parte de seu "tesouro": filmes,
fotografias, discursos gravados de Ante Pavelitch, caixas
cheias de jóias, anéis de casamento, dentes de ouro e platina.
Esse espólio, tomado dos pobres infelizes assassinados, foi
escondido no palácio episcopal onde posteriormente vieram a
ser descobertos.
Quanto aos fugitivos, tiraram vantagem da "Assistência da
Comissão Pontificai", criada expressamente para salvar
pessoas dos crimes de guerra. Essa caridosa instituição os
escondia em conventos, Principalmente na Áustria e na Itália, e
fornecia aos líderes passaportes falsos que os permitiam ir a
outros países de forma "amigável" onde poderiam usufruir dos
frutos do roubo em paz. Isso aconteceu com Ante Pavelitch,
cuja presença na Argentina foi revelada em 1957 por um
atentado contra sua vida no qual ficou ferido. Desde então o
regime ditatorial começou a cair em Buenos Aires. Como o
próprio ex-presidente Perón, seu protegido teve de abandonar
a Argentina. Do Paraguai (para onde foi em primeiro lugar), ele
chegou à Espanha, onde morreu em 28 de dezembro de 1959,
no hospital alemão de Madrid. Nessa ocasião, a imprensa
francesa lembrou sua carreira sangrenta e, mais
discretamente, os "cúmplices poderosos" que o ajudaram a
escapar da punição.
Sob o título "Belgrado exigiu a extradição em vão", lemos no Le
Monde: 'A curta notícia publicada na imprensa esta manhã
reavivou, no povo iugoslavo, as lembranças de um passado
cheio de sofrimento e amargura por aqueles que, ao
esconderem Ante Pavelitch, por quase 15 anos, obstruíram o
curso da justiça". Paris Presse mostra o último abrigo oferecido
ao terrorista com esta frase curta, mas significativa: "Ele
acabou seus últimos dias no mosteiro franciscano de Madrid".
Foi de lá que Pavelitch foi levado ao hospital, onde veio a
pagar as suas dívidas pela natureza, e não pela justiça, objeto
de zombaria daqueles "cúmplices poderosos" que são fáceis
de se identificar.
O monsenhor Stepinac, que tinha, conforme suas próprias
palavras, uma "consciência tranqüila", ficou em Zagreb, onde
foi julgado em 1946. Condenado a trabalhos pesados, na
verdade só foi levado a residir em sua vila de origem. A pena
foi fácil de suportar, como podemos ver, mas a Igreja precisa
de mártires. O arcebispo de Zagreb foi então transformado em
membro da corte sagrada, em vida, por Pio XII, que se
apressou a conferir-lhe o título de cardeal, ern reconhecimento
"de seu apostolado que demonstrava o mais puro brilho".
Devemos observar uma "reversibilidade de méritos". Se
este fosse o caso, o direito ao cardinalato do monsenhor
Stepinac não poderia ser contestado. Na diocese de Gornji
Karlovac, parte de seu arcebispado, de 460 mil ortodoxos que
ali viviam, 50 mil conseguiram escapar para as montanhas; 50
mil foram mandados para a Sérvia; 40 mil "convertidos" ao
catolicismo, através de um regime de terror, e 280 mil
massacrados".
A 19 de dezembro de 1958, lemos no Catholic France: "A fim
de exaltar a grandeza e o heroísmo de Sua Eminência, o
cardeal Stepinac, uma grande reunião será celebrada no dia 21
de dezembro de 1958, às 16 horas, na cripta de Sainte-Odile -
2, Avenue Stéphane-Mallarmé, Paris 17. Será presidida por
Sua Eminência, o cardeal Feltin, arcebispo de Paris. O senador
Pezet e o padre reverendo Dragoun, reitor nacional da Missão
Croata na França, tomarão parte. Sua Excelência, o
monsenhor Rupp, celebrará a missa e a comunhão".
Esta foi a forma pela qual uma nova figura, e não a menos
importante, ou seja, o cardeal Stepinac, veio a enriquecer a
galeria dos Grandes Jesuítas. Outro objetivo dessa reunião de
21 de dezembro de 1958, na cripta de Sainte-Odile, era
"lançar" um livro escrito em defesa do arcebispo de Zagreb,
pelo próprio Dragoun; o monsenhor Rupp, coadjutor do cardeal
Feltin, escrevia o prefácio. Não podemos realizar uma análise
completa, mas diremos o seguinte: O livro O Dossier do
Cardeal Stepinac promete ao leitor uma exposição objetiva do
julgamento de Zagreb. Nesse volume de 285 páginas
encontramos os discursos completos de dois advogados do
arcebispo, acompanhados ^e observações extensas do autor,
mas nem a própria acusação, nem o discurso da promotoria
são mencionados, sequer de passagem.
Sua adulação de Pavelitch e de seu regime de sangue. Nem
tinha le nenhuma autoridade, como afirmam, sobre os bispos
"Oustachi" Sacric, Garic, Aksamovic, Simrak, etc, que
louvavam o Poglavnik e aplaudiam os seus crimes, nem sobre
os "expedicionários" da Ação Católica, verdadeiros auxiliares
dos "Oustachi" que faziam as conversões, nem mesmo sobre
os franciscanos assassinos e nem sobre as freiras de Zagreb,
que marchavam atrás levantando suas fflãos, à moda de Hitler.
Que estranha "hierarquia" essa, que não delega a autoridade a
ninguém nem a nada! O fato dele se sentar, com outros dez
padres católicos, no "Sabor" (o Parlamento Oustachi) não
compromete o arcebispado, ou pelo menos, presumimos, que
isso deva ser simplesmente ignorado.
Não deveríamos reprová-lo nem por sua presidência sobre as
Conferências Episcopais, nem sobre o Comitê para a aplicação
do decreto referente à conversão dos ortodoxos. Nesta
apologia, o pretexto "humanitário" de ter feito tantos entrarem
para a Igreja Católica pela força está plena e habilmente
explicado.
Lemos o seguinte, em relação ao "difícil dilema" com o qual se
defrontava o monsenhor Stepinac: "Sua obrigação pastoral era
de manter intactos os princípios canônicos mas, por outro lado,
os dissidentes que se recusavam a abraçar o catolicismo eram
massacrados; assim, ele abrandou a severidade das regras."
Ficamos ainda mais desnorteados quando lemos um pouco
depois: "Ele tentou resolver esta questão dramática com uma
carta circular de 2 de março de 1942, na qual ordena os padres
a identificarem claramente os motivos da conversão". Este é,
sem dúvida, um método peculiar de "abrandar a severidade
das regras" e resolver "esta questão dramática"!
O monsenhor Stepinac estaria abrindo ou fechando as portas
da Igreja Romana aos falsos convertidos? Seria absolutamente
impossível descobrir, se lêssemos apenas o discurso da
defesa. Os apologistas do arcebispo parecem escolher o
"fechar"; no entanto, guando declaram: "Os casos de rebatismo
eram muito raros no território da arquidiocese de Zagreb".
Dragoun parece ignorar o provérbio francês "Qui n'entend
qu'une cloche n'entend qu'un son" (há sempre dois lados para
cada história) a menos, é verdade, que ele saiba isso até bem
demais! Sendo assim' essa obliteração (supressão) sistemática
do outro lado da história seria suficiente para fechar o debate.
Vamos considerar, no entanto as boas razões invocadas para a
inocência do bispo de Zagreb. Antes de tudo, porém, o
monsenhor Stepinac era de verdade o prelado metropolitano
da Croácia e da Eslovênia? O livro de Dragoun não responde a
esta pergunta. Em suas páginas, podemos ver o seguinte, das
próprias declarações de Stepinac diante do tribunal: 'A Santa
Sé enfatizou que as pequenas nações e as minorias nacionais
têm o direito de serem livres. Não deveria eu, como "bispo e
prelado metropolitano", ter o direito de discutir isto?" Quanto
mais lemos, menos entendemos!
Não faz mal! Como somos lembrados repetidamente, o
monsenhor Stepinac não poderia influenciar de forma alguma o
comportamento de seu rebanho e do clero. Para aqueles que
trazem à tona os artigos da imprensa católica louvando as
realizações de Pavelitch e seus assassinos contratados, eles
responderam assim: "É simplesmente ridículo tornar o
monsenhor Stepinac responsável pelo que um jornal
escreveu".
Mesmo quando este jornal era o Katolicki List, a mais
importante publicação católica em Zagreb, diocese do
monsenhor Stepinac! Nessas condições, não nos incomoda
mencionar o Andjeo Cuvar (O Anjo da Guarda), pertencente
aos franciscanos, o Glasnik Sv. Ante (A Voz de Santo Antônio)
dos conventuais, o Katolicki Tjednik (O Semanário Católico de
Sarajevo), o bispo Saritch, nem, é lógico, o Vjesnik Pocasne
Straze Srca Isusova (A Publicação da Guarda de Honra do
Coração de Jesus), pertencente aos jesuítas.
Estas poucas linhas do dossiê, no entanto, são muito mais
esclarecedoras: "O próprio promotor, em seu processo de
indiciamento, cita o Secretário de Estado da Santa Sé, cardeal
Maglione, que havia, ern 1942, aconselhado o arcebispo
Stepinac a estabelecer relações mais cordiais e sinceras com
as autoridades "Oustachi". Isto é suficiente para colocar um
ponto final em qualquer outra evasiva.
As ligações entre o Vaticano e os assassinos da Oustachi são
claras. A própria Santa Sé incentivava o monsenhor Stepinac a
colaborar com eles, e o representante pessoal de Pio XII, ao
tomar o seu lugar junto à mesa de Pavelitch, estava
simplesmente seguindo as instruções papais à letra:
sinceridade e cordialidade nas relações com os assassinos dos
fiéis ortodoxos, judeus e protestantes.
Isso não nos surpreende! O que, no entanto, os jesuítas
pensam, pois afirmam obstinadamente que a cooperação
constante dada pelos prelados aos ditadores era uma "opção"
inteiramente pessoal, e não determinada pelo Vaticano?
Quando o cardeal Maglione enviou as recomendações acima
mencionadas ao arcebispo de Zagreb, isso seria sua "opção
pessoal" a ser exprimida, sob o selo do secretário de Estado?
A prova da conivência entre a Santa Sé e os "Oustachis"
fornecida por Dragoun, que já foi mencionada, coloca um ponto
final neste capítulo, mas aqui surge uma nova confirmação dos
sentimentos "evangélicos" que floresciam, e ainda florescem,
entre os fiéis da Igreja Católica Croata em relação aos sérvios
ortodoxos. A "Federation Ouvrière Croate en France"
(Federação dos Trabalhadores Croatas na França) enviou um
convite para a reunião solene organizada para o domingo, 19
de abril de 1959, na sede da Confederação Geral dos
Trabalhadores Cristãos, em Paris, para celebrar o 18e
aniversário da fundação do Estado croata "Oustachi". Dizia: 'A
cerimônia começará com a santa missa na Igreja de
NotreDame-de-Lorette". O leitor, entretanto edificado pelo
"santo" começo do convite, ficava ainda mais perplexo quando,
em seguida, via a seguinte exortação: "Morte aos sérvios!"
Assim, este documento não tão banal expressa os pesares por
não se ver mais destes "irmãos em Cristo" mortos. O livro de
Dragoun, reitor da Missão Croata na França, sugere que as
boas-vindas dadas pelos franceses católicos aos refugiados
croatas não foram suficientemente calorosas.
Considerando os documentos mencionados, esta falta de
"compreensão" não deixa de ter a sua lógica; ficamos felizes
de ver que os católicos franceses, apesar dos inúmeros
convites, mostrem pouca simpatia pela forma de piedade em
que o chamamento dos assassinos caminha de mãos dadas
com a "santa missa", na melhor tradição romana e "Oustachi".
Ficaríamos ainda mais contentes se tais convites sedentos de
sangue não fossem autorizados para impressão e distribuição
na própria Paris.
A 10 de fevereiro de 1960, o infame arcebispo de Zagreb, Alois
Stepinac, morreu em sua vila natal de Karlovice, onde havia
sido obrigado a residir. Sua morte deu ao Vaticano a
oportunidade de organizar uma das suas manifestações
espetaculares pelas quais preza. Nessa ocasião, muito já havia
sido feito pelo Vaticano; muitos católicos, entretanto, não
tinham mais ilusões no que se referia ao "caso" Stepinac.
Assim a Santa Sé se superou ao dar a esta apoteose toda a
pompa possível.
O Osservatore Romano e toda a imprensa católica dedicaram
colunas aos louvores entusiásticos feitos ao "mártir", seu
"testamento espiritual" e aos discursos de Sua Santidade João
XXIII, proclamando "seu respeito e afeição sobrenatural"; estes
eram os motivos que o induziram a dar a este cardeal (que não
fazia parte da Cúria) as honras de um ritual solene em São
Pedro, em Roma, onde ele próprio lhe concedeu a absolvição
geral. E, para completar esta glorificação, a imprensa anunciou
a sua beatificação preparada para breve.
Infelizmente, as estatísticas nos contam o contrário, como
dissemos anteriormente: "Só na diocese de Gornji Karlovac,
parte do arcebis-pado de Zagreb, 40 mil pessoas foram
rebatizadas".
É evidente que tais resultados só poderiam ser obtidos através
de conversões em massa de vilas inteiras, tal como em
Kamensko exatamente na mesma arquidiocese do monsenhor
Stepinac, onde 400 ovelhas desgarradas voltaram ao rebanho
romano em um dia, "espontaneamente e sem qualquer tipo de
pressão por parte das autoridades civis ou eclesiásticas".
Por que, então, esconder estes números? Se estas conversões
fossem verdadeiramente devidas aos sentimentos "caridosos"
do clero católico da Croácia, e não à exploração cínica do
terror, eles deveriam ter ficado orgulhosos disso. A verdade é
que o véu jogado sobre estas infâmias, em uma tentativa de
esconde- Ias, é transparente para acobertar Stepinac; outros
teriam de ser desvendados: os bispos Saric, Garic, Simrak; os
padres Bilogrivic, Kamber, Bralo e seus comparsas -os
franciscanos e jesuítas teriam que ser descobertos e,
finalmente, a Santa Sé. Também poderíamos deixar este
estranho arcebispo desfrutar de sua "consciência tranqüila",
este primaz da Croácia supostamente despido de qualquer
autoridade, que chamava a si mesmo de "prelado
metropolitano", quando na verdade não o era e que, para
coroar o paradoxo, abria as portas quando as estava fechando.
Ao lado deste "fantástico" prelado, entretanto, havia outro,
consistente e corpulento, Marcone, o representante pessoal de
Pio XII. Será que este "Sancti Sedis legatus" também era
destituído de qualquer autoridade sobre o clero croata?
Ninguém sabe! O "dossiê" tão bem expurgado não faz qualquer
menção a esta "grande pessoa"; poderíamos até ignorar a sua
existência se não tivéssemos outras fontes de informação, a
exemplo das fotos que o mostram realizando missas na
catedral de Zagreb, entronado, no meio do Estado-Maior do
"Oustachi" e, acima de tudo, tomando uma refeição com a
família de Pavelitch, o católico "praticante" que organizava os
massacres. Confrontado com tal documentação, não é de
surpreender niie a presença do representante do papa tenha
sido "apagada"; os místicos chamariam a isto de "milagre"!
Devemos admitir que ele merecia tanto louvor, e até mesmo a
auréola, por ter observado com "santa obediência" e executado
literalmente as ordens não positivas da Santa Sé no que se
refere às relações "cordiais e sinceras" que eram desejadas
entre a Santa Sé e os "Oustachis". Esperamos que alguns
católicos sinceros possam ser encontrados, os quais possam
discenir mais além da exaltação deste futuro santo e o funeral
sob lembranças sangrentas do seu "apostolado", a tentativa do
Vaticano de esconder o seu próprio crime.
O Movimento Jesuíta na França Antes e Durante a Guerra de
1939-1945
Vimos como a Ação Católica, com Leon Degrelle e seus sócios
no comando, preparou o caminho para Hitler na Bélgica do
"Christus Rex". Na França, a mesma atividade de minar
acontecia. Começou quando Mussolini chegou ao poder e
terminou finalmente em 1940, com o colapso da defesa
nacional. Quanto à Bélgica, foi, como nos informam, com os
"valores espirituais", que deveriam se restaurar, para o bem da
nação.
A FNC, Federation Nationale Catholique, nasceu e se
estabeleceu sob a presidência do general de Castelnau, com
um número de associados que chegava a três milhões. A
escolha de seu líder foi inteligente: um general de 78 anos de
idade, uma grande figura militar que acobertava com o seu
prestígio pessoal (de forma inconsciente, é lógico) um
programa intenso de propaganda clérico-fascista.
Que a FNC, à semelhança de toda a 'Ação Católica", era,
acima de tudo, jesuíta, isso é óbvio. Também sabemos que os
bons padres, cujo pecado eterno é o orgulho, gostam de
colocar sua assinatura em todas as suas criações. Assim
fizeram no caso da FNC, quando consagraram este Exército
católico ao Sagrado Coração de Jesus, üm culto criado pela
Companhia de Jesus e cuja basílica está erguida em
Montmartre, de onde Ignácio de Loyola e seus companheiros
se armaram para a conquista do mundo. Um livro relativo à
FNC, cujo prefácio foi escrito por Janvier, preservou para a
posteridade o ato de consagração lido no altar pelo velho
general. Citaremos apenas algumas poucas frases: "Sagrado
Coração de Jesus, os chefes e representantes dos católicos
franceses, que se prostram agora diante de ti, se reuniram e
organizaram a FNC (Federação Nacional Católica) para
reestabelecer o teu reino sobre esta terra. Todos nós, aqueles
que estão presentes e os que estão ausentes, nem sempre
somos perfeitos. Carregamos o fardo dos crimes da nação
francesa cometidos contra ti. Tendo em vista, portanto, a
reparação e expiação é que nos apresentamos perante ti, hoje,
com nossos desejos, intenções e a resolução unânime de
reestabelecer sobre toda a França tua soberania sagrada e
real, e liberar as almas desses filhos do ensino sacrílego. Não
nos acovardaremos mais diante da luta pela qual tiveste a
condescendência de nos armar. Queremos que tudo esteja
empenhado e devotado ao teu serviço". "Sagrado Coração de
Jesus, suplicamos, através da Virgem Maria, que receba a
homenagem".
Quanto aos "crimes da nação francesa", o mesmo autor
católico os enumera: Palavras e diretivas gerais mortais: o
socialismo está condenado; o liberalismo está condenado.
Leão XIII mostrou que a liberdade de culto é injustificável. O
papa também demonstrou que a liberdade de opinião e
expressão não pode ser justificadamente aceita.
Assim, a liberdade de pensamento, imprensa, ensino e culto,
consideradas como direitos naturais do homem, não podem ser
concedidas. "Devemos", diz Pio XI, "reinstaurar estes
ensinamentos e regulamentos da Igreja". Este é o objetivo
principal da FNC, sob o controle da hierarquia e assegurado
pela descentralização dos comitês diocesanos. Tanto na Ação
Católica quanto nessa guerra, a famosa palavra do general de
Castelnau se mantém válida: 'Avante !"(95) Isso é claro e
explícito. Sabemos, portanto, o que esperar quando lemos de
Pio XI: 'A Ação Católica é o apostolado dos fiéis" (Carta ao
cardeal Van Roey, 15 de agosto de 1929). Que estranho
apostolado, que consiste na rejeição de todas as liberdades
valorizadas pelos países civilizados e, ao invés dessas, colocase
como patrão do evangelho totalitário! Teria este o "direito de
comunicar a outras mentes os tesouros da Redenção"? (Pio XI,
Non abbiamo bisogno).
Na Bélgica, Leon Degrelle e seus amigos, heróis da Ação
Católica, espalhavam à sua volta esses "tesouros da
Redenção", revisados e atualizados pelo padre jesuíta
Staempfle, o autor secreto de Mein Kampf. O mesmo sucedeu
na França, onde os apóstolos leigos, "unindo-se na atividade
do apostolado hierárquico" (Pio XI "dixit"), estavam ocupados
preparando "outra colaboração".
Vejamos o que Franz von Papen, o camareiro secreto do papa
e braço direito do Fuhrer, escreveu no que se refere a esse
assunto: "Nosso primeiro encontro aconteceu em 1927, quando
uma delegação alemã à qual eu tinha a honra de pertencer,
veio a Paris, para a Semana Social do Instituto Católico, sob a
presidência de monsenhor Baudrillart. Foi realmente um
primeiro contato frutífero, pois marcou o início de uma longa
troca de visitas entre personalidades importantes da França e
da Alemanha. Do lado francês, Delattre (jesuíta), de Ia Brière
(jesuíta) e Denset (jesuíta) estiveram presentes nessas
conferências".
Mais adiante, o "bom apóstolo" acrescenta que às vezes "esta
conferência de católicos chegava a alturas sobre-humanas de
grandeza". Essa "grandeza" atingiu o seu ápice a 14 de junho
de 1940, o dia que viu a bandeira adomada com a suástica
voar vitoriosamente sobre Paris. Sabemos que Goebbels,
chefe da propaganda hitlerista, definiu a data três meses antes,
a 14 de março, e que a ofensiva alemã só foi lançada no dia 10
de maio. A precisão dessa previsão não é tão surpreendente
quanto possa parecer. Aqui segue o relatório secreto do agente
654 J.56, que trabalhava para o Serviço Secreto Alemão, e que
enviou estas revelações a Himmler: "Paris, 5 de julho de 1939.
Posso declarar que, na França, a situação está nas nossas
mãos. Tudo está pronto para o dia J e todos os nossos agentes
estão em seus postos. Dentro de algumas semanas, a força
policial e o sistema militar irão ruir como um dominó".
Muitos documentos secretos relatam que os traidores haviam
sido escolhidos muito tempo antes. Homens como Luchaire,
Bucard, Deat Doriot e Abel Bonnard, da Academia
Francesa.(97) Este, em especial, fugiu para a Espanha quando
da Libertação. Voltou à França no dia Ia de julho de 1958 e se
entregou, mas foi imediatamente libertado em termos
temporários pelo presidente da Alta Corte da Justiça.
O livro extremamente documentado de André Guerber dá
detalhes de pagamentos feitos a esses traidores pela SR
alemã. Este dinheiro era bem utilizado, pois o trabalho deles
era muito eficaz. O ambiente já estava sendo preparado há
muito tempo.
A fim de "regenerar" a terra de acordo com os desejos da Ação
Católica, toda uma ninhada de aprendizes de ditador, no
modelo de Leon Degrelle, havia sido criada; homens como
Deat, Bucard, Doriot (que era, de acordo com André Guerber, o
"agente n2 56 BK do Serviço Secreto Alemão"). De todo este
bando heterogêneo, Doriot também era o mais bem visto pelo
arcebispo, que contava com as maiores atenções de todos e, é
lógico, de Hitler que, posteriormente, em Sigmaringen,
concedeu-lhe amplos poderes. Doriot era a estrela em
ascensão mas, para o futuro imediato e para tratar com
cuidado da transição após a derrota prevista e aguardada, era
necessário um outro homem, um chefe militar altamente
respeitado, que fosse capaz de disfarçar o desastre e
apresentá-lo como uma "recuperação nacional".
Já em 1936, o cônego Coube escreveu: "O Senhor que trouxe
Carlos Magno e os heróis das Cruzadas ainda pode levantar
sábios. Dentre nós, deve haver homens que Ele tenha marcado
com o Seu Selo e que serão revelados quando chegar a hora.
Dentre nós, deve haver homens da terra que sejam os
trabalhadores para a grande recuperação nacional. Mas quais
são os requisitos necessários para executarem esta missão?
As qualidades naturais de inteligência e caráter; as
sobrenaturais, ou seja, a obediência a Deus e à Sua Lei
também são indispensáveis, pois esse trabalho político é, antes
de tudo, moral e religioso. Esses sábios são homens com
corações generosos que trabalham apenas para a glória de
Deus".
Quando o discípulo de Loyola expôs esses pensamentos
políticos e religiosos, sabia quem seria esse santo "sábio", pois
seu nome não era desconhecido no clero e, entre os fascistas,
o que segue nos é dito por François Ternand: "Uma campanha
de propaganda inteligente e persistente foi iniciada em favor de
uma ditadura Petain".
Em 1935, Gustave Hervé publicou um panfleto. O tratado é
intitulado "Precisamos de Petain". Seu prefácio é uma apologia
entusiástica da "recuperação italiana" e da mais espantosa
recuperação alemã. Também é uma exaltação dos líderes
maravilhosos que eram os autores dessas recuperações.
Quanto ao nosso povo francês? Existe um homem entre nós
que pode nos erguer. Também temos um homem providencial.
Quer saber o seu nome? É Petain. Precisamos de Petain, pois
a pátria está em uma situação perigosa e não apenas a pátria,
mas também o catolicismo: 'A civilização cristã está condenada
à morte se um regime ditatorial não for imposto em todos os
países".
Ouçam: No tempo de paz, um regime só pode ser derrubado
por um golpe de Estado se ele assim o quiser ou não tiver o
apoio de seu Exército ou burocracia. A operação pode ser um
sucesso somente através da guerra e especialmente da
derrota.
A trilha a seguir já estava aberta em 1935 para recristianizar a
França; o regime tinha de ser banido, e a melhor maneira de
chegar a isso era sofrendo uma derrota militar que colocasse a
França sob o jugo alemão. Em 1943, isso foi confirmado por
Pièrre Lavai, assessor do papa e presidente do governo de
Vichy. "Espero que a Alemanha seja vitoriosa. Pode parecer
estranho ouvir isso: que alguém derrotado deseje a vitória do
vencedor. Mas é porque essa guerra não é como as anteriores.
É uma verdadeira guerra religiosa! Sim, uma guerra religiosa !"
Isso era realmente o que a Igreja queria, apesar de
desagradável aos ouvidos do "esquecido" jesuíta Fessard, já
mencionado anterior mente, que não quer saber mais sobre o
que foi dito na rádio americana para os 20 milhões de ouvintes
do Christian Front, pelo seu irmão jesuíta o padre Coughlin: 'A
guerra alemã é uma batalha pela Cristandade"
Durante o mesmo período, na França ocupada, o cardeal
Baudrillart, reitor do Instituto Católico em Paris, dizia a mesma
coisa. Vejam: 'A guerra de Hitler é uma nobre iniciativa
assumida para a defesa da cultura européia".(102) Ambos os
lados do Atlântico, como na verdade por todo o mundo, as
vozes do clero estavam cantando os louvores do nazismo
vitorioso. Na França, o cardeal Suhard, arcebispo de Paris, deu
o exemplo a todos os episcopados, "colaborando"
completamente, e assim também o fez o núncio jesuíta
monsenhor Valerio Valeri. Após a Libertação, o governo pediu
ao Vaticano para expatriar nada menos do que 30 bispos e
arcebispos que tinham estado profundamente comprometidos.
Por fim, o Vaticano consentiu em expatriar somente três deles.
'A França se esqueceu...", escreveu Maurice Nadeau.
O La Croix, o mais perigoso porta-voz a serviço do colaboracionismo,
reassume seu papel entre as publicações da França
libertada e os prelados que estavam incitando a juventude
francesa a trabalhar pela vitória da Alemanha não foram
levados a tribunal.
Pode-se ler no Artaban, de 13 de dezembro de 1957: "Em
1944, o La Croix foi processado por ter favorecido o inimigo e
levado diante da Corte de Justiça em Paris. O caso foi posto
nas mãos do juiz Raoult, que o liberou da acusação. O caso foi
discutido na Câmara, a 13 de março de 1946 (veja J.O.
Debates Parlamentares, páginas 713-714) e soube-se que,
então, M. de Menthon, ministro da Justiça e devotado
expurgador da imprensa francesa, havia se declarado em favor
do La Croix".
A "voz do pensamento papal" (conforme Pio XII o chamou em
1942, ao enviar a sua bênção) foi a única publicação isenta das
medidas gerais tomadas para suprimir os veículos de
propaganda da ocupação. Apesar disso, conforme o Artaban
lembra, "La Croix recebeu instruções do tenente alemão Sahm
e, em Vichy, de Pièrre Lavai". É lógico, o "pensamento papal" e
as instruções hitleristas coincidiam de forma feliz. Isso se
confirma quando estudamos as edições da época da guerra
dessa estimada publicação.
Uma das atribuições dos jesuítas, e não a menos importante, é
supervisionar toda a imprensa católica. Nas suas, publicações
adaptadas às necessidades de seus leitores, trazem várias
perspectivas deste "pensamento papal" que, sob variados
aspectos, sempre acabam por atingir implacavelmente seus
objetivos. Não há um jornal ou periódico "cristão" que não
conte com a colaboração de alguns "discretos" jesuítas. Esses
padres, considerados "tudo para todos os homens", sem
dúvida são os melhores ao brincarem de camaleões. Isso eles
fazem bem e, como sabemos, após a Libertação tivemos a
surpresa de ver surgir, em todos os lugares, os padres "que
haviam pertencido à Resistência" (eles entraram nessa muito
tempo depois de outros!) e que testificavam que a Igreja nunca,
nunca havia "colaborado". Esquecidos, abolidos, evaporados
foram todos os artigos do La Croix e de outros jornais católicos,
os mandatos episcopais, as cartas pastorais, as comunicações
oficiais da Assembléia de Cardeais e Arcebispos, as
exortações do cardeal Baudrillart, convocando a juventude
francesa a usar o uniforme nazista e servir na L.VF após terem
feito um juramento de lealdade a Hitler! Tudo isso era passado
e esquecido! 'A história é uma novela", disse um pensador
desiludido.
A da nossa época será a prova desta definição: a novela está
sendo escrita sob nossos olhos. Muitos "historiadores" estão
contribuindo Para isso; eclesiásticos e leigos extremamente
empenhados também e podemos estar certos que o resultado
será "edificante": uma novela católica, com certeza.
A contribuição dos jesuítas é extensa, tal qual a valiosa
herança do padre Loriquet, cuja "História da França" faz um
retrato fantástico de Napoleão.
Comparada a esse feito notável, seria uma coisa simples a
camuflagem da colaboração entre os sacerdotes e o invasor
alemão, de 1940 e 1944, e a posterior eliminação. Isto se
mantém ainda hoje, após tantos anos; muitos artigos vêm
sendo escritos em jornais, periódicos, livros e outras
publicações, sob o patrocínio da "Imprimatur", para louvar os
superpatriotas julgados de forma leviana, como por exemplo
Suhard, Baudrillart, Duthoit, Auvity, Du Bois de Ia Villerabel,
Mayol de Luppe e outros! Quanta tinta gasta para exaltar a
atitude - tão heróica - do episcopado, durante os anos de
guerra nos quais a França experimentou "uma situação que
levou os bispos franceses a se tornarem os "defensores da
cidade", como escreveu um humorista.
"Calúnias e mais calúnias! Alguma coisa verdadeira deve ser
dita!", avisou Basile, esse tipo perfeito de jesuíta. "Pôr a limpo,
pôr a limpo de novo", dizem seus sucessores, grandes
escritores de "novelas históricas". Esse "pôr a limpo" continua
sendo feito extensivamente. As gerações futuras, submersas
em tantos exageros, devotarão a eles sentimentos de gratidão -
pelo menos, achamos que sim - a esses "defensores" da
cidade, esses heróis da Igreja Romana e da Pátria, "vestidos
com uma honestidade cândida de linho branco" pelo trabalho
de seus apologistas. Alguns foram até mesmo canonizados!
A 25 de agosto de 1944, o cardeal jesuíta Suhard, arcebispo de
Paris (desde 11 de maio de 1940!) e líder do clero
colaboracionista, decidiu imperturbavelmente celebrar o "Te
Deum" da vitória em Notre Dame. Fomos poupados dessa
farsa inaudita apenas pelo "forte protesto do capelão geral da
F.F.I."
Lemos no France Dimanche de 26 de dezembro de 1948: "Sua
Eminência, o cardeal Suhard, arcebispo de Paris, no
aniversário de sua admissão ao sacerdócio, acaba de receber
uma carta autografada de sua Santidade Pio XII, que o
congratula, entre outras coisas, pelo apel que exerceu durante
a ocupação". Sabemos que o comportamento do cardeal
durante aquele período havia sido profundamente criticado
após a Libertação. Quando o general De Gaulle voltou a paris,
em agosto de 1944, recusou-se a encontrar com o cardeal no
"Te Deum" de Notre Dame.
Naquela época, o cardeal era acusado abertamente de
"tendências colaboracionistas". As congratulações do "Santo
Papa" são, portanto, compreensíveis, mas há uma outra
história do "Te Deum" ainda mais "edificante"! Após o
desembarque dos aliados, a cidade de Rennes sofreu muito
com os combates que vieram a seguir, e muitos morreram
dentre a população civil, pois o oficial comandante do batalhão
alemão havia se negado a deixar que abandonassem o local.
Quando a cidade foi tomada, o "Te Deum" tradicional seria
celebrado, mas o arcebispo e primaz da Bretanha, monsenhor
Roques, se recusou peremptoriamente não apenas a celebrá-la
mas ainda a autorizar que essa cerimônia fosse realizada na
Catedral. Agradecer aos Céus pela libertação da cidade era um
escândalo intolerável aos olhos desse prelado.
Por causa dessa atitude, ele foi confinado à residência do
arcebispo pelas autoridades francesas. Tal lealdade ao
"pensamento papal" pedia uma retribuição equivalente. Esta
veio de Roma, logo depois, na forma de um chapéu de cardeal.
Podemos culpar Pio XII por muitas coisas, mas temos de
admitir que ele sempre "reconheceu seus pares". Uma carta
elogiosa ao cardeal Suhard, colaboracionista distinto; o
cardinalato ao monsenhor Roques, herói da Resistência Alemã:
este "grande papa" estava praticando uma justiça estritamente
distributiva. É claro que seus assessores eram do tipo que
Poderiam aconselhá-lo sabiamente: dois jesuítas alemães,
Leiber e Hentrich, "seus dois secretários particulares e seus
favoritos". Seu confessor era o jesuíta alemão Bea; a irmã
Pasqualina, freira alemã, supervisionava a casa e cozinhava
tudo para ele. Até mesmo o vinho, com o nome de "Dumpfaf',
havia sido importado do outro lado do Reno. Este Soberano
Pontífice, no entanto, não havia dito Ribbentrop, depois de
Hitler ter invadido a Polônia, que "ele serrmr teria uma afeição
especial pela Alemanha?"
A Gestapo e a Companhia de Jesus
Se a boa vontade e amabilidade de Pio XI e Pio XII nunca
falharam em relação ao Fuhrer que eles haviam conduzido ao
poder, devemos admitir que ele também cumpria todas as
condições do Pacto pelo qual estava ligado ao Vaticano.
Conforme havia expressamente prometido estrangular os
anticlericais, esses logo seguiram os liberais e judeus para os
campos de concentração. Sabemos de que forma o líder do
Terceiro Reich tinha decidido o destino dos judeus: foram
simplesmente massacrados ou, quando ainda eram
favorecidos, obrigados a trabalhar até a exaustão e então
liquidados. Nesse caso, a "solução final" era apenas
postergada. Vejamos primeiro, porém, como uma
personalidade especialmente "autorizada", o "gene-ralíssimo"
Franco, Cavaleiro da Ordem de Cristo, confirmou
expressamente a ligação entre o Vaticano e os nazistas.
De acordo com o Reforma, isso é o que a imprensa do ditador
espanhol Franco publicou a 3 de maio de 1945, o dia da morte
de Hitler: "Adolf Hitler, filho da Igreja Católica, morreu enquanto
defendia a Cristandade. É compreensível que não encontremos
palavras para lamentar a sua morte, quando tantos existiram
para exaltar a sua vida. Sobre os seus despojos mortais está a
sua figura moral vitoriosa. Com o galardão de mártir, Deus dá a
Hitler as áureas da Vitória".
Essa oração funeral do chefe nazista, um desafio aos aliados
vitoriosos, é proclamada pela própria Santa Sé, através da
cobertura da imprensa de Franco. E um comunicado do
Vaticano feito através de Madrid. É evidente que esse "herói"
ausente tenha merecido tanto a gratidão da Igreja Romana -
que eles não tentem escondê-la. Hitler serviu fielmente: todos
aqueles que essa Igreja lhe indicava como a jo seus
adversários sentiram as conseqüências. E esse bom "filho" não
tardou em admitir o que devia à sua Santíssima Mãe e,
especialmente, àqueles que se haviam feito seus soldados
neste mundo. Aprendi muito com a Companhia de Jesus",
disse Hitler. 'Até hoje, nunca houve nada mais grandioso na
Terra do que a organização hierárquica da Igreja Católica",
exaltava o ditador.
"Implantei muitas coisas dessa organização em meu próprio
partido. Vou lhe contar um segredo: estou fundando uma
Ordem. Nas fortalezas da minha Ordem, criaremos uma
juventude que fará o mundo tremer". Hitler então parou,
dizendo que não podia contar mais nada".
Outro hitlerista com alto cargo, Walter Schellenberg, ex-chefe
da contra-espionagem alemã, nos passa esta confidencia do
Fuhrer, após a guerra: 'A organização da SS tinha sido
constituída por Himmler, de acordo com os princípios da
Ordem jesuíta. Seus regulamentos e os Exercícios Espirituais
prescritos por Ignácio de Loyola foram o modelo que Himmler
tentou copiar com exatidão. O "Reichsfuhrer SS", título de
Himmler como chefe supremo da SS, era o equivalente ao de
"prior jesuíta" e toda a estrutura da direção era uma imitação
quase perfeita da ordem hierárquica da Igreja Católica. Um
castelo medieval, próximo a Paderbom, na Westphalia,
chamado de "Webelsbourg", foi restaurado. Tornou-se o que
poderia ser chamado de uma monastério da SS".
Os melhores escritores teológicos se ocuparam em demonstrar
a similaridade entre as doutrinas católicas e nazistas. Nesse
trabalho, os filhos de Loyola eram os mais empenhados. Como
exemplo, vejamos °que Michaele Schmaus, teólogo jesuíta,
apresentou ao público numa Sene de estudos sobre esse
assunto: "O Império e a Igreja" é uma série de escritos que
deveriam ajudar a construir o Terceiro Reich corno uma união
do nacional-socialismo à cristandade católica. O movimento
nacional-socialista é o protesto mais vigoroso e envolve^ contra
o espírito dos séculos XIX e XX. Um compromisso entre a f
católica e o pensamento liberal é impossível. Nada é mais
contrário ao catolicismo do que a democracia. O sentido
despertado da "autoridade estrita" abre novamente o caminho
para a interpretação real da autoridade eclesiástica. A falta de
confiança na liberdade é baseada na doutrina católica do
pecado original. Os mandamentos do nacional-socialismo e os
da Igreja Católica têm o mesmo objetivo".(110)
Esse objetivo era o da "nova Idade Média" que Hitler prometia
à Europa. A similaridade é óbvia entre o anti-liberalismo
passional desse jesuíta de Munique e o idêntico fanatismo
expressado durante o "ato de consagração da FNC na basílica
de Montmartre". Durante a ocupação, o R. P. Marklen
escreveu: "Nesses dias, a liberdade não parece mais merecer
qualquer estima".
Citações como essas podem ser multiplicadas em milhares.
Não seria esse ódio da liberdade sob todas as suas formas o
próprio caráter do "Senhor de Roma"? É fácil compreendermos
também como as doutrinas católica e nazista podiam se
harmonizar tão bem. Quem pode demonstrar isso com
habilidade, o "jesuíta Michaele Schmaus", foi chamado pelo La
Croix, dez anos depois da guerra, de "o grande teólogo de
Munique"(112), e ninguém deve se assustar ao ficar sabendo
que ele foi elevado a "Príncipe da Igreja" durante Pio XII. Sob
tais circunstâncias, o que significa então a "terrível" encíclica
"Mit brennender Sorge", de Pio XI, que supostamente
condenava o nazismo? Nenhum casuísta jamais tentou nos
explicar... é evidente!
O "grande teólogo", Michaele Schmaus, tinha muitos rivais, de
acordo com um autor alemão que vê no Katolisch
Konservatives Erbgut o livro mais estranho já publicado pelas
Edições Católicas Alemãs: "Essa antologia que traz textos
reunidos dos principais teóricos católicos da Alemanha, de
Gorres a Vogelsang, nos faz acreditai que o nacionalsocialismo
nasceu de ideais católicos". Ao escrevei isso, o
autor certamente não imaginava que estivesse tão correto.
Outra pessoa muito bem informada, o principal eixo do pacto
entre a Santa Sé e Berlim e também camareiro secreto do
papa, Franz von Papen, foi ainda mais explícito: "O Terceiro
Reich é o poder do nrimeiro mundo que não apenas
reconhece, mas também coloca em otática os altos princípios
do papado".
A isso, acrescentaremos os resultados desse "pôr em prática":
25 milhões de vítimas em campos de concentração, número
oficial emitido pela ONU, Organização das Nações Unidas.
Achamos necessário lembrar algo para mentes cândidas, para
aqueles que não podem admitir que os massacres organizados
foram um dos "altos princípios do papado". É claro que essa
candura é diligentemente conservada: "Essas barbaridades
pertencem ao passado!", dizem alguns bons apóstolos aos
simples, enquanto erguem suas vozes diante dos nãocatólicos,
"para quem as fogueiras da Santa Inquisição ainda
estão queimando"
Que assim seja! Deixemos de lado os testemunhos superabundantes
sobre a ferocidade clerical de anos passados para
nos atermos somente ao século XX. Não vamos lembrar nem
os feitos de homens como Stepinac e Marcone, na Croácia,
nem Tiso, na Eslováquia, mas nos limitaremos a examinar a
ortodoxia de certos "altos princípios" que puseram em prática
tão bem.
Será que esses princípios estão realmente ultrapassados hoje,
repudiados por uma doutrina "das luzes", oficialmente
rejeitados pela Santa Sé com outros erros do passado negro?
É fácil de descobrir. 0 livro Grandes Apologéticos, do abade
Jean Vieujan, que não pode de forma alguma ser chamado de
medieval, pois foi datado de 1937. 0 que lemos? "Aceitar o
princípio da Inquisição, só precisamos ter uma mentalidade
cristã, e isso é o que falta a muitos cristãos. A Igreja não tem
tal timidez".
Não poderia ser dito de outra forma. Será que outra prova, não
menos ortodoxa e moderna, é necessária? Vejamos o que R. E
Janvier, Urn famoso conferencista de Notre Dame diz: "Em
virtude de seu poder indireto em questões materiais, a Igreja
não deveria ter direito de esperar de Estados católicos a
opressão dos hereges até o limite da morte, de forma a
suprimi-los? Aqui está a resposta: "Eu sou completamente a
favor disso, até o limite da morte. Agindo primeiramente na
prática, depois no ensino da própria Igreja, estou seguro que
nenhum católico diria o contrário sem correr o risco de pecar
gravemente".
Não podemos acusar esse teólogo de falar nas entrelinhas.
Seu discurso foi claro e conciso. Seria impossível dizer mais
com menos palavras. Tudo está aí, com relação ao direito que
a Igreja atribui a si própria, de exterminar aqueles cujas
crenças não correspondam às suas: o "ensino" que os obriga;
a "prática" que legitima a tradição e até mesmo a "convocação
dos Estados cristãos", cujo exemplo perfeito é a cruzada
hitlerista.
As próximas palavras, nem um pouco ambíguas, também não
foram pronunciadas na escuridão da Idade Média: "A igreja
pode condenar os hereges à morte, pois quaisquer direitos que
venham a ter só existem por causa da nossa tolerância, e
esses direitos são aparentes, mas não são reais". O autor
desse texto foi o prior jesuíta Franz Wernz (1906-1915), e o
fato de ser ele alemão dá ainda mais peso a essa declaração.
Também durante o século XX, o cardeal Lepicier, famoso
príncipe da Igreja, escreveu: "Se alguém confessa
publicamente que é um herege ou tenta perverter outros, por
seu discurso ou exemplo, pode não só ser excomungado mas
também assassinado justamente".(118e usa) «£e jsso n;jo
pU(jer ser considerado um apelo característico à matança, que
me transformem também em um moedor de pimenta", como
Courteline disse recentemente.
Também querem a contribuição do Sumo Pontífice? Aqui está,
de um papa moderno, cujo "liberalismo" foi criticado pelo clero
intransigente, o papa jesuíta Leão XIII: 'Anátema (excomunhão)
sobre aquele que diz: o Espírito Santo não quer que matemos
os ereges". Que outra autoridade mais alta poderia ser
invocada depois dessa, além do próprio Espírito Santo? Apesar
disso poder desagradar àqueles que manipulam a cortina de
fumaça (referência àqueles que fazem os sinais de fumaça
durante a escolha do papa), os consolos para as consciências
inquietas, os "altos princípios" do papado continuam de pé,
intactos e, entre outras coisas, a exter-minação pela Fé é tão
válida e canônica hoje em dia quanto foi no passado.
Uma conclusão muito "esclarecedora" - para usar uma palavra
muito familiar aos místicos - quando consideramos o que
aconteceu na Europa entre 1939 e 1945: "Hitler, Goebbels,
Himmler e a maior parte dos membros da "velha-guarda" do
partido eram católicos", escreveu Frederic Hoffet. "Não foi por
acaso que, por causa da religião de seu líder, o governo
nacional-socialista foi o mais católico que a Alemanha já teve
algum dia", continuou.
Esse parentesco entre o nacional-socialismo e o catolicismo é
ainda mais impressionante se estudarmos de perto os métodos
de propaganda e a organização interior do partido. Sobre esse
assunto, nada é mais instrutivo do que os trabalhos de Joseph
Goebbels, criado em um colégio jesuíta e seminarista antes de
se dedicar à literatura e à política. Cada página, cada linha de
seus escritos lembra os ensinamentos de seus mestres; assim
é que ele enfatiza a obediência e o desprezo pela verdade.
'Algumas mentiras são tão úteis quanto o pão", proclamou, em
virtude de um relativismo moral extraído dos escritos de Ignácio
de Loyola".
Hitler não atribuiu o prêmio do jesuitismo ao seu chefe de
propaganda, mas ao seu chefe da Gestapo, conforme disse
aos seus auxiliares: "Posso ver Himmler como nosso Ignácio
de Loyola".(120) Para dizer uma coisa dessas, o Fuhrer deve
ter tido boas razões.
Em primeiro lugar, percebe-se que Kurt Heinrich Himmler,
Reichsfuhrer da SS, Gestapo e forças policiais alemãs, parecia
ser um dos mais clericalistas entre os membros católicos da
assessoria de Hitler. Seu pai havia sido diretor de uma escola
católica em Munique, depois tutor do príncipe Ruprecht, da
Bavária. Seu irmão um monge beneditino, vivia no monastério
de Maria Laach, um d^ principais locais do pan-germanismo.
Um tio seu também havia trabalhado com o importante cargo
de cônego da Corte da Bavária o jesuíta Himmler.
O autor alemão Walter Hagen também nos fornece essa
interessante informação: "O prior jesuíta, conde Halke von
Ledochowski estava pronto para organizar na base comum do
anticomunismo' alguma colaboração entre o Serviço Secreto
Alemão e a Ordem Jesuíta".
Como resultado disso, dentro da Central do Serviço de
Segurança da SS, uma organização foi criada, e a maior parte
de seus postos foram exercidos por padres católicos usando o
uniforme preto da SS. O padre jesuíta Himmler era um dos
oficiais superiores. Após a capitulação do Terceiro Reich, ele
foi preso e levado a Nuremberg. Seu depoimento no tribunal
internacional teria sido aparentemente muito interessante, mas
a "Providência" foi vigilante: o tio de Heinrich Himmler nunca se
apresentou perante a Corte. Em uma certa manhã, ele foi
encontrado morto na sua cela, e o mundo nunca veio a saber a
causa de sua morte. Não insultaremos a memória desse
sacerdote, supondo que ele deu fim a seus dias por livre e
espontânea vontade, contra as leis de ensino solenes da Igreja
Romana. Sua morte foi repentina e oportuna, tanto quanto a de
outro jesuíta, algum tempo antes, padre Staempfle, o autor não
reconhecido de Mein Kampf. Realmente, uma estranha
coincidência...
Voltemos, porém, a Kurt Heinrich Himmler, chefe da Gestapo, o
que significava que ele tinha nas mãos as rédeas essenciais
para o poder do regime. Será que foi por seus méritos pessoais
que conquistou tão alta posição? Hitler via nele uma
genialidade superior quando o comparou ao criador da Ordem
Jesuíta? Isso com certeza não corresponde aos testemunhos
daqueles que o conheciam e que não viam nele nada mais do
que um homem medíocre.
Será que aquela estrela brilhava com um brilho emprestado?
Era realmente Himmler, o chefe ostensivo, quem governava
sobre a Gestapo e os serviços secretos? Quem estava
mandando milhões de pessoas ao desespero, judeus aos
campos da morte e deportando homens por motivos políticos?
Seria o sobrinho de cara amassada ou o tio, ex-cônego da
Corte da Bavária, um dos favoritos de Ledochowski, um padre
jesuíta e oficial superior da SS?
Pode parecer excessivo, e até mesmo presunçoso olhar tão
para trás, ou seja, por detrás das cortinas da História. A peça é
representada no palco, diante de luzes arranjadas na ribalta,
nas varas de luz e nas laterais. Sempre é assim para qualquer
show, mas aquele que quer enxergar para além do óbvio pode
ser visto como encrenqueiro e inconveniente. Os atores
fantoches sobre quem o público lança o seu olhar vêm todos
da parte detrás das cortinas. Isso fica ainda mais evidente
quando estudamos esses "monstros sagrados" e percebemos
que estão longe de serem iguais aos indivíduos que
supostamente devem representar. Esse parece ser o caso de
Himmler.
Não seria correto dizer o mesmo daquele a quem prestou ajuda
como sendo seu braço direito, Hitler? Quando vemos Hitler
gesticular nas telas ou ouvimos seus discursos histéricos, não
temos a impressão de estarmos olhando os movimentos de um
autômato ajustado de forma doentia, com molas estragadas?
Até mesmo os seus movimentos mais simples lembram um
boneco mecânico. E o que dizer dos seus olhos imensos e
arregalados, nariz mole, fisionomia "estourada", cuja
vulgaridade não poderia ser disfarçada pelo famoso tufo de
cabelo e bigode de escovinha que parecia grudado embaixo
das narinas? Esse resmungão de praça pública poderia ser um
verdadeiro líder, o "verdadeiro senhor da Alemanha", um
"autêntico" homem de Estado cuja genialidade faria o mundo
virar de cabeça para baixo? Ou será que ele era apenas um
mau substituto para tudo isso? Uma pele que cobria de forma
esperta um fantasma, para o uso das massas, um agitador da
plebe? Ele próprio admitiu isso quando disse: "Sou apenas
uma trombeta!".
François Poncet, então embaixador francês em Berlim,
confirma que Hitler trabalhou muito pouco, não costumava ler e
deixava seus colaboradores à vontade para trabalharem. Seus
auxiliares davam a mesma impressão de vazio e irrealidade. O
primeiro, Rudolf Hess que voou para a Inglaterra em 1941,
parecia no seu próprio julgamento em Nuremberg um completo
estranho, e nunca soubemos se ele era um louco ou só um
lunático. O segundo era o grotesco Goering, vaidoso e obeso,
que vestia os uniformes mais engraçados e espetaculares, um
viciado em morfina. As outras personalidades fundamentais do
partido tinham as mesmas características e, nos julgamentos
de Nuremberg, uma das surpresas maiores dos jornalistas era
de terem de relatar que - tirando os seus defeitos particulares -
esses heróis nazistas não tinham inteligência, caráter, e eram
mais ou menos insignificantes. O único que estava acima
dessa massa vulgar - por causa de sua astúcia, e não pelo seu
valor moral - era Franz von Papen, o camareiro de Sua
Santidade, o "homem para todas as missões", que ia ser
inocentado. Se o Fuhrer surge como um boneco extraordinário,
seria quem o modelou pelo menos mais consistente?
Vejamos a exibição ridícula daquele "César de carnaval",
Mussolini, que rodava seus grandes olhos escuros, tentando
fazer com que brilhassem debaixo daquele estranho chapéu
decorado. E aquelas fotografias para a propaganda, tiradas de
seus pés e mostrando apenas suas mandíbulas, abertas contra
o céu, o "homem maravilha", como uma pedra imóvel - símbolo
da grande vontade que não conhecia obstáculos! Que vontade!
Das confidencias de alguns de seus companheiros, temos o
retrato de um homem constantemente indeciso.
Esse "homem formidável" que iria "invadir tudo", com a força
elemental, para usar os termos do cardeal Ratti, futuro Pio XI,
não resistiu aos adiantamentos feitos a ele pelo cardeal jesuíta
Gasparri, secretário de Estado, em nome do Vaticano. Apenas
algumas reuniões secretas foram suficientes para persuadir o
revolucionário a se submeter aos padrões do "Santo Papa", e
galgar tão bem a sua brilhante carreira, de forma que o exministro
Cario Sforza poderia escrever: "Um dia, quando o
tempo tiver atenuado a amargura e o ódio, reconhecerão que a
orgia de brutalidades sangüinárias que fizeram da Itália uma
prisão durante 20 anos, e as ruínas da guerra de 1940-1945
encontrava a sua origem em um caso historicamente quase
único: a absurda desproporção entre a lenda criada
artificialmente em volta de um nome e as capacidades reais do
pobre diabo que usava deste nome, um homem que não se
incomodava com a cultura"
Essa fórmula perfeita é aplicável tanto a Hitler quanto a
Mussolini: a mesma desproporção entre a lenda e as
capacidades e a mesma falta de "cultura" naqueles dois
medíocres aventureiros com passados praticamente idênticos.
Suas carreiras fulgurantes podem encontrar uma explicação
apenas no seu dom de "levantar" as massas, dom que os levou
para a frente do brilho da publicidade. Que a lenda foi "criada
artificialmente" é muito evidente, principalmente quando hoje
sabemos que as aparições retrospectivas do Fuhrer, nas telas
da Alemanha, provocam risos naqueles que têm um mínimo de
discernimento.
Não seria a inferioridade óbvia desses "homens providenciais"
a verdadeira razão por terem sido escolhidos a subir ao poder?
O fato é que a mesma falta de qualidades pessoais pode ser
encontrada em todos aqueles que o papado escolhe para
serem os seus "campeões". Na Itália e na Alemanha havia
alguns "verdadeiros" homens de Estado, "verdadeiros" líderes,
que eram capazes de assumirem o país e governarem sem
terem de recorrer a esses "místicos" delirantes. Esses homens
eram muito brilhantes intelectualmente, mas não
suficientemente devotos.
O Vaticano, e especialmente o "Papa Negro", von
Ledochowski, não os poderia manter "como se fossem um
bastão nas suas mãos", de acordo com a fórmula passional, e
fazê-los servirem a seus objetivos a todo custo, até a chegada
da catástrofe. O revolucionista Mussolin; foi transformado e
"virado do avesso" pelos emissários da Santa Sé que lhe
prometeram poder. Hitler provou o quanto era maleável. o
plano de Ledochowski era criar uma federação de nações
católicas na Europa Central e do Leste, na qual a Bavária e a
Áustria, governada pelo jesuíta Seipel, teriam a proeminência.
A Bavária teria de se separar da República Alemã de Weimar
e, como por acaso, o agitador Hitler, de origem austríaca, era
na época um separatista bávaro.
A oportunidade de realizar essa federação e colocar um
Hapsburg no controle se tornou mais e mais distante, enquanto
o monsenhor Pacelli, o núncio que tinha deixado Munique para
ir a Berlim, ficava mais consciente em relação à fragilidade da
República Alemã, por causa do pouco apoio dado pelos
Aliados. A esperança de tomar conta da Alemanha nasceu
então no Vaticano e o plano se modificou: 'A hegemonia da
Prússia protestante tinha de ser evitada, e como o Reich ia
dominar a Europa - para sustentar o federalismo alemão -um
Reich tinha de ser reconstituído, no qual os católicos seriam os
senhores". Isso era o suficiente.
Mudando de postura radicalmente e acompanhado de seus
"camisas marrons", Hitler, que tinha sido até então um
separatista bávaro, tornou-se do dia para a noite o inspirado
'Apóstolo do Grande Reich".
Os Campos da Morte e a Cruzada Anti-Semita
Na medida em que os católicos passam a ser os senhores da
Alemanha nazista logo setorna tão aparente quanto a
severidade coro que alguns dos "altos princípios do papado"
foram aplicados. Os liberais e os judeus tiveram muito tempo
livre para descobrir que esses princípios estavam longe de
serem confirmados. O direito da Igreja de se considerar apta a
exterminar lenta ou rapidamente aqueles que estavam no meio
do caminho foi "posto em prática" em Auschwitz, nachau,
Belsen, Buchenwald e outros campos da morte. A Gestapo de
Himnaler, nosso "Ignácio de Loyola", diligentemente executava
essas "obras de caridade". A Alemanha civil e militar teve que
submeter "perinde ac cadáver" a essa organização todapoderosa.
jvjem é preciso dizer que o Vaticano lavou as mãos
diante desses horrores. Ao conceder uma audiência ao doutor
Nerin F. Gun, um jornalista suíço que tinha sido deportado e se
perguntava por que o papa não havia intervindo, pelo menos
fornecendo alguma assistência a tantas pessoas desgraçadas,
Sua Santidade Pio XII teve o displante de responder:
"Sabíamos que por motivos políticos as perseguições violentas
estão acontecendo na Alemanha, mas nunca fomos informados
quanto ao caráter desumano da repressão nazista".
Quando o locutor da Rádio Vaticano, o R.P. Mitiaen, declarava
que "uma prova documental inegável em relação à crueldade
dos nazistas tinha sido recebida", sem dúvida o "Santo Papa"
também não foi informado sobre o que acontecia nos campos
de concentração "Oustachi", apesar da presença do seu
próprio legado em Zagreb.
Em uma ocasião, no entanto, pôde-se ver a Santa Sé
interessada pelo destino de algumas pessoas condenadas à
deportação. Eram 528 missionários protestantes, sobreviventes
dentre todos aqueles que haviam sido feitos prisioneiros pelos
japoneses nas ilhas do Pacífico e internados em campos de
concentração nas Filipinas. André Ribard, em seu excelente
livro "1960 e o Segredo do Vaticano", revela a intervenção
pontificai em relação a esses desaventurados.
O texto aparece sob o número 1591, datado, Tóquio, 6 de abril
de 1943, em um relatório do Departamento de Assuntos
Religiosos nos territórios ocupados, e cito o seguinte trecho:
Expressava o desejo da Igreja Romana de ver os japoneses
seguirem sua política e evitar certos propagadores religiosos
do erro de reconquistarem uma liberdade da qual eles não são
dignos.
Do ponto de vista "cristão", esse passo caridoso não precisa de
nenhum comentário; não seria, entretanto, significativo do
ponto de vista político? Na Eslováquia, como sabemos, o
monsenhor Tiso, 0 jesuíta, também era livre para perseguir as
ovelhas "desgarradas" apesar da Alemanha (da qual era país
satélite) ser preponderantemente protestante. Isso diz muito a
respeito da influência da Igreja Romana no Reich Hitleriano!
Também vemos o papel desempenhado na Croácia pelo
representante da Igreja, na exterminação dos fiéis ortodoxos. A
cruzada contra os judeus, a obra prima da Gestapo, pode
parecer supérfluo mencionar novamente o papel
desempenhado por Roma; já relatamos os feitos de monsenhor
Tiso, o primeiro fornecedor das câmaras de gás e fornos
crematórios de Auschwitz. Acrescentaremos, porém, apenas
alguns documentos típicos a esse dossiê.
Em primeiro lugar, aqui está uma carta de Leon Berard,
embaixador do governo Vichy junto à Santa Sé: "Senhor
Marshal Petain, em sua carta datada de 7 de agosto de 1941,
V E. me honrava ao pedir algumas informações sobre as
questões e dificuldades que poderiam surgir eventualmente do
ponto de vista católico romano, em relação aos judeus. Tenho
a honra de lhe comunicar que nada me foi dito, no Vaticano,
que pudesse ser interpretado como uma crítica ou reprovação
das leis e diretivas em questão".
O periódico L'Arche, ao mencionar essa carta em um artigo
intitulado "O Silêncio de Pio XII", refere-se a um relatório
complementar subseqüente que Leon Berard enviou a Vichy
em 2 de setembro de 1941. "Há alguma contradição entre o
estatuto das doutrinas judaica e católica? Apenas uma e Leon
Berard respeitosamente indica que esta se refere ao chefe de
Estado; reside na de 2 de junho de 1941, que define os judeus
como uma raça. "A Igreja", escreveu o embaixador de Vichy,
"nunca professou que os mesmos direitos deveriam ser dados
a todos os cidadãos, como uma pessoa de influência no
Vaticano me disse: "Vocês não terão dificuldades quanto à
categoria dos judeus".
Existe, "na prática", a "terrível" encíclica Mit brenender Sorge,
contra o racismo, freqüentemente citada pelos apologistas.
Encontra, no entanto, algo muito melhor no livro de Leon
Políakovs: 'A proposta da Igreja Protestante na França de que,
juntamente com a Igreja Romana, tomassem medidas contra o
recolhimento dos judeus, durante o verão de 1942, foi rejeitada
pelos dignatários católicos". Muitos parisienses lembram ainda
hoje a forma pela qual as crianças judias foram tomadas de
suas mães e mandadas em trens especiais aos fornos
crematórios de Auschwitz.
Essas deportações de crianças são confirmadas, entre outros
documentos oficiais, em uma nota do "SS Haupsturmfuhrer
Danneker", datada de 21 de julho de 1942. A insensibilidade
cruel da Igreja Romana, e dos seus líderes em particular,
inspirou não muito tempo atrás estas linhas revanchistas do já
mencionado periódico L'Arche: "Durante cinco anos o nazismo
foi o autor de ultrajes, profanações, blasfêmias e crimes.
Durante cinco anos, massacrou seis milhões de judeus. Dentre
estes seis milhões, um milhão e oito-centas mil eram crianças.
Quem disse uma vez: "Deixem vir a mim as criancinhas?" E por
que razão? Devem vir até mim para que possa chaciná-las? O
papa militante foi substituído pelo papa diplomático. Da Paris
ocupada, seguimos para Roma, também ocupada pelos
alemães após o fracasso italiano.
Aqui transcrevemos uma mensagem endereçada a von
Rubbentrop, ministro nazista dos Negócios Estrangeiros:
Embaixada Alemã na Santa Sé. Roma, 28 de outubro de 1943.
Apesar de pressionado por todos os lados, o papa não
demonstrou nenhum tipo de reprovação quanto à deportação
dos judeus de Roma. Ele teme que nossos inimigos reprovem
sua atitude nesse caso, e que esse venha a ser explorado
pelos protestantes de países anglo-saxões em sua propaganda
contra o catolicismo. 'Ao considerar essa questão delicada, 0
possível estremecimento de nossas relações com o governo
alemão foi o fator decisivo". Assinado: Ernst von Weiszaeker.
Ao relatar a carreira deste barão von Weiszaeker - julgado
como criminoso de guerra "por ter preparado listas de
extermínio" - o Le Monde, de 27 de junho de 1947, escreveu:
"Prevendo uma derrota da Alemanha, ele conseguiu uma
indicação para o Vaticano, aproye-tando-se da oportunidade de
trabalhar intimamente com a Gestapo"
Para ajudar os nossos leitores não completamente
convencidos citaremos o seguinte documento oficial alemão
que estabelece as disposições do Vaticano e dos jesuítas com
relação aos judeus, antes da guerra: 'Ao estudar a evolução do
anti-semitismo no Estados Unidos percebemos com interesse
que o número de ouvintes das transmissões de rádio do padre
Coughlin (jesuíta), reconhecido por seu anti-semitismo, excede
a 20 milhões!"
O anti-semitismo militante dos jesuítas nos Estados Unidos, à
semelhança de todos os lugares, não é surpreendente da parte
desses ultramontanos, pois está perfeitamente de acordo com
a "doutrina". Vejamos o que Daniel Rops, da Academia
Francesa, tem a dizer sobre o assunto; este autor se
especializou em literatura, devotou e publicou sempre sob os
auspícios da Imprimatur. Lemos em um de seus trabalhos mais
conhecidos, "Jesus e Sua Época", publicado em 1944, durante
a ocupação alemã: "Durante séculos, por onde a raça judia se
espalhasse, o sangue escorria, e sempre a mesma exigência
de assassinato proferida no hall de julgamento de Pilatos e
afogando o grito de desespero repetido mil vezes. A face de
uma nação judia perseguida preenche as páginas da História,
mas não se pode eliminar essa outra face, untada com sangue
e cuspe, pela qual a multidão judia não sentiu pena alguma.
Israel não teve alternativa nessa questão tendo que matar seu
Deus após repudiá-Lo, e como o sangue misteriosamente
clama por sangue, a caridade cristã pode não ter outra
alternativa também ou a vontade divina não deveria compensar
o maior e mais insuportável horror, a crucificação, através de
outro horror? " Que palavras mais bem escolhidas! Ou, pondo
as coisas de forma mais direta: Se milhões de judeus tiveram
que passar por câmaras de gás e fornos crematórios de
Auschwitz, Dachau e outros lugares, foram a "sobremesa" que
bem mereciam. Essa adversidade foi desejada por "vontade
divina e a "caridade cristã" estaria cometendo uma falta como
se fosse contra ela.
O eminente professor Jules Isaac, presidente da "Amizade t
daico-Cristã", exclamou ao se referir a essa passagem: "Estas
frases rríveis e blasfemas provocam um horror infinito", ainda
mais agravado orunia nota que diz: "Entre os judeus de hoje,
alguns deles tentam negar a importância dessa pesada
responsabilidade. Honro os sentimentos, diga-se de passagem,
mas não podemos ir contra a evidência Ha História; não cabe
aos homens rejeitar o peso terrível da morte de Jesus que
Israel deve assumir".
Jules Isaac nos informa que as frases em questão foram
alteradas pelo editor "nas edições mais recentes" desse livro
"edificante", ou seja, após a Libertação. Há "um tempo" para
todas as coisas: os fornos crematórios haviam se tornado
ultrapassados.
Assim, da afirmação doutrinai dos altos princípios do papado à
sua colocação em prática por Himmler, "nosso Ignácio de
Loyola", o círculo se fecha, e ainda temos que acrescentar que
o anti-semitismo meio louco do Fuhrer perde muito do seu
mistério. Isso não vem a esclarecer um pouco mais as coisas
sobre esse indivíduo intrigante? As coisas que foram
imaginadas, antes da guerra, numa tentativa de explicar a
desproporção evidente entre o homem e o papel que tinha de
desempenhar! Havia um buraco, um vácuo óbvio sentido por
todos.
Para preencher essa lacuna, lendas foram criadas: contaramse
histórias, algumas com o propósito secreto de desviar da
verdade! Ciências ocultas, mágicos orientais, astrólogos
"inspirados", o heremita sonâmbulo de Berchtesgaden, e a
escolha da suástica como insígnia do partido nazista e
originária da índia, pareciam corroborar a idéia.
Maxime Mourin refuta essa última afirmação específica: 'Adolf
Hitler havia sido aluno da escola de Lambach e cantava com os
Meninos do coro na abadia do mesmo nome. Lá, ele descobriu
a suástica, pois era o símbolo heráldico do padre Hagen, o
administrador da abadia".
As inspirações do Fuhrer também são facilmente explicáveis,
sem necessidade do uso de filosofias exóticas ou misteriosas.
Se é óbvio que esse "filho da Igreja Católica", conforme foi
descrito por Franco era controlado por impulsos de líderes
misteriosos, também já sabemos que esses não tinham nada a
ver com a mágica oriental. Os infernos terrestres, que
devoraram 25 milhões de vítimas, merecem outra explicação,
facilmente reconhecível: a marca de povos que tiveram de ser
treinados intensivamente, de acordo com as prescrições dos
Exercícios Espirituais dos jesuítas.
Os Jesuítas e o Collegium Russicum
Dos vários motivos que fizeram o Vaticano decidir a começar a
Primeira Guerra Mundial, ao incitar o imperador da Áustria,
Francis Joseph, a "castigar os sérvios", o principal era aplicar
um golpe fatal contra a Igreja Ortodoxa, essa ancestral e
odiada rival. O Vaticano também visava à Rússia, protetora
tradicional dos crentes ortodoxos nos Bálcãs e no Leste.
Pierre Dominique escreveu: "Para Roma, esse caso se tornou
de suma importância; uma vitória da monarquia apostólica
sobre o czarismo poderia ser vista como uma vitória de Roma
sobre o cisma do Leste".
A Cúria Romana de forma alguma se preocupou se tal vitória
só poderia ser conseguida através de um holocausto
gigantesco. O risco, ou melhor, a certeza, foi aceito, pois as
alianças fizeram a guerra inevitável. Influenciado pelo
secretário de Estado, o jesuíta Merry dei Vai, Pio X não fazia
segredo disso, e o encarregado de Negócios da Bavária
escreveu ao seu governo, na véspera do conflito: "Ele, o papa,
não acredita que os exércitos da França e da Rússia sejam
vitoriosos em uma guerra contra a Alemanha".
Esse cálculo perverso provou ser falso. A Primeira Guerra
Mundial» que devastou o Norte da França e deixou milhões de
mortos, não atingiu as ambições de Roma; ao contrário, dividiu
a Áustria-Hungria; e privou, portanto, o Vaticano de sua
fortaleza mais importante na Europa e liberou os eslavos, que
já faziam parte dessa monarquia dupla* do jugo apostólico de
Viena. A Revolução Russa libertou do controle do Vaticano
aqueles católicos romanos, a maior parte deles He origem
polonesa, que viviam no antigo império czarista. A derrota foi
total. A "patiens quia aeterna" da Igreja Romana, no entanto,
perseguida com esforços renovados sua política de "Drang
nach Osten", o impulso em direção ao Leste, que combinava
tão bem com as ambições pan-germânicas.
O surgimento de ditadores e a Segunda Guerra Mundial, com o
seu séquito de horrores, a "lavagem" de Wartheland, na
Polônia, e a "catolização compulsória" da Croácia são
exemplos especialmente atrozes desses horrores. Realmente
não importava que 25 milhões tivessem morrido nos campos
de concentração; 32 milhões de soldados assassinados nos
campos de batalha e 29 milhões tivessem ficado feridos ou
inválidos. Essas são as estatísticas oficiais da ONU,
Organização das Nações Unidas e mostram a magnitude
dessa carnificina!
Dessa vez, a Cúria Romana achou que seus objetivos foram
atingidos, e pode-se ler na "Basler Nachrichten" de Basiléia: 'A
ação alemã na Rússia coloca a questão da evangelização
daquele país, e o Vaticano está extremamente interessado
nisso". E isto, de um livro dedicado à glorificação de Pio XII: "O
Vaticano e Berlim assinaram um pacto que permitia aos
missionários católicos do Colégio Russicum ocuparem °s
territórios, colocando os bálticos sob a nunciatura de Berlim". A
"catolização" da Rússia estava para ser lançada, sob a
proteção da Wehrmacht e da SS, à maneira de Pavelitch e
seus comparsas na Croácia, mas numa escala muito maior.
Essa seria uma verdadeira v|tória de Roma! Que decepção,
então, quando o movimento htlerista foi interrompido diante de
Moscou e quando von Paulus e Seu batalhão foram
emboscados em Stalingrado! Era Natal de 1942, e podemos
reler a mensagem, ou melhor, a "brilhante convocação"
endereçada às "nações cristãs" pelo "Santo Papa": "Esse
momento não é de lamentação, mas de ação. Que o
entusiasmo das Cruzadas invada o cristianismo, e o apelo
"Deus assim quer!" seja ouvido. Qüe estejamos prontos a servir
e nos sacrificar, como os cruzados dos velhos tempos.
Exortamos e imploramos que vocês estejam atentos à
gravidade penosa da situação atual. Quanto aos voluntários
que participam dessa Santa Cruzada dos tempos modernos,
"levantem alto o estandarte e declarem guerra contra as trevas
de um mundo afastado de Deus!"
Nesse dia de Natal, estávamos muito longe da "Pax Christi"!
Esse discurso guerreiro não era a expressão da "estrita
neutralidade" a qual o Vaticano se atribui nas questões
internacionais. Esse discurso se torna ainda mais impróprio
pelo fato da Rússia ser aliada da Inglaterra, Estados Unidos e
França livre. A contestação veemente dos defensores de Pio
XII diz que a guerra de Hitler não era uma verdadeira
"cruzada", quando essa palavra é mencionada na mensagem
do próprio "Santo Papa"!
Os "voluntários" que o papa convocou para as armas eram da
"Divisão Azul" ou recrutados pelo cardeal Baudrillart em Paris.
'A guerra de Hitler é uma iniciativa nobre na defesa da cultura
européia", exclamou ele a 30 de julho de 1941.
Observamos, no entanto, que o Vaticano não está mais
interessado na defesa dessa cultura agora que tenta instigar
nações africanas a se revoltarem contra a França. Pio XII
disse: 'A Igreja Católica não se identifica com a cultura
Ocidental".(141 e 141a) As mentiras e grandes contradições
são infinitas da parte daqueles que acusam satã de ser o "pai
de todos os aliados".
A derrota da Rússia pelos Exércitos de Hitler, "esses nobres
defensores da cultura européia", envolvia também os jesuítas
da conversão. Ficamos imaginando o que "Santa" Teresa
estaria fazendo diante de tamanho desastre! Pio XI a tinha
proclamado "santa padroeira da infeliz Rússia" e o cônego
Coube a representou de pé, "sorrindo", mas tão terrível quanto
um Exército pronto para a batalha contra o gigante
bolchevique.
Será que a santa de Lisieux, usada para todos os tipos de
obras da jgreja, tinha sucumbido diante da tarefa nova e
gigantesca a ela atribuída pelo "Santo Papa?" Não seria de
surpreender. Além da "santinha", ainda havia a "Rainha dos
Céus" que, em 1917, já tinha assumido, sob certas condições,
trazer de volta a Rússia do cisma ao rebanho da Igreja
Romana.
Vejamos o que o La Croix disse sobre o assunto: "Lembramos
nossos leitores que a própria Nossa Senhora de Fátima havia
prometido a conversão dos russos, se os cristãos praticassem
com sinceridade e devoção todos os mandamentos da lei do
evangelho".
De acordo com os padres jesuítas, que eram grandes
especialistas em milagres, o Mediador Celeste teria
recomendado como especialmente eficaz o uso diário do
rosário. Essa promessa da Virgem teria sido selada por ela
com uma "dança do Sol", uma maravilha que teria ocorrido
novamente em 1951, nos jardins do Vaticano, para o benefício
exclusivo de "Sua Santidade" Pio XII. Os russos, no entanto,
invadiram Berlim, apesar da cruzada convocada pelo papa e,
até hoje, os compatriotas de Khrushev não demonstraram
nenhuma vontade, que seja do nosso conhecimento, de
surgirem diante das "portas de São Pedro" em trajes de
penitentes, com um cabresto em volta do pescoço. O que
aconteceu de errado? Os cristãos não teriam contado bem as
contas do rosário? Algumas das rezas não foram feitas
corretamente?
Seríamos tentados a acreditar que essa seria a causa, se não
houvesse aquele detalhe meio escabroso da "maravilhosa"
história de Fátima. A promessa de conversão da Rússia, feita à
clarividente Lúcia em 1917, foi por ela "revelada" apenas em
1941, quando havia Se tornado freira, e tornada pública em
outubro de 1942 pelo cardeal ^hr, um partidário entusiasta do
eixo Roma-Berlim. Foi tornada pública por solicitação (melhor
seria dizer "ordem") de Pio XII mesmo Pio XII que, três meses
depois, fez a já mencionada convocação para uma Cruzada. É
extremamente "esclarecedor": Um dos apologistas de Fátima
admite que, por causa disso, o caso "evidentemente perde algo
do seu valor profético". É o mínimo que se pode dizer sobre o
assunto.
Um certo cônego, grande especialista na questão do "milagre
português", conta-nos em confidencia: "Devo confessar que,
com grande relutância, acrescentei às minhas primeiras
edições o texto revelado ao público por Sua Eminência Cardeal
Schuster".
Com certeza podemos entender os sentimentos do bom
cônego: A "Santa Virgem" teria contado à pastorinha Lúcia, em
1917: "Se meus pedidos forem atendidos, a Rússia será
convertida", enquanto a encarregava de manter esse "segredo"
só para ela. Então como é que os cristãos chegaram a ficar
sabendo sobre esses "pedidos"? "Credibile quia ineptum".
Parece que de 1917 a 1942 a "infeliz Rússia" não precisava ter
nenhuma reza feita em seu nome, e que essas rezas seriam
extremamente necessárias somente após a derrota nazista em
Moscou e quando von Paulus caiu na emboscada de
Stalingrado. Pelo menos, é a única conclusão que essa última
revelação permite. O sobrenatural, como já dissemos, é uma
coisa poderosa, mas deve ser manipulado com um certo
cuidado.
Após Montoire, o prior dos jesuítas, Halke von Ledochowski já
falava soberbamente sobre a reunião geral que a Companhia
teria em Roma após a Inglaterra ter capitulado, e cuja
importância e brilho não encontrariam paralelo em toda a sua
história. Mas os céus haviam decidido o contrário, apesar de
"Santa" Teresa e da "Senhora" de Fátima. A Grã-Bretanha
recuperou forças contra o inimigo; os Estados Unidos entraram
na guerra; apesar do padre jesuíta Coughlin ter trabalhado
tanto contra, os aliados desembarcaram no Norte da África e a
campanha russa foi um desastre para os nazistas. Para
Ledochowski, era o colapso de seu grande sonho. Wehrmacht,
a SS, oS "limpadores" e os jesuítas da conversão estavam
capitulando juntos. A saúde do prior não suportou o desastre e
ele morreu. Vejamos, entretanto, no que o "Russicum" se
tornou quando foi incorporado por Pio XI e von Ledochowski
em 1929 à já rica e variada organização romana.
"Com a constituição apostólica Quam Curam, Pio XI criou esse
seminário russo em Roma, onde jovens apóstolos de todas as
nacionalidades seriam treinados, "na condição de que
adotassem, acima de qualquer outra coisa, o rito bizantinoeslavo,
e que suas mentes fossem inteiramente dedicadas à
tarefa de trazer a Rússia de volta ao rebanho de Cristo".
Esse é o objetivo do Colégio Pontificai Russo, aliás
"Russicum", o Instituto Pontificai Oriental e o Colégio Romano -
esses três centros também administrados pela Companhia de
Jesus.
No "Colégio Romano" - 45, Piazza dei Gesu - encontramos os
noviços jesuítas e, entre eles, alguns levam a alcunha de
"russipetes", pois são destinados a "petere Russiam", ou seja,
ir para a Rússia. Os crentes ortodoxos deveriam tomar
cuidado, pois esses (muitos) campeões valorosos estão
determinados a destruí-los. Temos que admitir, no entanto, que
o acima mencionado Homme Nouveau afirma: "Todos esses
sacerdotes estão certamente destinados a se dirigirem à
Rússia, mas este projeto não pode ser levado adiante por
enquanto". De acordo com essa publicação, a imprensa
soviética chama estes apóstolos de "pára-quedistas do
Vaticano".
E, a partir do testemunho de alguém bem informado sobre o
assunto, chegamos à conclusão que esse nome é muito
adequado. A pessoa em questão é ninguém menos do que o
jesuíta Alighiero Tondi, Professor da Universidade Pontificai
Gregoriana, que repudiou a Ignácio de Loyola e aos Exercícios
Espirituais (não sem antes gerar uma grande controvérsia), e
finalmente se afastou da famosa Companhia, bem como de
suas pompas e façanhas. Podemos ler o seguinte, dentre
outras declarações, em uma entrevista dada por ele a um jornal
italiano: 'As atividades do Collegium Russicum e outras
organizações ligadas a ele são muitas e variadas. Por exemplo,
juntamente com os fascistas italianos e o que restou do
nazismo alemão os jesuítas organizaram e coordenaram vários
grupos anti-russos, sob a autoridade eclesiástica. A finalidade
última é de estarem prontos eventualmente, a derrubar os
governos do Leste. Os recursos são fornecidos por
organizações eclesiásticas de renome. Essa é uma obra à qual
os próprios líderes do clero se dedicam. Esses últimos estariam
prontos a rasgar as suas vestes, sem piedade, e serem
acusados de se misturarem em política e incitarem os bispos e
sacerdotes do Leste a conspirarem contra os seus governos.
Ao falar com o jesuíta Andrei Ouroussof, disse que tinha sido
infeliz ao afirmar, no Osservatore Romano, a voz oficial do
Vaticano, e em outras publicações eclesiásticas, que os
espiões desmascarados eram "mártires da fé", Ouroussof caiu
na gargalhada. "O que é que você escreveria, padre?", ele me
perguntou. Você os chamaria de espiões ou algo pior? Hoje a
política do Vaticano precisa de mártires, mas atualmente é
difícil de se encontrar mártires. Então, eles têm que ser
fabricados."
— Mas isso é um jogo desonesto! Ele balançou a cabeça
ironicamente.
— Você é inteligente, padre. Pelo trabalho que faz, deveria
saber melhor do que ninguém que os dirigentes da Igreja
sempre foram inspirados pelas mesmas regras.
— E Jesus Cristo? perguntei.
Ele riu: Não devemos pensar em Jesus Cristo, ele disse. "Se
pensássemos n'Ele, acabaríamos na cruz. E hoje, chegou o
momento de colocarmos outros na cruz, para que não sejamos
nós mesmos a ficarmos pregados nela".
Assim, como disse tão bem o jesuíta Ouroussof, a política do
Vaticano precisa de mártires, voluntários ou não. "Criou"
milhões deles durante as duas guerras.
O Papa João XXIII Tira a Máscara
De todas as ficções geralmente aceitas nesse mundo, o
espírito de paz e harmonia atribuído à Santa Sé é
provavelmente o mais difícil de extirpar, pois esse espírito
parece inerente à natureza do próprio magistério apostólico.
Apesar das lições da História, não completamente conhecidas
ou muito rapidamente esquecidas, aquele que é chamado de
"vigário de Cristo" deve, necessariamente, encarnar para
muitos o ideal de amor e fraternidade ensinado pelo
Evangelho. E a lógica, tanto quanto o sentimento, não quer que
seja dessa forma?
Os fatos, na realidade, nos fazem perceber que essa opinião
favorável deve ser revista e diminuída - e acreditamos que
tenha sido suficientemente demonstrada. A Igreja, no entanto,
é prudente - como sempre nos dizem - e é raro que suas ações
não sejam envolvidas pelas precauções indispensáveis que
tomem conta das aparências. "Bonne renommee vaut mieux
que ceinture doree" (A boa reputação vale mais do que um
cinto dourado), diz o provérbio francês. Mas é ainda melhor
possuir ambos.
O Vaticano - incrivelmente rico - se guia por essa máxima. Sua
luxúria política pela dominação sempre assume pretextos
"espirituais" e humanitários, proclamada "urbi et orbi" por uma
propaganda intensa fornecida por um cinto dourado-prateado,
e a "boa reputação", preservada dessa maneira, permite a
entrada de ouro ao dito cinto.
O Vaticano não se desvia dessa linha de conduta e, quando o
seu "status" em negócios internacionais fica revelado de forma
clara através das atitudes de sua hierarquia; a lenda de sua
imparcialidade absoluta é mantida viva por aquelas encíclicas
solenes e ambíguas e outros documentos papais.
Recentemente a era hitlerista multiplicou esses exemplos.
Poderia, entretanto, ser de outra forma, em uma autoridade
que se supõe como transcendente e universal ao mesmo
tempo? Poucas foram as vezes em que a máscara caiu. Para
que o mundo seja testemunha desse espetáculo, é necessária
uma contingência que diante dos olhos da Igreja seja perigosa
aos seus interesses vitais Somente assim, ela deixa de lado a
ambigüidade e se põe abertamente de um dos lados.
Isso foi o que aconteceu em 7 de janeiro de 1960, em Roma,
com relação à conferência de cúpula que viria a reunir os
dirigentes dos governos do Ocidente e do Leste, numa
tentativa de determinar as condições de co-existência
realmente pacífica entre os defensores das duas ideologias
contrárias. É claro que a posição do Vaticano diante de tal
projeto não parecia deixar qualquer dúvida. Nos Estados
Unidos, o cardeal Spellman demonstrou-a claramente ao levar
os católicos a exibirem sua hostilidade a Khrushchev quanto
este foi convidado pelo presidente norte-americano.
Por sua vez, e sem expressá-lo claramente, "Sua Santidade"
João XXIII havia demonstrado pouco entusiasmo pela "detente"
na sua mensagem de Natal. A "esperança" que demonstrava
de ver a paz reinstalada no mundo, um desejo que deveria ser
uma obrigação nesse tipo de documento, parecia muito frágil,
pois era acompanhada por muitos pedidos aos líderes
ocidentais de serem prudentes.
Até então, o Vaticano vestia a boa máscara. O que aconteceu,
então, em menos de duas semanas? Vendo que a primeira
mensagem falhou, será que uma outra "esperança" tão
desejada provava ser inútil? Será que a decisão de Gronchi,
presidente da República Italiana, de ir a Moscou, entornou o
copo de amargura romana?
Independente do que tenha acontecido, o furacão desabou a 7
de janeiro - e os ataques eclesiásticos irromperam, com fúria,
sobre os chefes-de-Estado "cristãos", acusados de colocarem
um fim à guerra fria. A 8 de janeiro, o Le Monde publicou: "No
dia em que o presidente da República Italiana estava partindo
para uma visita oficial extremamente agendada com os líderes
de Moscou, o cardeal Ottaviani, sucessor do cardeal Pizzardo
como secretário da Congregação do Santo Ofício ou chefe do
Supremo Tribunal da Igreja, fez um discurso absolutamente
incrível na basílica de "Sainte-Marie -jylajeure", durante um
culto matutino pela "Igreja do Silêncio". Nunca antes havia um
príncipe da Igreja, detentor de um dos cargos mais importantes
dentro do Vaticano, atacado as autoridades soviéticas com
tanto furor, nem reprimido tão severamente as autoridades
ocidentais que trabalhavam com eles."
O Le Monde forneceu fragmentos substanciais daquele
discurso violento que justificou plenamente o adjetivo de
"absolutamente incrível" que havia sido usado. "A época de
Tamerlanes voltou", afirmava o cardeal Ottaviani, e os líderes
russos foram descritos como sendo "novos anticristos que
condenam à deportação, prisão, massacre e não deixam nada
atrás de si, além de uma terra destruída."
O orador estava chocado com o fato de ninguém mais "ter
medo de apertar a mão dele", e que, "ao contrário, disputavam
uma corrida para ver quem seria o primeiro a fazê-lo e ainda
trocar amabilidades". Então ele recordou a seus ouvintes que
Pio XII se afastou e foi a Castelgandolfo quando Hitler chegou
a Roma, esquecendo-se, no entanto, de acrescentar que esse
mesmo pontífice havia concluído com o mesmo Hitler um pacto
extremamente vantajoso para a Igreja.
As viagens espaciais tampouco foram poupadas nessa violenta
denúncia: "O novo homem crê que pode violar os céus com
façanhas no espaço e assim demonstrar, mais uma vez, que
Deus não existe. Os políticos e chefes-de-Estado ocidentais
que, de acordo com o cardeal, "ficaram estúpidos com o terror",
foram amaldiçoados, pois eram todos "cristãos que não mais
reagem ou protestam com violência". "Podemos nos dar por
satisfeitos com qualquer tipo de "detente" quando não puder
haver nenhum tipo de tranqüilidade na humanidade, se não
observamos um respeito elementar pela consciência, pela
nossa fé, pela face de Cristo, coberta de saliva, coroada com
os espinhos? Podemos esticar a mão àqueles que fazem
isso?"
Essas palavras dramáticas não nos deixam esquecer que o
Vaticano não pode nem falar de "respeito de consciências",
pois a Igreja oprime sem piedade as consciências nos países
em que domina, a exemplo da Espanha de Franco, onde os
protestantes eram perseguidos. É realmente despudorado da
parte do secretário do Santo Ofício, em especial, o pedido de
que os outros observem esse "respeito elementar" quando toda
a Igreja Romana o rejeita inteiramente. A encíclicà Quanta
Cura e o Sílabo são explícitos: 'Anátema (excomunhão) para
aquele que diz: todo homem é livre para abraçar ou professar a
religião que seu discernimento considere ser correta" (Sílabo,
artigo XV). "É loucura pensar que a liberdade de consciência e
culto seja direito simples de todos os homens" (Encíclicà
Quanta Cura).
A julgar pela forma como trata dos "hereges", não é de
assustar que o Vaticano condene sistematicamente todas as
tentativas de se chegar a bom termo entre os países "cristãos"
e aqueles que são oficialmente ateístas. "Non est pax impilis"
("Nada de paz para os perversos"). E o padre jesuíta Cavelli, à
semelhança de muitos outros antes dele, proclama que essa
"intransigência" é a "lei mais imperativa" da Igreja Romana.
Em contrapartida a essa explosão de fúria da parte do cardeal,
citaremos outro artigo que apareceu no mesmo número do Le
Monde, a 9 de janeiro de 1960: 'A humanidade está chegando
a um ponto em que a aniquilação mútua é uma possibilidade.
No mundo de hoje, nenhum outro fato pode ser comparado em
importância a este. Devemos, portanto, lutar intensamente por
uma paz justa". Assim disse o presidente Eisenhower, diante
do Congresso dos Estados Unidos, no mesmo momento em
que o cardeal Ottaviani, em Roma, condenava a co-existência
como sendo uma participação no crime de Caim.
O contraste entre as duas formas de pensamento não poderia
ser mais chocante: o humano e o teocrático. Nada mais óbvio
do que o perigo que paira sobre o mundo por causa do núcleo
de fanatismo cego ao qual chamamos de Vaticano. Seu
egoísmo "sagrado" é tamanho que chega a não importar a
necessidade urgente de um acordo internacional, de forma a
evitar uma ameaça de extermínio total da humanidade. O
secretário do Santo Ofício, esse tribunal supremo cujo passado
é bem conhecido, não leva em consideração tais contingências
"negligenciáveis". Os russos vão à missa? Esse é o ponto
importante e, se o presidente Eisenhower não compreende, é
porque "parece ter ficado estúpido com o terror", para usar os
termos do "Porporato" passional.
O frenesi delirante do discurso do cardeal Ottaviani nos faz rir e
nos sentimos chocados ao mesmo tempo. Muitos acham que
essa chama vai ter dificuldades em persuadir os "cristãos" a
aceitarem a bomba atômica em paz. Mas temos que estar em
guarda! Por detrás do porta-voz da Santa Sé há uma
organização pontificai e, em especial, essa armada secreta dos
jesuítas não é composta de soldados comuns. Todos os
membros daquela famosa Companhia trabalham dentro dos
corredores do poder; sua ação, sem fazer muito barulho, pode
ser eficaz de maneira excepcional, ou seja, maligna.
Surgiram boatos de que a postura violenta do cardeal Ottaviani
não era o reflexo exato do pensamento da Santa Sé, mas
simplesmente a opinião de um integrante do "clã integralista". A
imprensa católica, na França pelo menos, tentou atenuar a
importância daquele discurso violento, e o La Croix, em
particular, só imprimiu um curto extrato no qual era omitida toda
a violência.
Esse oportunismo foi muito esperto, mas não poderia enganar
ninguém. É simplesmente impossível que uma crítica tão feroz
e de importância política excepcional possa ter sido proferida
do púlpito de "SainteMarie-Majeure", pelo secretário do Santo
Ofício, sem a aprovação do chefe da Congregação, do seu
dirigente, o próprio Soberano Pontífice e, tanto quanto
sabemos, ele nunca desmentiu o seu eloqüente subordinado.
O papa João XXIII não poderia jogar aquela "bomba" ele
mesmo mas, ao fazer um de seus mais altos dignatários na
Cúria tomar o seu lugar, quis deixar claro a todos a sua
conivência .
Por uma estranha "coincidência", uma "explosão" mais
modesta aconteceu ao mesmo tempo, na forma de um artigo
no Osservatore Romano, condenando novamente o socialismo,
mesmo o não-marxista, como sendo "oposto à verdade cristã".
Aqueles que praticam esse erro político, no entanto, não são
excomungados "ipso facto" como são os comunistas, tendo
eles ainda a esperança de escaparem do inferno, mas a
ameaça do purgatório continua!
Ao mostrar sua oposição veemente a qualquer tentativa de
reunir o Ocidente e o Oriente, estaria o Vaticano esperando por
resultados positivos? Esperaria intimidar os chefes-de-Estado
que buscam essa política de paz, ou queria apenas provocar
pelo menos um sentimento contrário à "detente" entre os fiéis?
Por mais insensata que essa esperança possa parecer, ela
realmente pode ter invadido as mentes desses sacerdotes. Seu
ponto de vista peculiar fatalmente leva a produzir tais ilusões.
Além do mais, esses homens "tranquilizadores" não poderiam
ter esquecido uma certa ilusão usada por tanto tempo para
enganar aqueles que neles confiaram - e na qual também
pareciam acreditar. Referimo-nos à "conversão da Rússia",
aparentemente anunciada em Fátima por "Nossa Senhora" em
pessoa, em 1917, a Lúcia, a pastorinha, a qual posteriormente
fez o voto sagrado e testificou sobre isso algum tempo depois,
em 1942, nas "Memórias" que escreveu a pedido de sua madre
superiora.
Essa "história da carochinha" faz rir, mas em nada muda o fato
de que o Vaticano, sob o pontificado de Pio XII, a propagou por
todo o mundo, com muitos discursos, sermões, declarações
solenes, uma torrente de panfletos e livros, além de
peregrinações da estátua dessa nova e política "Nossa
Senhora" a todos os continentes - onde até mesmo os animais,
segundo dizem, vinham pagar tributos. Essa propaganda
barulhenta ainda pode ser lembrada por fiéis mais velhos, tanto
quanto as afirmações enlouquecidas como essa, publicada em
Ia de novembro de 1952, pelo La Croix: "Fátima se tornou uma
andarilha das estradas. O destino das nações pode ser melhor
decidido por ela do que em volta das mesas."
Seus tarifários não podem encontrar mais refúgio na
ambigüidade. A alternativa é perfeitamente visível: "detente ou
guerra fria". O Vaticano escolhe a guerra e não esconde esse
fato. Essa escolha não deveria surpreender ninguém - se a
experiência anterior, mesmo recente, foi uma lição para nós.
Se ela surpreender alguns, cremos que seja por causa da sua
proclamação sem cerimônias ou sem a "camuflagem habitual."
Começamos a entender a violência quando consideramos a
importância da aposta do Pontífice Romano. Estaríamos a
julgar mal o Vaticano pensando que eles seriam capazes de
renunciar a uma expectativa tão antiga quanto o cisma do
Leste - a de trazer de volta os crentes ortodoxos sob sua
obediência, através de um êxito militar. 0 surgimento de Hitler
se deve a essa esperança obstinada - mas a derrota final de
sua Cruzada ainda não abriu os olhos da Cúria Romana à
loucura de tal ambição. Ainda há outro desejo mais opressivo:
a libertação da Polônia, Hungria e Tchecoslováquía, esta
famosa "Igreja do Silêncio", que só se transformou nisso pela
inesperada mudança de rumos, na perspectiva da Santa Sé,
durante a cruzada nazista. "Qui trop embrasse mal etreint"
("Quem tudo quer, tudo perde"), diz um provérbio sábio que
nunca inspirou os fanáticos.
A fim de resumir sua marcha para o Leste, "Drang nach Osten",
e reaver primeiramente as fortalezas perdidas, o Vaticano
ainda confia no "braço secular" alemão, seu principal campeão
europeu, que necessita de nova força e vigor. Na direção da
Alemanha Federal - a secção Ocidental do Grande Reich -
colocou um homem confiável, o chanceler Konrad Adenauer, o
camareiro secreto do papa.
A política por ele adotada por mais de 15 anos mostrava
claramente a marca da Santa Sé. Exibindo à primeira vista um
grande cuidado e uma postura liberal oportuna, o homem que
seus compatriotas costumavam chamar de "der alte Fuchs" (a
velha raposa) trabalhou pelo rearmamento do país, e da
juventude alemã em Particular, que era um imperativo
suplementar ao primeiro. É por isso que os postos importantes
nos ministérios e na administração H Alemanha Ocidental
foram ocupados por muitos indivíduos com passado
reconhecidamente hitlerista - a lista é longa - e industriais a
exemplo de von Krupp e Flick, que não fazia muito tempo
tinham sido acusados de criminosos de guerra, passaram a
dirigir novamente os seus negócios gigantescos que foram a
eles restituídos. "O fim justifica os meios". Forjar a nova espada
de Siegfried, a arma necessária para a vingança - uma
vingança que seria dividida com o Vaticano.
Com um sincronismo perfeito e durante uma entrevista dada
em um periódico holandês, o camareiro secreto repetiu o
discurso fulminante que o cardeal Ottaviani tinha acabado de
expressar: "A co-existência pacífica das nações cujas visões
são totalmente opostas é apenas uma ilusão que, infelizmente,
ainda encontra partidários demais". O "sermão" incendiário
feito em 7 de janeiro em "Sainte-Marie-Majeure" precedeu por
alguns dias - como por coincidência -a visita de Konrad
Adenauer a Roma. As reportagens que a imprensa fez foram
unânimes em destacar a atmosfera amigável e simpática que
prevaleceu durante a audiência particular que Sua Santidade
João XXIII deu ao chanceler alemão e seu ministro de
Assuntos Estrangeiros, von Brentano. Podíamos até ler no
L'Aurore: "Essa reunião provocou uma declaração quase
inesperada do chanceler, ao responder ao discurso papal que
louvava a coragem e fé do dirigente do governo alemão: Creio
que Deus concedeu ao povo alemão um papel especial a
desempenhar nesses tempos conturbados: ser o protetor do
Ocidente contra as influências poderosas do Leste".
Combat observou com precisão: "Já havíamos lido isso antes,
mas de forma mais condensada: "Gott mit uns" - "Deus
conosco", na legenda do cinturão do uniforme dos soldados
alemães na guerra 1914-1918". O mesmo jornal acrescentou:
'A evocação do trabalho do doutor Adenauer atribuída à nação
alemã encontrou sua inspiração em uma declaração
semelhante do pontífice anterior. Somos, portanto, autorizados
a presumir que se o doutor Adenauer pronunciou essa frase
nas circunstâncias atuais, é porque pensa que seus ouvintes
estavam prontos para ouvi-lo".
"Teríamos que ser ingênuos e ignorantes em diplomacia
elementar para pensarmos que essa declaração "inesperada"
não fazia parte do Drograma. Apostamos também que não
lança nenhuma sombra na "conversa prolongada que
Adenauer teve com o cardeal Tardini, secretário de Estado da
Santa Sé, que ele recebeu para um almoço oficial na
Embaixada Alemã".
A interferência espetacular do Santo Ofício em política
internacional, através do cardeal Ottaviani, chocou até mesmo
os católicos que estavam acostumados há muito tempo às
invasões da Igreja Romana nos negócios de Estado. Roma
tinha consciência disso, mas a perpetuação da guerra fria era
tão vital e importante ao poder político do Vaticano, e até
mesmo sua prosperidade financeira, que não hesitou em se
pronunciar com tais visões políticas, apesar da primeira
declaração ter sido mal recebida.
A viagem de Kruschev à França, em março de 1960, deu-lhe
outra oportunidade. Dijon foi uma das localidades incluídas na
visita do líder soviético. À semelhança de todos os seus
colegas na mesma situação, o prefeito de Dijon deveria receber
com cortesia o convidado da República Francesa. A cidade de
Burgandy tinha um sacerdote como prefeito, o cônego Kir. De
acordo com a lei canônica, a Santa Sé havia autorizado
expressamente o padre a aceitar o seu mandato duplo - com
todas as funções e tarefas superpostas. Seu bispo, no entanto,
proibiu o prefeito-cônego de receber Kruschev. Nessa ocasião,
as funções de prefeito cederam espaço à batina. O visitante foi
recebido por uma assistente que substituía o prefeito ausente.
A forma tranqüila com que a "hierarquia" engoliu a autoridade
civil naquela ocasião levantou comentários ácidos. Em 30 de
março, O Le Monde escreveu: "Quem está realmente
exercendo autoridade sobre a prefeitura de Dijon: o bispo ou o
prefeito? E acima desses dirigentes: o papa ou o governo
francês? Esta é a pergunta que todos se fazem. A resposta não
deixa dúvidas: primeiro a teocracia A partir de agora, ao serem
recebidos por uma batina vestida ri» prefeito, os convidados da
República Francesa terão de receber bilhetes para a
confissão?"
No artigo acima mencionado, o editor do Le Monde também diz
com muita correção: 'Além dessa questão interna francesa, o
caso Kir traz à discussão um problema ainda maior. A ação do
Vaticano não se refere apenas às relações entre um prefeito e
seu governo Como aconteceu, constitui uma intervenção direta
e espetacular na diplomacia internacional. As reações que esse
caso provocou mostram que essa conclusão foi de quase toda
a opinião pública mundial. Nos Estados Unidos, em particular,
o público, que já havia presenciado as demonstrações hostis
organizadas pelos cardeais Spellman e Cushing durante a
visita de Kruschev, começou a questionar a verdadeira
independência que um presidente católico romano poderia
preservar com relação à Santa Sé. Muitos temiam, nesse caso,
ver a política internacional do país jogada de acordo com os
interesses da Igreja Romana - em detrimento dos interesses
nacionais, o que não deixa de ser um perigo em todas as
circunstâncias, mas em especial nesse caso".
A resistência contra uma "detente" Ocidente/Oriente foi então
organizada de forma aberta, após a "bomba" atirada pelo
cardeal Ottaviani. Um instrumento ridículo, alguns podem dizer,
comparado com aquelas bombas que ameaçam enterrar nas
ruínas (mais cedo ou mais tarde) às nações enlouquecidas que
chegaram a um impasse nesse antagonismo terrível. Os
jesuítas fizeram o melhor para afastar a pior "calamidade" que
poderia cair sobre a Santa Sé: um acordo internacional que
excluísse o recurso da guerra. O que seria do prestígio do
Vaticano, sua importância política, e todas as vantagens
peculiares e outras que procederiam disso, por causa de um
acordo desses? Não poderiam mais fazer tramóias, usar sua
influência, estender sua cooperação aos governos, favorecer
alguns e destruir outros, se opor às nações, criar conflitos para
seus benefícios próprios. E se, para servir suas ambições
infinitas, não pudesse mais recrutar soldados? Ninguém pode
ser enganado - e os jesuítas muitos menos do que niriguém -
um desarmamento geral destruiria a Igreja Romana como
potência mundial. O dirigente "espiritual" ficaria cambaleante.
Devemos, portanto, esperar ver os filhos de Loyola se opondo
com todo o seu arsenal de truques aos desejos de paz das
nações e dos governos. A fim de arruinar o edifício cujas
fundações estão tentando instalar, eles não medirão esforços.
É uma guerra sem dó, uma "guerra santa", lançada pelo
discurso louco do cardeal Ottaviani. A Companhia de Jesus
travará a batalha com a obstinação cega de um inseto - "ad
majorem papae gloriam" - sem qualquer ansiedade quanto às
catástrofes que podem resultar daí. O mundo deve perecer
para a supremacia do Pontífice Romano, se necessário!
(*) NOTA DO EDITOR:
Edmond Paris estava em desvantagem por não saber que a
"Prostituta do Apocalipse" já está entre nós. Os jesuítas
avaliaram a Terceira Guerra Mundial e decidiram que os
Estados Unidos perderiam, e o Vaticano sempre fica do lado
dos vencedores. Assim, desde então, estavam apoiando com
entusiasmo Moscou e até adquiriram um papa da Polônia
comunista. Moscou serviria ao Vaticano como base para
conquistar as nações onde o catolicismo romano seria a única
religião tolerada. A Rússia seria forçada a atacar Israel,
cumprindo-se assim as profecias da Bíblia, em Ezequiel 38 e
39. Hoje a guerra fria acabou - pelo menos assim parece ser; a
Rússia está sob controle, por enquanto, e os jesuítas preparam
seus próximos movimentos no sentido de manterem vivos os
seus objetivos.
Conclusão
Recapitulamos nesse livro as principais manifestações da
atividade multiforme desenvolvida pela Companhia de Jesus,
durante quatro séculos. Estabelecemos também que o caráter
militante, e até militar, dessa famosa instituição ultramontana
justifica plenamente o título freqüentemente atribuído a ela de
"exército secreto do papado". Na frente de batalha, "para a
glória de Deus" e especialmente da Santa Sé, os soldados
eclesiásticos dessa Ordem se entregam e são também
orgulhosos dela.
Ao mesmo tempo, se esforçam através de livros e da imprensa
devota que supervisionam, a despistarem tanto quanto possível
sobre as empreitadas "apostólicas" da ação que exercem em
seu campo favorito: na política das nações. A camuflagem
inteligente, os protestos de inocência, a revolta contra as
"tramas obscuras" atribuídas a eles pela imaginação atribulada
dos inimigos, ludo isso vem carregado da hostilidade unânime
da opinião pública em relação a eles, sempre e em todos os
lugares, e a inevitável reação contra suas intrigas que os levou
à expulsão de todos os países, inclusive os mais fortemente
católicos. Essas 56 expulsões, para citar apenas as principais,
fornecem um argumento infalível. Seria o suficiente para provar
sua natureza maiigna. Como não poderia ser prejudicial às
sociedades civis esse instrumento de imposição das leis
"espirituais" nos governos temporais? E essa lei - por natureza
- não teria a menor consideração pelos vários interesses
nacionais?
A Santa Sé, essencialmente oportunista, não adota esses
interesses nacionais quando coincidem ser os seus próprios.
Mas, se a Santa Sé puder dar uma ajuda significativa nesses
projetos, o resultado final será benéfico para ambos. Isto
também pôde ser visto em 1918 e1945.
Terrível contra os inimigos ou quem se oponha a ele, o
Vaticano, essa organização anfíbia cléricopolítica, é ainda mais
mortal com os amigos. Sobre tal assunto, T. Jung escreveu, em
1874, as seguintes linhas que não foram ultrapassadas ainda:
"O poder da França é inversamente proporcional à intensidade
de sua obediência à Cúria Romana".
Uma testemunha recente, Joseph Hours, ao estudar os efeitos
da muito relativa "desobediência" francesa, diz: "Não há
dúvidas sobre isso; por todo o continente e talvez por todo o
mundo, onde o catolicismo é tentado a se tornar político, é
também tentado a se tornar antifrancês".
Uma observação contundente, apesar do termo "tentado" ser
muito fraco. Concluímos que "obedecido" seria mais
apropriado. "Não é fácil se expor a essa hostilidade", eis a
conclusão que chegou o coronel Beck, ex-ministro dos
Negócios Estrangeiros da muito católica Polônia(2a): "O
Vaticano é um dos principais responsáveis pela tragédia do
meu país. Percebi tarde demais que tínhamos obedecido na
nossa política externa aos interesses unicamente da Igreja
Católica."
O destino do império muito católico dos Hapsburg não foi
realmente dos melhores. Quanto à Alemanha, tão amada pelos
papas, e especialmente por Pio XII, não deve ter ficado muito
satisfeita com o preço dos favores caríssimos prestados por
Sua Santidade no passado.
Imaginamos se a Igreja Romana colheu algum fruto dessa
louca aspiração de dominar o mundo, uma pretensão mantida
viva pelos jesuítas mais do que ninguém. Durante quatro
séculos, nos quais as fogueiras espalharam morte e ódio,
massacres e ruínas na Europa, na Guerra dos Trinta Anos até
a Cruzada de Hitler, a Igreja ganhou ou perdeu? A resposta é
fácil: o resultado mais claro e incontestável é a diminuição
constante da "herança de São Pedro", um final muito triste para
tantos crimes!
Teria a influência dos jesuítas trazido resultados melhores ao
Vaticano? Dúvidas... Um autor católico escreveu: "Eles sempre
querem concentrar o poder eclesiástico que controlam. A
infalibilidade do papa exaspera os bispos e os governos; no
entanto, a exigem no Concilio de Trento e a obtêm no Concilio
do Vaticano (1870). O prestígio da Companhia fascina, dentro
da Igreja, tanto os adversários quanto os seus amigos. Temos
respeito ou, pelo menos, medo dela. pensamos que ela pode
tudo, e agimos de acordo com isso".
Outro escritor católico afirmou categoricamente os efeitos
dessa concentração de poder nas mãos do pontífice: "A
Companhia de Jesus tinha suspeitas sobre a vida, a fonte da
heresia, e se opôs a ela com autoridade. O Concilio de Trento
parece já ser o testamento do catolicismo. É o último concilio
genuíno. 'Após esse, só haverá mais o Concilio do Vaticano,
que consagra a abdicação dos concílios. Estamos bem a par
dos ganhos do papa com o fim dos concílios. Que
simplificação! E que empobrecimento também! A Cristandade
Romana assume seu caráter de monarquia absoluta, fundada
agora e para sempre na infalibilidade papal. O retrato é bonito,
mas a vida cobra o seu preço. Tudo vem de Roma e Roma é
deixada sozinha para se apoiar apenas em Roma".
Mais adiante, o autor resume o que se deve creditar à
Companhia: "Talvez tenha adiado a morte da Igreja, mas por
um tipo de pacto com a morte???" Um tipo de esclerose, ou
melhor, necrose, se desenvolve e corrompe a Igreja, sob o
comando de Loyola. Os vigilantes do dogma, cujo caráter
antiquado acabam por reforçar com seu culto aberrante à
Virgem Maria: esses são os jesuítas - mestres da Universidade
Pontificai Gregoriana fundada por Ignácio de Loyola - que
checam o ensino nos seminários; supervisionam as missões;
controlam o Santo Ofício; animam a Ação Católica; censuram e
dirigem a imprensa religiosa em todos os países; padronizam
com "amor" os grandes centros de peregrinação: Lourdes,
Lisieux, Fátima, etc.
Resumindo, estão por todos os lados, e podemos ver como é
significativo o fato do papa, ao ministrar a missa, estar
necessariamente sempre assistido por um jesuíta. Seu
confessor também é sempre jesuíta. Ao manter a concentração
do poder nas mãos do Soberano Pontífice, a Companhia está
trabalhando para o papa e para si mesma,
beneficiária aparente desse trabalho, que pode repetir essas
famosas palavras: "Sou o líder deles; obedeço, portanto, suas
ordens".
Assim, é cada vez mais difícil distinguir a ação da Santa Sé e
da Companhia. Essa Ordem, no entanto, o verdadeiro pilar da
Igreja, tende a dominá-la absolutamente. Já faz muito tempo
que os bispos não passam de "funcionários públicos",
executores dóceis das ordens vindas de Roma, ou melhor, do
"Gésü".
Sem dúvida, os discípulos de Loyola se esforçam para ocultar
dos olhos dos fiéis a severidade de um sistema cada vez mais
totalitário. A imprensa católica, sob seu controle direto, assume
alguns tons ideológicos diferentes para dar a impressão de um
certo tipo de independência a seus leitores, de que é aberta a
novas idéias: os padres, que são todas as coisas para os
homens, praticam com empenho esses truques de circo que só
enganam os bobos. Por detrás dessa pequena "diversão",
entretanto, os eternos jesuítas estão vigilantes, como diria um
autor já mencionado: 'A intransigência é inerente a eles".
Capazes de fazer truques de mágica, por causa de suas
habilidades, sua característica por excelência é a
intransigência"
Encontramos excelentes exemplos dessa teimosia e do viés
insidioso no trabalho paciente dos membros da Companhia
para conciliar, por bem ou por mal, o espírito científico e
"moderno" com a doutrina, de forma a que o primeiro se curve
perante essa, e especialmente com essas formas
completamente idolatras de devoção - o culto de Maria e os
milagres - dos quais são ainda os mais dedicados propagandistas.
Dizer que esses esforços são coroados de êxito seria um
exagero: misturar fogo e água só faz fumaça. Mas até mesmo
a inconsistência dessas nuvens chega a agradar algumas
mentes sutis, apesar de conscientes dos perigos que os
pensamentos muito precisos trazem à fé sincera. "Vade retro,
satanás!"
A metafísica alemã é muito valiosa; podemos encontrar tudo o
que precisamos, e até mesmo o contrário. Não há superstição
infantil
que, após um tratamento, não adquira alguma aparência de
seriedade e mesmo profundidade. É engraçado acompanhar
nas publicações dos vários grupos culturais esses jogos
intelectuais. O pesquisador pode achar o material que precisa,
em especial aquele estudioso que, por uma tendência
aberrante, goste de ler nas entrelinhas.
Esses homens cheios de amargura não vivem na esfera
especulativa; os bons padres só se garantiram em fazer um
bom apostolado entre os "intelectuais", formando uma sólida
base temporal. Aos "dons do Espírito", que eles cedem
luxuosamente aos seus discípulos, acrescentam-se vantagens
substanciais. É uma tradição antiga.
Nos tempos de Carlos Magno, os saxões convertidos recebiam
uma camisa branca. Hoje em dia, os beneficiários de uma fé
descoberta recentemente, ou redescoberta, usufruem de outros
favores, especialmente no mundo acadêmico e científico: o
aluno não muito esclarecido passa nas provas sem
dificuldades; o médico que é "fiel", além dos clientes ricos, tem
a preferência ao tentar entrar em clínicas importantes, etc. Por
um mecanismo natural, esses recrutas escolhidos trarão outros
e, como a quantidade gera força, sua ação conjugada será
extremamente eficaz no que chamamos de esferas do poder.
Isso é o que se verifica na Espanha, segundo dizem, e também
em outros lugares. No Le Monde de 7 de maio de 1956, Henri
Fesquet dedicou um artigo importante à "Opus Dei" espanhola.
Ao definir a ação dessa "santa" e oculta organização, escreveu:
"Seus membros procuram ajudar intelectuais à atingirem um
estado religioso de perfeição através do exercício de suas
profissões e santificação do trabalho profissional."
Isso não é novidade, e Fesquet sabe disso, pois diz mais
adiante: "Eles são acusados, e parece que não se pode negar
o fato, de quererem ocupar os postos-chaves nas
Universidades, nas funções públicas e Privadas, nos governos,
para evitarem a entrada ou até mesmo para expulsarem os
descrentes e os liberais".
A "Opus" aparentemente entrou na França de forma
clandestina, em novembro de 1954, "trazida" por dois padres e
cinco leigos, doutores ou estudantes de Medicina. Pode ser
que tenha sido dessa forma, mas duvidamos se esse reforço
trazido "de trás dos montes" foi realmente necessário para a
continuidade do trabalho que tem sido desenvolvido há tantos
anos na França, principalmente nos mundos acadêmicos e da
Medicina, como alguns escândalos em exames e vestibulares
revelaram.
De qualquer forma, o ramo francês dessa ação, supostamente
"obra de Deus", não parece ser clandestino afinal, a julgar pelo
que François Mauriac escreveu sobre o assunto: "Fui
depositário de uma confidencia estranha; tão estranha, que se
não houvesse sido assinada por um autor católico que é um
amigo meu e em quem eu confio, chegaria a pensar que se
trata de uma mentira. Ele havia oferecido um artigo a um jornal
que aceitou a oferta de bom grado, mas nunca chegou a
publicá-lo. Alguns meses depois, meu amigo ficou irritado, fez
perguntas e finalmente recebeu esta resposta do diretor
daquele periódico: "Como você provavelmente deve saber, a
"Opus Dei" tem checado o que publicamos nos últimos meses.
E a "Opus Dei" se recusou a autorizar a impressão daquele
texto." Esse amigo me fez uma pergunta: "O que é a "Opus
Dei?" E eu, também francamente e candidamente pergunto o
mesmo".
Essa pergunta, que na verdade não foi feita tão
"candidamente" por François Mauriac, como pode parecer à
primeira vista, poderia ter sido feita a escritores, editores,
livreiros, cientistas, conferencistas, gente do Teatro e do
Cinema. A menos que ele prefira se informar pessoalmente nas
próprias centrais de edição. Quanto à oposição que
supostamente a "Opus Dei" enfrenta da parte dos jesuítas,
vemos que não passa de mera rivalidade de grupos. A
Companhia, como já dissemos e provamos, é tão "modernista"
quanto "conservadora", de acordo com as oportunidades, pois
está determinada a ter um pé em cada lado do campo de
batalha.
O mesmo jornal Le Monde publicou um artigo de Jean Creach,
ironicamente nos convidando a admirar um 'Auto-de-fé dos
jesuítas espanhóis", felizmente limitado aos trabalhos da
literatura francesa. Com certeza, esse censor jesuíta não
parece ser um "modernista", a julgar pelo que Jean Creach diz:
"Se o padre Garmendia tivesse o poder do cardeal Tavera,
aquele do olhar ressuscitado por El Greco como uma máscara
de luz esverdeada com púrpura, a Espanha só teria contato
com nossa literatura através de autores castrados ou até
mesmo decapitados".
Então, após citar vários exemplos engraçados do cuidado
purificador do reverencio padre, o autor nos conta essa
reflexão pertinente: "Será que as mentes formadas pelos
nossos jesuítas são tão frágeis que não podem entrar em
contato com o menor perigo de serem derrotadas por elas
mesmas?", sussurou uma "língua malvada". Diga-me, caro
amigo, se eles são incapazes de fazer isso, qual é o valor do
ensino que os faz tão frágeis?"
A essa crítica humorística, podemos responder que a dita
fraqueza das mentes moldadas pelos jesuítas é o principal
valor do seu ensino - bem como seu perigo. É a esse ponto
que sempre devemos retomar. Através de uma vocação
especial, apesar de algumas honrosas e até mesmo famosas
exceções, eles são os inimigos eternos da liberdade de
pensamento: são agentes da lavagem cerebral que já sofreram
a sua própria lavagem cerebral. Essa é a sua força, e fraqueza,
além de seu prejuízo.
André Mater declarou com muita pertinência o totalitarismo
absoluto dessa Ordem quando escreveu: 'Apesar da disciplina
que os une em espírito a todos os membros, cada um deles
age e pensa com a intensidade de outros trinta e nove. Esse é
o fanatismo jesuítico".
Mais terrível hoje em dia do que antes, esse jesuitismo
fanático, senhor absoluto da Igreja Romana, fez com que esta
se intrometesse demais nas competições do mundo político, no
qual o espírito militante e militar que caracteriza esta
Companhia se desenvolveu ainda toais. Sob seu cuidado, a
organização papal e a suástica lançaram um ataque fatal
contra o odiado liberalismo e tentaram estabelecer urna "nova
Idade Média", prometida por Hitler para a Europa.
Apesar dos planos prodigiosos de von Ledochowski, de
Himmler "nosso Ignácio de Loyola", dos campos de morte
lenta, da corrupção das mentes pela Ação Católica e pela
propaganda irrestrita dos jesuítas nos Estados Unidos, a
empreitada do "homem da Providência" foi um fiasco, e a
"herança de São Pedro", ao invés de crescer no Leste, foi
drasticamente reduzida. Um fato inegável fica: o governo
nacional-socialista, "o mais católico que já houve", também foi
o mais absurdamente cruel - sem excluir as comparações com
os bárbaros. Uma declaração extremamente dolorida para
muitos fiéis, mas seria correto meditar.
Nos "burgos" da Ordem, onde o treinamento foi uma cópia dos
métodos jesuítas, o senhor (aparente, pelo menos) do Terceiro
Reich formou essa "elite da SS" antes que, de acordo com
seus desejos, o mundo "tremesse"(mas ele também vomitou de
desgosto). Os mesmos motivos produzem os mesmos
resultados.
"Há disciplinas pesadas demais para a alma humana suportar
e que poderiam destruir uma consciência. O crime da alienação
de si mesmo mascarado de heroísmo. Nenhum mandamento
pode ser bom se, antes de qualquer coisa, corromper a alma.
Quando alguém se engaja plenamente em uma Ordem, os
outros seres humanos perdem muito de sua importância".
Os líderes nazistas não tiveram consideração alguma pelos
outros "seres humanos"; podemos dizer o mesmo dos jesuítas!
"Obedeciam ao seu ídolo". E essa obediência extrema foi
invocada pelos acusados de Nuremberg como desculpa para
seus crimes odiosos. Finalmente, recolhemos do mesmo autor,
que analisou o fanatismo jesuítico tão bem, esse julgamento:
"Reprovamos a Companhia com sua habilidade, sua política e
seus truques; atribuímos a ela todos os cálculos, os motivos
ocultos, os jogos desonestos; reprovamos ate mesmo a
inteligência de seus membros. Não há, na verdade, nenhum
país onde a Companhia não tenha experimentado grande
frustração; onde não tenha agido de forma escandalosa e
chamado para si o ódio do ultraje".
Se o seu maquiavelismo tivesse a profundidade que
geralmente se atribui a eles, será que esses homens "sérios e
reflexivos" se jogariam constantemente nos abismos que a
sabedoria humana pode prever, nas catástrofes que a própria
Ordem já enfrentara em situações semelhantes em outros
países?
"A explicação é simples: um gênio poderoso governa essa
Companhia; um gênio tão poderoso que luta até mesmo contra
blocos de pedra, como se pudesse quebrá-los, "ad majorem
Dei Gloriam". Esse gênio não é o prior, o seu conselho, os
dirigentes... É o gênio vivo desse corpo imenso, é a força
inevitável que resulta dessa união de consciências sacrificadas,
inteligências atadas. É a força explosiva e a fúria dominante da
Companhia, que resulta de sua própria natureza. "Em uma
grande acumulação de nuvens, a luz é poderosa e o trovão
está prestes a surgir".
Entre 1939 e 1945, o "trovão" matou 57 milhões de almas,
devastando e arruinando a Europa. Devemos ficar em guarda.
Outra catástrofe ainda pior pode estar escondida entre as
mesmas nuvens; a "luz" pode irromper novamente, jogando o
mundo no "abismo que a sabedoria humana pode prever", mas
se tivesse a infelicidade de se deixar jogar nele, nenhuma força
poderia resgatá-lo.
Apesar do que o porta-voz de Roma possa vir a dizer, não é o
"anticlericalismo" que nos fez estudar cuidadosamente a
política do Vaticano ou dos jesuítas, e denunciar seus motivos
e meios, mas a necessidade de esclarecer o público sobre a
atividade clandestina dos fanáticos que não retrocedem diante
de nada - e o passado provou isso. Durante o século XVIII, as
monarquias européias unidas exigiram a supressão dessa
Ordem maligna. Hoje em dia, ela pode orquestrar suas intrigas
em paz e os governos democráticos parecem não se
Preocupar com isso. O perigo ao qual o mundo está exposto
por causa desta Companhia é muito maior hoje do que no
tempo d "pacto familiar", e ainda maior do que quando as duas
guerras explodiram. Não podemos alimentar ilusões quanto às
conseqüências mortais que outro conflito mundial teria.
= = = = = =
ATENÇÃO:
Livro disponível gratuitamente na internet em
http://esnips.com/web/e-livros?docsPage=37#files
Acessado no CPR em 09-07-2006
Pr. Paulo Pimentel
Presidente do Centro de Pesquisas Religiosas
http://www.desafiodasseitas.org.br/